Sexta, 11 de setembro de 2026
O belíssimo cartaz da ópera "Chica da Silva", com a grife da Fundação Clóvis Salgado, dias 19, 21 e 23, no Grande Teatro Cemig Palácio das Artes. Foto: Divulgação/Arquivo Pessoal
Chica Inesquecível
Lembram daquela música linda “Latin Lover” (1977), de Aldir Blanc e João Bosco? “Nos dissemos que o começo é sempre inesquecível e, no entanto, meu amor, que coisa incrível, esqueci nosso começo inesquecível”. Esquecer o inesquecível! Esqueçam a Chica da Silva, em “O Romanceiro da Inconfidência” (1953), de Cecília Meireles.
Inesquecível e Eterna
Esqueçam principalmente o enorme sucesso do filme “Xica da Silva” (1976), de Cacá Diegues, com seu humor quase infantil e insistente erotismo que levaram três milhões de pessoas aos cinemas e que acaba de ser restaurado. Esqueçam a contagiante – até hoje, 50 anos depois - música tema do filme, assinada por Jorge Ben Jor e Roberto Menescal.
Eterna e Infinita
Esqueçam, como se fosse possível, os protagonistas do mesmo filme, a ex-escravizada, Zezé Motta como a “Rainha dos Diamantes”, Chica e Walmor Chagas como seu “escravo sexual e amoroso”, o contratador de diamantes, João Fernandes. Esqueçam ainda a novela “Xica da Silva” (1996), de Walcyr Carrasco, com Taís Araújo no papel principal.
A soprano Marly Montoni, que interpreta Chica da Silva, nas duas versões que encerram a temporada de óperas da Fundação Clóvis Salgado, em Diamantina e no Palácio das Artes. Foto: Divulgação/Arquivo Pessoal
Infinita e Múltipla
Reforçando, esqueçam o episódio sobre Chica da Silva, em “O Romanceiro da Inconfidência”, mas lembrem-se da quase profecia de Cecília Meireles, no mesmo livro: “Ainda vai chegar o dia de nos virem perguntar: Quem foi a Chica da Silva, que viveu neste lugar”. O dia chegou! Melhor, os dias chegaram e prometem ser memoráveis, inesquecíveis!
Múltipla e Misteriosa
Fechando a temporada de óperas 2026, a Fundação Clóvis Salgado apresenta duas versões de sua mais nova produção, um grande espetáculo que recupera, sob novas luzes, uma das principais personagens da história mineira. Amanhã, a ópera “Chica em Diamantina”, claro, em Diamantina, onde “reinou” Chica da Silva, quando ainda era Arraial do Tijuco (ou Tejuco).
Misteriosa e Lírica
Depois, “Chica da Silva”, nos dias 19, 21 e 23, no Grande Teatro Cemig Palácio das Artes, a ópera encomendada pela FCS com música de Guilherme Bernstein, libreto de Marcos Bernstein e Flávia Bessone. Na montagem, a Orquestra Sinfônica de Minas Gerais, o Coral Lírico de Minas Gerais e Cia de Dança Palácio das Artes.
Lírica e Palpável
A produção tem direção cênica de Julianna Santos, direção musical e regência de André Brant, coreografia de Regina Advento, figurinos de William Rausch, cenários de André Cortez e iluminação de Wagner Pinto. A direção geral é de Cláudia Malta. A soprano Marly Montoni, uma das mais importantes de sua geração, interpreta o papel-título da ópera.
A diretora cênica das óperas sobre Chica da Silva, Julianna Santos. Foto: Divulgação/Arquivo Pessoal
Palpável e Cantável
O tenor Ewandro Stenzowski dá vida ao contratador João Fernandes, companheiro da protagonista em intensa e contraditória relação. Grande equipe e elenco se unem para trazer ao público uma nova visão da história de uma personagem já muito retratada: entre a lenda e a figura humana, qual é a real Chica da Silva?
Cantável e Encantadora
Francisca da Silva de Oliveira, a Chica da Silva (ou Xica da Silva), é emblemática personagem do Brasil colonial do Século 18, famosa pela sua fulgurante ascensão social. Nascida escravizada, tornou-se uma das mulheres mais ricas e influentes da região de mineração de diamantes em Minas Gerais.
