Domingo, 11 de janeiro de 2026
Pelas caras boas, em Arraial D’Ajuda, Bahia, Armando Nunes e o anfitrião Ellos Nolli não tiveram problemas no aeroporto. Foto: Arquivo Pessoal
Pelas caras bonitas, em belo espaço, Rita Nunes e Silvane Moraes também não sofreram no aeroporto. Foto: Arquivo Pessoal
Pelo alto astral e boa forma, na mesma balada baiana, Cira Carvalho, PN e Mariângela Lima, não se deixaram abater pelas armadilhas de viajar no Brasil. Foto: Arquivo Pessoal
Fechando a festança e aeroportos à parte, de bem com 2026, Marcos Flávio Queiroz Pinto, Renata Barroso Peixoto, Bruna e Luana Barroso Pinto e Pedro Guerra. Foto: Arquivo Pessoal
Aquarela do Brasil
Como pode um país como o Brasil, dono de infinito potencial, querer ser destino mundial de Turismo, sem oferecer o mínimo do básico? Quem teve como viajar no fim de ano, comprovou que, no Brasil, até rico passa fome de infraestrutura. Péssimas estradas e serviço aéreo de 13ª categoria. Deploráveis serviço, atendimento e qualificação de funcionários. Chuva, sol, calor insuportável, filas gigantescas para tudo e a causa delas: gente “saindo pelo Ladrão”.
Aquarela desbotada
Para os famosos “farofeiros”, tudo bem, estão acostumados e até gostam. Já os abonados provam do próprio veneno. Acostumados a jatinhos particulares ou íntimos da classe executiva e áreas VIP, enfrentam verdadeiras torturas, antes, reservadas aos pobres mortais. Se na morte somos todos iguais, agora tem muita gente percebendo que estamos todos no mesmo barco, no caso, o Titanic Brasil.
Desbotada e desdentada
Com certeza a Educação no Brasil seria decente, se as crianças ricas estudassem em escolas públicas. Os meios de transportes seriam mais humanos, se os poderosos andassem de ônibus e automóveis estradas afora. O Brasil seria mais seguro, não fossem as gaiolas de ouro que são os condomínios. A Saúde ofereceria atendimento e tratamento de qualidade, se todos dependêssemos do SUS. E por aí vai.
Desdentada e faminta
Voltando da Bahia vivo, e para que esta leitura não descambe em vale de lágrimas, vamos usar, a seguir, mais um texto inteligente, irônico, bem-humorado e crítico do cirurgião plástico escritor - e vice-versa - Carlos Eduardo Leão, em seu “Blog do Leão”. O clima já vem no título: “Sobrevivendo ao aeroporto brasileiro”. Vamos a ele. “Ultimamente, confesso, meu lado crítico anda perigosamente bem alimentado”.
Faminta e com vontade
“Resorts, Cruzeiros, Réveillons - nenhum escapou ileso da observação atenta deste iPad que, ao que tudo indica, virou uma espécie de tribunal portátil do cotidiano. Como todos esses destinos têm algo em comum - aeroportos - seria injusto poupá-los. E assim, com a serenidade de quem só reclama porque já viveu melhor, segue mais uma crônica sobre esse curioso espaço onde a civilidade entrou em conexão e nunca mais desembarcou”.
Faminta e mendicante
“Houve um tempo em que ir ao aeroporto era quase um ritual social. Um evento. Homem não embarcava sem terno e gravata; mulher, sem elegância à altura. Aeroporto era território de adultos bem-comportados, relógios sincronizados e passos contidos. Hoje, é uma mistura pouco inspiradora de rodoviária de beira de estrada com recreio de escola pública em dia de chuva”.
Mendicante e saudosa
“Lembro do Tio José - sempre há um Tio José nessas histórias. Elegante por natureza e por educação, fazia do Santos Dumont sua sala de leitura. Após a ginástica matinal, jornal debaixo do braço, café na mesa de sempre, pousos e decolagens como trilha sonora. Voltava para casa em paz, certo de que o mundo ainda obedecia a alguma lógica. O mundo mudou. O aeroporto também”.
Saudosa maloca
“Nada contra a informalidade de sandálias, bermudas ou moletons. Cada época tem seu figurino. O problema não é a roupa, é a ausência completa de noção. Hoje, atravessar um aeroporto brasileiro exige preparo psicológico equivalente a um Fla-Flu em final de campeonato. Gente gritando, celular no viva-voz, crianças em disparada olímpica entre malas e pernas alheias. O saguão virou pista de atletismo infantil”.
Maloca maluca
“As esteiras rolantes - aquelas criadas para facilitar a vida - transformaram-se em ‘lounges’ improvisados. Casais parados, famílias inteiras ocupando toda a largura, conversas longas e animadas como se estivessem num bar da Lapa. À direita, ninguém anda. À esquerda, ninguém passa. A esteira não rola, apenas sofre”.
Curtas & Finas
*Continua o Rei Leão: “Cenas pitorescas se sucedem com naturalidade assustadora. Passageiro cortando unha do pé enquanto espera o voo”.
“Outro, na sala VIP, indignado porque ninguém o acordou para o embarque - como se o ‘lounge’ tivesse obrigação maternal”.
“Há também o ritual das filas: filas para o raio-x, filas para embarcar, filas para ir ao banheiro”.
“No feminino, então, o xixi virou prova de resistência. No masculino, segue tudo rápido, prático e injustamente eficiente”.
“As filas preferenciais cresceram de tal forma que levantam duas hipóteses”.
“Ou o Brasil envelheceu de repente, ou todo mundo decidiu que merece prioridade”.
“Ou os aeroportos se adaptam, ou em breve viajar após os 60 será classificado como atividade radical”.
“A restituição de bagagem, por sua vez, é uma aventura. Malas surgem quando querem, se quiserem”.
“O passageiro, resignado, aguarda como domador sem chicote, torcendo para que a sua apareça inteira”.
“E então chegamos às aduanas. Ah, as aduanas! Tão demoradas, tão inexplicavelmente lentas, que permitem ao passageiro ler a Bíblia inteira”.
“Antigo e Novo Testamento - com direito a releituras, reflexões teológicas e talvez até conversão religiosa antes de liberar a mala”.
“Viajar continua sendo uma das grandes conquistas da humanidade. Transportar-se é o problema”.
“Aeroportos, rodoviárias e estradas brasileiras pedem mudanças estruturais urgentes”.
“Mas nenhuma obra resolverá o essencial: educação, civilidade e respeito ao coletivo”.
“Até lá, seguimos embarcando - não só em voos, mas em experiências cada vez mais surrealistas”.
É! Como dizia um saudoso amigo, “turista sofre”.
É! Como cantava o Milton Nascimento, “Saudade dos aviões da Panair”.
É! Como confessava outro, “no Brasil, precisamos de férias para descansar e esquecer as férias”. Vamos para a Venezuela?






