Paulo Navarro | Entrevista com Tânia Machado


Entrevista com Tânia Machado. Foto: Divulgação/Acervo Centro Cape

Arte Nata

Atenção, respeitável público! Hoje, invadiremos, pela porta da frente, mas sem quebrar nada, a maior feira de artesanato da América Latina, a “Feira Nacional de Artesanato – FNA” graça e obra do Instituto Centro de Capacitação e Apoio ao Empreendedor - Centro Cape, do próximo dia 3 ao dia 7, no Expominas.

Quase obrigatoriamente o tema é “Sustentabilidade”, por motivos óbvios: até que enfim o tal ser humano descobriu que a Terra não tem lata de lixo e o mundo, como tudo e todo mundo, também pode acabar. A proposta é convidar o público, expositores e entidades a repensarem materiais, processos e impactos socioambientais, unindo tradição e inovação.

Desde 2003, o Governo de Minas, via Diretoria do Artesanato Mineiro da Secretaria de Estado de Desenvolvimento Econômico de Minas Gerais, participa da “FNA”. Gigante que movimenta cerca de R$ 50 milhões em cinco dias, com a visita de aproximadamente cem mil pessoas e onde são gerados em torno de 3,5 mil empregos. Está tudo muito bem, tudo muito bom, mas falta o principal: o nome de nossa entrevistada de hoje, Tânia Machado, ninguém menos que a mãe, a organizadora da “Feira Nacional de Artesanato”.

Tânia, desde quando você se interessa por artesanato?

Desde criança! Na época de escola, a aula que mais gostava era “Trabalhos Manuais”. Sempre gostei de pegar coisas e transformar em “outras coisas”. Aprendi a costurar desde cedo e fazia minhas próprias roupas, não só para mim, mas também para meus amigos.

Como você criou a “Feira Nacional de Artesanato”, uma das maiores da América Latina?

Em 1983, tive que transformar meu “hobby” de fazer artesanato em negócio para sustentar a família. Inspirada num projeto do governo paulista, o “Feito em Casa”, criei o “Mãos de Minas” nos mesmos moldes. Assim, o apresentei ao Conselho Estadual da Mulher com o dado de que 87% da produção artesanal estava nas mãos das mulheres. Imediatamente, o Governo do Estado abraçou a ideia e o lançou.

Mas não era apenas um objetivo pessoal, correto?

O objetivo era promover o artesanato local, prestando todo o suporte necessário aos artesãos e geração de renda, por meio de feiras, cursos, oficinas e formalização da atividade. A maioria dos artesãos não emitia nota fiscal devido ao custo e ao processo burocrático. Em 1988, o “Mãos de Minas” se desvinculou do Governo e fez uma parceria com a GTZ para treinamentos, criando a “Associação Mãos de Minas”.

E decolou!

No ano seguinte, decidimos fazer a “Feira Nacional de Artesanato” com “a cara e a coragem”. Tivemos o apoio do Governo Estadual para o aluguel do Minascentro, mas arcamos com todos os demais custos e responsabilidades para a realização. Em 2004, criamos o Instituto Centro de Capacitação e Apoio ao Empreendedor, que passou a ser o realizador da feira e o responsável por oferecer todo o suporte ao micro e pequeno empreendedor, de treinamentos, exposições e workshops ao microcrédito.

O que vamos ver no Expominas?

Teremos 700 estandes de três mil artesãos de todos os estados brasileiros, apresentando todo tipo de artesanato: em madeira, tecido, fios, vidro, ferro, palha, cordas, papel, etc., além de arte indígena de vários povos nativos e produtos da nossa rica culinária.

Mas a feira vai oferecer mais...

Sim, teremos também oficinas, concursos, apresentações musicais e rodas de conversa. A Feira Nacional de Artesanato propicia não apenas a comercialização de itens artesanais, mas também uma rica experiência para o público que, este ano, estará cercado por atividades sustentáveis.

Arte e cultura rimando com sustentabilidade, a palavra do século?

É... A feira é organizada por uma ONG e uma de nossas formas de financiamento é através da Lei Rouanet. Fico revoltada quando falam mal de ONGs e da Lei Rouanet, generalizando, dizendo que tudo é roubalheira ou que elas são para benefícios pessoais. Se não fosse essa lei, talvez não tivéssemos conseguido chegar à 36ª edição. Então, este ano resolvi demonstrar que cultura também se preocupa com sustentabilidade e adotamos várias ações, como a compensação de 100% dos Gases de Efeito Estufa (GEE), por meio do plantio de mudas de árvores nativas; a reciclagem de pelo menos 80% das nove toneladas de lixo geradas e várias outras.

“Muito é muito pouco”?

Sei que existem eventos que fazem a compensação de GEE também, de forma pontual, mas compensar o deslocamento de 100 mil pessoas, 3,5 mil artesãos, 100% da energia e água, desconheço. Queremos demonstrar que, se uma ONG que cuida da cultura pode fazer isso, outros promotores de eventos também podem! É a nossa forma de informar que a cultura está atenta às questões climáticas e ambientais.

Quanto uma feira gigante cria de gases de efeito estufa?

No caso da nossa, que deve receber cerca de 100 mil pessoas, estimamos que gere mais de cinco toneladas de carbono. Esta projeção foi feita com base em cerca de 60% dos dados de 2023. Por isso, essas emissões certamente serão maiores. Já contratamos uma consultoria que nos entregará os números certos este ano.

E como esta quantidade está sendo compensada?

Por meio do plantio de mil mudas de espécies nativas da Mata Atlântica e do Cerrado em cinco áreas de Belo Horizonte: Serra do Engenho Nogueira e nos parques Brejinho, Vitória, Goiânia e Alfredo Sabetta. A iniciativa, que conta com a parceria com a Fundação de Parques Municipais e Zoobotânica (FPMZB), é desenvolvida pela associação “Bora Plantar”.

Desde quando as árvores estão sendo plantadas?

O plantio começou em novembro. 

A reciclagem também vai marcar presença?

Sim! Reciclaremos pelo menos 80% do lixo gerado e faremos campanha para que o público nos ajude a cumprir essa meta, jogando o lixo certo no local correto; premiaremos os artesãos que retornarem com suas embalagens às oficinas de origem para que sejam reutilizadas, bem como artesãos cujos produtos tenham recebido, antes do evento, o selo “Artesanato Sustentável”. Promovemos dois concursos entre os expositores: de Presépios Feitos com Materiais Reciclados e de Esculturas Feitas com Sucatas. As obras vencedoras serão exibidas na feira e poderão ser premiadas através de votação do público; teremos oficinas de transformação do lixo em arte.

Não seria bom continuar esta ação durante todo o ano de 2026 e para sempre?

Sim, nossa meta é manter para sempre esta ação que, apesar de ter um custo, não chega a 3% do total do evento. Temos certeza que em 2026 será mais fácil, pela experiência adquirida este ano, e pela sensibilização de todos os participantes: expositores, visitantes e prestadores de serviço. Uma das ações que ficará no ar o ano todo é uma calculadora dos GEE que estima as emissões de gases emitidos por uma pessoa ou uma família, com base nas informações fornecidas por elas próprias. Além de descobrir o valor estimado de suas emissões, essas pessoas saberão quantas mudas de árvores seriam necessárias para compensá-las.

O endereço para acessar a plataforma é: https://engear.ralssystems.com/calculaco2

Vale a pena conferir!