Paulo Navarro | Entrevista com Cecília Barreto
Entrevista com Cecília Barreto. Foto: Aninha Fonseca
Aquarela de Minas
Toda vez que o assunto é violão, imediatamente nossa lembrança volta-se ao Toquinho, eterno parceiro de Vinicius de Moraes, mas que brilha até hoje, como compositor, músico e instrumentista, no caso, o violão, seu melhor amigo, seu “cachorro de cordas”. Como o whisky era o melhor amigo de Vinicius, seu “cachorro engarrafado”. Mas muito além da célebre parceria, Toquinho é um mestre do violão, como vimos, ano passado, no Palácio das Artes e como reveremos, em breve, no mesmo “templo” que, neste 2026, completa 55 anos. O “vinil”, “Toquinho Tocando” (1977), é um desconhecido monumento da MPB. Nele, temos “Choro chorado para Paulinho Nogueira”, homenagem do artista a seu professor de violão, outro mestre. Pronto! Chega de saudade! Falemos de nossa entrevistada, Cecília Barreto, certamente fã número 1 de Paulinho e Toquinho. A violonista, compositora e professora acaba de lançar o álbum “Cecília Barreto - Autoral III”, continuidade de uma série de registros iniciada em 2009, com composições inéditas marcadas pelo encontro entre diferentes gerações, estilos e parcerias musicais: viagens pela MPB, chorinho, bossa nova, moda de viola e jazz. Uma trajetória reconhecida tanto no universo erudito quanto na música popular brasileira. Toca, Raul, quer dizer, Cecília!
Cecília, parabéns! Você já nasceu violonista e compositora ou melhor perguntar quando se descobriu compositora e violonista?
Eu acho que já nasci gostando de arte. Minha família era muito artística. Meu pai era escritor, cronista; minha mãe gostava muito de música, cantava em casa. Então, eu já nasci num meio propício.
Ambiente propício para o violão? Que tipo de violão?
Mais tarde é que comecei a querer estudar violão. Eu já tocava violão cifrado, cantando. Depois resolvi estudar violão clássico, tomei gosto e estudei no Conservatório e no Palácio das Artes. Eu adoro violão clássico, mas o violão popular também me cativa. Se bem que eu sou mais especialista em solo.
Que tipo de composição?
Aí, o tipo da composição, qualquer composição, desde que seja boa. Gosto muito de música popular brasileira.
“Cecília Barreto - Autoral III” é só o nome de um álbum e de um show ou é mais autoral mesmo? Por que III?
Porque é o terceiro CD autoral. Tenho o I, o II e agora o III. A maior parte das músicas é autoral, letra e música.
Nele, músicas e surpresas?
Algumas são musicadas. Eu gosto muito de musicar poemas, então peço aos meus amigos poetas que me mandem letras. Quando me inspira, eu musico, retorno para verem se gostaram, e aí a gente bate o martelo. Esse CD três é mais coletivo. Tem muita letra de poetas meus amigos que musiquei e algumas, poucas, que são só minhas, letra e música. Gosto muito de dividir a criação.
Você esbanja e empresta o talento para outros grupos?
Olha, eu não esbanjo, não, sabe? Eu gostaria muito de esbanjar talento, mas o meu é muito mais suor, né? A gente corre atrás, estuda. Então, é, corre atrás, é esse o termo. Eu não empresto o meu talento para outros grupos, não. Os outros grupos é que me chamam para participar. Eu vejo aquilo que é possível fazer. Muitos eu recuso, porque eu não acho que sou boa em tudo, não, sabe? Mas, podendo ajudar, eu ajudo.
Você foi professora no Palácio das Artes, mas o que aprendeu lá, agora que ele está completando 55 anos?
Durante 30 anos! De violão clássico, música erudita. Tive muitos alunos que hoje são grandes músicos, compositores, violonistas, e que têm uma gratidão enorme. Eu adoro dar aula e fiquei lá por 30 anos dando aula. O Palácio das Artes me influenciou de todas as formas, porque cheguei lá e comecei a trabalhar com os músicos da Sinfônica. Aí fui fazer concertos. Toquei muito Vivaldi para violão e orquestra, junto com os músicos da Sinfônica.
Violão e orquestra, chique!
Fui convidada para tocar banjo e, depois violão, com a Orquestra Sinfônica. Convidada pelo Rui Ferreira para formar um naipe de violões, além de violas caipiras, inseridos na Orquestra Sinfônica, para fazer uma peça maravilhosa que ele escreveu, chamada “Sertão Sertões” e assim foi. O Palácio das Artes entra na minha vida para não sair mais. E as influências são todas.
“Nossos ídolos ainda são os mesmos”? Quais foram/são tuas influências?
