Quarta, 24 de dezembro de 2025

Leônidas Oliveira que, nesta coluna, nos dá um presente de Natal em forma de aula. Aula perfeita para a ceia de hoje e o aniversariante de amanhã. Foto: Arquivo Pessoal

Natal esquisito

Hoje, como presente de Natal, uma coluna inspirada no texto, “Por que insistimos em símbolos que não nos pertencem?”, do MsC, PhD, arquiteto e urbanista, filósofo e professor, Leônidas Oliveira. “Sempre me causou estranhamento a forma como celebramos o Natal no Brasil”.

Natal estranho

“Em pleno mês de dezembro, sob calor intenso, chuvas de verão e paisagens verdes, insistimos em reproduzir um imaginário de neve, renas, pinheiros europeus e um Papai Noel vestido para um inverno que não vivemos”. Aqui entre nós, nós também estranhamos.

Natal estrangeiro

“É um Natal reconhecível, padronizado, mas profundamente deslocado do nosso clima, do nosso corpo e da nossa experiência cotidiana. Esse estranhamento se torna ainda mais evidente quando observamos a história cultural brasileira. O Brasil - e Minas Gerais em particular - soube adaptar, transformar e recriar quase tudo o que recebeu da Europa”.

Natal antropófago

Pausa para lembrarmos a “antropofagia cultural” da primeira fase do Modernismo no Brasil. Continua Leônidas Oliveira: “A arquitetura colonial ganhou outra escala e outros materiais. O barroco europeu tornou-se barroco mineiro, singular e original. As festas religiosas incorporaram ritmos, cores e gestos locais”.

Natal raiz

“A culinária foi completamente reinventada. Criamos sínteses culturais potentes, enraizadas no território e na mineiridade. Mas o Natal parece ter escapado a esse processo”. Convém retomar sua origem. O Natal antecede o cristianismo. Ele nasce das celebrações do solstício de inverno no hemisfério norte, quando a noite começa a perder espaço para a luz”.

Natal cristão

“Era uma festa do tempo, do recomeço e da esperança. O cristianismo, com inteligência simbólica, ressignificou essa data para celebrar o nascimento de Jesus Cristo. A partir daí o Natal passou a ter um centro claro e inequívoco: a encarnação. Deus se faz homem, nasce frágil, em uma manjedoura, sem poder, sem riqueza, sem espetáculo”.

Natal mensageiro

“O presépio não é ornamento; é mensagem. Ele afirma que o centro da celebração é Jesus e que sua vinda inaugura uma ética do cuidado, da humildade e do amor. E ponto. A confusão começa quando esse centro se dilui. Passamos a misturar o solstício que não vivemos, o inverno que não sentimos e símbolos que não dialogam com o nosso território, personagens modernos e comerciais”.

Natal cultural

“O Papai Noel - figura recente, exógena e associada ao consumo - ocupa o lugar simbólico que deveria ser de Jesus Cristo. O nascimento que deveria ser contemplado se transforma em cenário. A estética se sobrepõe ao sentido. O consumo se impõe à fé e à cultura. E o Natal perde sua clareza mais profunda”.

Natal confuso

“Essa confusão simbólica não está apenas em outras regiões do país. Minas Gerais também a vive. Repetimos, muitas vezes sem reflexão, imagens e cenários que pouco dizem sobre o nosso modo de vida. A diferença é que Minas ainda guarda referências capazes de nos ajudar a reencontrar o essencial, justamente porque a mineiridade preserva o valor da casa, da família, do encontro e do silêncio compartilhado”.

Natal popular

“O presépio mineiro é uma dessas referências centrais. Em Minas, ele não é mero adorno. É narrativa cultural, teológica e identitária. A cena do nascimento se mistura às montanhas, às casas simples, às figuras do povo. Jesus nasce próximo, possível, inserido na paisagem e na vida cotidiana. Ele nasce dentro da mineiridade, como experiência de proximidade, humanidade e pertencimento”.

Natal mineiro

“O Natal mineiro, quando vivido em sua profundidade, é menos espetáculo e mais gesto. Ele acontece na casa, na cozinha, na ceia compartilhada, nas novenas, nos silêncios longos e nos encontros familiares. É um tempo de tradição, fé, família e mineiridade. Mas isso não é automático”.

Natal espiritual

“É uma escolha cultural e espiritual que precisa ser reafirmada todos os anos. Talvez seja hora de um exercício simples de honestidade simbólica. Ou celebramos o solstício - que não é nosso - ou o nascimento de Jesus Cristo, que é o sentido do Natal cristão. O que já não se sustenta é essa mistura acrítica de símbolos deslocados, que apagam o centro da celebração e enfraquecem nossa identidade”.

Natal tropical

“Este texto é um chamado à reflexão. Culturas são vivas e podem ser repensadas. O Brasil soube reinventar quase tudo o que recebeu da Europa. Talvez tenha chegado a hora de fazer o mesmo com o Natal: menos cópia, mais identidade; menos ruído, mais sentido; menos espetáculo, mais Jesus; menos neve artificial, mais mineiridade e mais humanidade”.


No museu Inimá de Paula, Anaíne e Vanessa Pitchon. Foto: Edy Fernandes


No mesmo museu Inimá de Paula, Joana Veloso, Adriana Carneiro, Isabela Bertol e Bruna Gontijo. Edy Fernandes

Curtas & Finas

*Palmas para Leônidas Oliveira, mas como seria um Natal coerente com a realidade brasileira?

A ceia de Natal já é razoavelmente adaptada, incluindo pratos mais leves, como saladas e peixe (bacalhau), perfeitos para o verão.

A neve e as paisagens invernais do hemisfério norte são mais complicadas e, realmente, surrealistas no Brasil.

Poderíamos trocar as belezas da Lapônia por coqueiros e praias; montanhas e cachoeiras!

Os pinheiros cobertos de algodão são mais facilmente substituíveis, pois o que não falta ao Brasil é árvore. E que o IBAMA não nos leia!

Papai Noel? Já que queriam trocar as cores do uniforme da Seleção Brasileira de futebol, pelo vermelho, que tal fazermos o mesmo?

Um Papai Noel vestindo bermuda verde e camiseta amarela!

Trenó e renas! Pensando, pensando. Que tal um carro de bois, rangendo entre as estrelas?

O presépio? Este é o mais fácil de resolver, os melhores exemplos estão no Palácio das Artes, com a exposição, “Presépios de Minas em Mim”.

São mais de 70 presépios criados por artesãos mineiros, em diversos materiais, na Galeria Arlinda Corrêa Lima e na vitrine do Ceart, até 11 de janeiro de 2026.

Feliz Natal, mas ouvindo “Boas Festas (Anoiteceu)” (1933) de Assis Valente, OK?