O maestro André Brant, à frente da Orquestra Sinfônica de Minas Gerais, um dos diamantes das óperas sobre Chica da Silva. Foto: Divulgação/Arquivo Pessoal
Encantadora e Mítica
A ópera “Chica da Silva”, afastando-se da ficção, está muito mais próxima do brilhante estudo histórico, “Chica da Silva e o Contratador dos Diamantes – O Outro Lado do Mito” (2003), da historiadora Júnia Ferreira Furtado, que separa os fatos reais da visão popular que sempre a pintou como mulher fatal e hipersexualizada. “Bruxa, sedutora, heroína, rainha ou escrava: afinal, quem era Chica da Silva?”.
Mítica e Real
Chica nasceu entre 1731 e 1735 no Arraial do Milho Verde (Serro). Ela é filha de Antônio Caetano de Sá, um militar português, com Maria da Costa, uma escravizada. Em sua juventude, Chica é vendida ao médico Manuel Pires Sardinha, de cuja união nasce seu primeiro filho, Simão Pires Sardinha. Em 1753, Chica é comprada pelo desembargador João Fernandes de Oliveira.
Real e Nobre
João Fernandes foi riquíssimo controlador da extração dos diamantes em Tijuco (Diamantina). Ele a alforria logo depois. Ainda que a Igreja e as leis coloniais proíbam seu casamento oficial, eles vivem em regime de concubinato estável durante 17 anos. Tiveram 13 filhos, todos reconhecidos pelo pai e portando seu nome, fato raro à época. Em 1770, João Fernandes volta a Portugal para receber a herança do pai.
Nobre e Herdeira
E leva com ele alguns de seus filhos homens que receberam educação e ocuparam importantes cargos no Reino. Ele deixa para Chica imensa fortuna, uma grande casa (ainda hoje preservada) e numerosos escravos. Chica utiliza sua riqueza para a educação dos filhos nas melhores escolas europeias e casar suas filhas com brancos da elite local.
O tenor Ewandro Stenzowski, que vive o contratador João Fernandes, companheiro de vida e glória de Chica da Silva. Foto: Divulgação/Arquivo Pessoal
Herdeira e Fértil
Chica morre dia 15 de fevereiro de 1796. Consolidando sua aceitação pela mesma elite branca, ela é enterrada no interior da igreja de São Francisco de Assis, privilégio reservado aos ricos e influentes. Mas, insistimos, quem era Chica da Silva? Rainha excêntrica que dominava o amante por seus charmes e sensualidade ou uma mulher inteligente que utilizou as brechas jurídicas e econômicas do sistema colonial para se emancipar?
Fértil e Inspiradora
Um símbolo de rebelião, de liberdade para seu povo ou uma mulher integrada ao sistema que chegou a possuir 104 escravos sem libertar nenhum deles em seu testamento? Uma pária rejeitada pela alta sociedade ou respeitada dama, membro de fechadas irmandades religiosas como a de São Francisco do Carmo? Sagaz, romântica, linda, aproveitadora, perdulária!
Inspiradora e Brilhante
Apaixonada, sobrevivente, pragmática, vítima algoz... Mito? Qual a verdadeira Chica? Ela não era uma abolicionista, nem uma simples sedutora. Mas, um perfeito exemplo de ascensão, em uma sociedade profundamente racista e patriarcal? É o que a ópera “Chica da Silva” tentará responder, tornando a mulher Chica, agora sim, eterna como os diamantes.
Capa do livro, “Chica da Silva e o Contratador dos Diamantes – O Outro Lado do Mito” (2003), de Júnia Ferreira Furtado, que não inspirou, mas ajudou a mostrar o outro lado do "Diamante Negro". Foto: Divulgação/Arquivo Pessoal
Outro belíssimo cartaz, agora, da ópera "Chica em Diamantina", também com a grife da Fundação Clóvis Salgado. Foto: Divulgação/Arquivo Pessoal