Nossos ídolos ainda são os mesmos, porque ídolo não muda, não envelhece, né? Quando é ídolo, é para sempre. Claro que a gente vai descobrindo novos valores. Minhas influências foram muito nordestinas. A família do meu pai é toda nordestina e ele cantava muito Caymmi e Gonzagão. Fui muito influenciada por essas músicas, que amo até hoje. Depois, a música erudita entrou na minha vida com o Palácio das Artes, onde eu fui dar aula e toquei com a Sinfônica. Então, fiquei apaixonada também. Um dos meus ídolos eruditos, ou meio erudito, semierudito, é Heitor Villa-Lobos.
Voltando ao tema, que alquimia é essa entre chorinho, bossa nova, moda de viola e jazz?
Essa alquimia entre chorinho, bossa nova, moda de viola e jazz de que você está falando... Toda a vida gostei de transitar por todas as áreas, claro, respeitando os meus limites. Umas eu tenho mais facilidade, outras menos. Mas eu gosto de fazer de tudo um pouco. Não sou purista, gosto de transitar por todas as áreas. Fui uma das primeiras mulheres do Clube do Choro de Belo Horizonte. Adoro choro. Bossa nova, na minha adolescência e adoro todos da Tropicália: Caetano, Gil, esse pessoal. Gosto muito do Chico, que não se enquadra na Tropicália, mas é da época. Milton Nascimento é meu... eu sou apaixonada por Milton. Adoro Milton e outros tantos.
E aquela famoso Clube?
Clube da Esquina... adoro Clube da Esquina. Falei muito com o pessoal do Clube da Esquina, toquei lá no bar do Museu do Clube da Esquina com meu grupo de choro. É uma simbiose muito interessante. E o jazz entrou na minha vida porque eu fui fazer parte do jazz com Rodolfo Padilha, que tinha a Autêntica Jazz Band, ele me convidou para tocar e me deu um banjo. Aí estudei banjo e toquei com Rodolfo naquela banda de jazz.
Jazz, como dizem, raiz?
É jazz tradicional, adoro. Fiquei muitos anos tocando na Autêntica. Quando acabou, fundei a Nova Dixie Bento, nos mesmos moldes da Autêntica, que comandei durante 30 anos. Nós tocamos, fizemos concertos em vários salões, em várias praças, em vários festivais de jazz. Adoro o jazz. E o banjo também entra na minha vida assim, como acompanhante. Eu não solo banjo, mas eu acompanho legal.
Ao contrário de Cecília Meireles, Cecília Barreto recebe letras e poemas para musicar?
Menino, quem sou eu para me comparar à Cecília Meireles? Sou fã dela. Essa Cecília Barreto recebe letras e poemas, não é para musicar, não. Quando gosto, musico. E também faço letras, porque tenho vários poemas que são meus, letra e música. Então, é uma mescla. Não é assim: é isso, é isso; é aquilo, é aquilo, não. Depende da inspiração. Ok?
Pergunta cruel como o mundo: tem uma música favorita no novo álbum?
Essa pergunta não é cruel. Não tenho música favorita. Acho que todas as músicas que a gente fez nesse novo álbum e em todos os outros foram feitas com coração, então eu gosto de todas.
Mas.... Existe sempre um.... Mas.
Mas tem uma, em especial, pela qual sou apaixonada e choro toda vez que escuto e canto; um poema do Paulinho Pedra Azul, que Cadinho Nogueira, um violonista fabuloso, amigo meu, musicou, e ambos me deram em homenagem. Não é favoritismo, é amor.
Em plena Copa do Mundo, o Brasil não é mais o País do Futebol, mas ainda é o do Carnaval e da melhor música do mundo?
Eu ainda acho que o Brasil tem o melhor futebol do mundo. Eu adoro esporte, adoro futebol! Vejo tudo, vejo muito esporte, além da música. Então, eu acho que esse negócio de falar que o Brasil já foi, não existe. Ele ainda é. É preciso dar um incentivo, porque os incentivos estão morrendo. Eu adoro futebol!
Palmas para o otimismo!
Em plena Copa do Mundo, o Brasil ainda é o país do futebol. Espero que a gente ganhe o hexa. Mas é do carnaval também, porque, poxa, nosso carnaval é o melhor do mundo. E, olha, para ser bem sincera, eu acho a música brasileira a melhor do mundo. Estou meio puxando a brasa para minha sardinha. Mas você me perguntou o que eu acho, é isso.
2026 ainda tem repertório? 2027, como o céu, pode esperar ou não perde por esperar?
Meu querido, inspiração não morre com o ano não. 2026 ainda tem repertório. 2027 terá muito repertório. Eu tô na estrada. Enquanto eu tiver vida, sei que vou ter inspiração, graças a Deus. Me aguarde estar, um beijo.








