Paulo Navarro | Entrevista com Sérgio Rodrigo Reis
Entrevista com Sérgio Rodrigo Reis. Foto: Paulo Lacerda
55 Anos em 4
Há quase quatro anos, em 1º de julho de 2022, o jornalista e então presidente da Empresa Mineira de Comunicação – EMC, Sérgio Rodrigo Reis, foi nomeado presidente da Fundação Clóvis Salgado, gestora do Palácio das Artes, entre outros 60 espaços culturais do Circuito Liberdade, em Belo Horizonte. No mesmo dia, aqui em O TEMPO, Reis fez uma promessa que se tornou profecia: “o Palácio das Artes será do povo de Minas. O que mais me incomodava é que as pessoas passavam na porta, mas tinham medo de entrar. Se você perguntar aos gestores públicos, é uma minoria que já entrou no palácio. Está na hora de desmistificá-lo e torná-lo mais acessível para todos". Promessa cumprida!
No próximo dia 14, o Palácio das Artes, como maior complexo cultural da América Latina, segue quebrando recordes de público e completa 55 anos “consolidado como espaço democrático, inclusivo e acessível a todos. Oferece vasta programação de música, teatro, dança, cinema e artes visuais, além de visitas guiadas, formação artística pelo Centro de Formação Artística e Tecnológica - Cefart e projetos de acessibilidade, reafirmando seu compromisso com a diversidade e cultura para toda a população”.
Nossa segunda entrevista com Sérgio Rodrigo Reis está centrada nas comemorações dos 55 anos do Palácio das Artes, seguindo seu norte, cunhado pelo próprio presidente, como um templo voltado ao “Ontem, Hoje e Sempre”. Esta “Cidade das Artes”, cada vez mais dinâmica e presente, prepara uma série de comemorações em 2026, mostrando que sua vasta programação já é, na verdade, um legado de olho no centenário, em 2071. Mas chega de suspense! Com a palavra, o anfitrião desta festa sem fim, para a qual todos estão convidados.
A primeira pergunta no estilo “janela indiscreta”: quantos anos você tinha quando o Palácio das Artes foi inaugurado, em 1971? Ou você ainda nem havia nascido?
Ainda não havia nascido. Vim ao mundo em 1974, em Congonhas, quando o Palácio das Artes já começava a revelar sua força aos mineiros e a trilhar, passo a passo, uma trajetória que se tornaria vitoriosa, marcada por sonhos, ousadia e muitos aplausos.
É verdade que o Palácio das Artes levou 55 anos para se tornar o maior complexo cultural da América Latina, “da noite para o dia”?
Essa condição não surgiu de um salto, mas de uma construção contínua. O Palácio começou como espaço para exposições e concertos; depois vieram as óperas, os grandes espetáculos, as mostras. Ao longo das décadas, consolidou-se como um centro cultural democrático, plural e capaz de dialogar com qualquer linguagem artística. Essa versatilidade, somada à potência criativa, ao repertório construído ao longo dos anos e à sua sólida escola de formação, singularizou a instituição no cenário nacional - e a projetou para além dele.
Desde quando você é frequentador assíduo do Palácio das Artes?
Desde os anos 1990. Entrei ali pela primeira vez como estudante, quando passei a morar na capital, para assistir, com ingressos populares, ao balé “Nazareth”, do Grupo Corpo. Lembro-me da sensação exata: os bailarinos pareciam flutuar. Foi arrebatador. A partir daquele dia, passei a buscar outras experiências - concertos, exposições, mostras de cinema - e tornei-me frequentador constante. Quando me tornei jornalista especializado em cultura, o Palácio deixou de ser apenas um destino e passou a ser quase uma segunda casa.
Quais são tuas lembranças mais marcantes no Palácio das Artes como jornalista, diretor e presidente da FCS?
Como jornalista; jamais esquecerei o ano de 1998: quando o Palácio das Artes ressurgiu das cinzas com a reabertura do Grande Teatro, após o incêndio devastador no ano anterior. Foi um símbolo de resistência e reconstrução. Como diretor artístico, guardo na memória estreias que marcaram época, como a nossa última versão da ópera “Nabucco”, de Giuseppe Verdi - montagem que demonstrou a capacidade de realização da casa. E, como presidente, o momento mais gratificante foi ver o público de volta. Reconquistar relevância, encher salas, ter ingressos esgotados e disputados - isso é sinal de que o diálogo com a sociedade foi restabelecido.
E os maiores desafios nesses mesmos períodos?
Como jornalista, foi cobrir o incêndio que destruiu o Grande Teatro. Uma semana antes, eu havia escrito uma reportagem celebrando a reforma do espaço para o Fórum das Américas. Estava deslumbrante. Enquanto finalizava o texto, chegou a notícia: o teatro estava em chamas. A comoção foi imediata e profunda. Como diretor artístico, o maior desafio foi equilibrar sonho e realidade. A ambição estética muitas vezes esbarra em limites orçamentários, logísticos e produtivos. Fazer arte é também saber viabilizá-la. Como presidente, o desafio é ainda mais complexo: harmonizar interesses diversos e, ao final, entregar ao público a melhor experiência possível.
Modéstia às favas: que balanço você faz da sua gestão? Que legado fica?
Optamos por uma gestão participativa. Reposicionamos o Palácio das Artes como um dos principais centros produtores de arte, cultura e criatividade do País - quiçá da América Latina. Tornamos o espaço mais acessível, mais plural e verdadeiramente aberto a todas as manifestações artísticas e a todos os públicos. Quando chegamos, enfrentávamos grandes dificuldades de público. Hoje, celebramos espetáculos com ingressos esgotados. Isso, para mim, é um dos indicadores mais concretos de legado.
O que não conseguiu realizar? E o que ainda pretende fazer até o fim de 2026?
Não conseguimos viabilizar a reforma estrutural do Palácio. Elaboramos e aprovamos todos os projetos arquitetônicos e complementares, mas não haverá tempo hábil para executar as obras. Por outro lado, estamos preparando uma ampla programação para celebrar os 55 anos da instituição, ao longo de todo o ano, valorizando sua história e, sobretudo, sua capacidade permanente de reinventar-se.
De pouco servem as ações sem memória, concorda?
Concordo plenamente. E é surpreendente constatar que o Palácio das Artes chegou aos 55 anos sem uma publicação definitiva sobre sua própria trajetória. Essa lacuna será preenchida com o lançamento da “Coleção Palácio das Artes”, uma série de cinco livros que abordará: a história institucional; a coleção de artes visuais; a trajetória da companhia de dança; da Orquestra Sinfônica; e das óperas apresentadas na casa. Ricamente ilustradas, serão obras de referência para preservar e projetar esse legado.
Pergunta delicada: existe uma “menina dos teus olhos” dentro do Palácio das Artes?
Não é uma área específica que me encanta, mas os momentos de invenção. Quando estamos criando algo inédito, experimentando, desafiando limites - é ali que meus olhos brilham. A potência do novo é o que me move.
“Vida breve, arte longa”. Essa máxima vale para ontem, hoje e sempre?
Ela sintetiza o que o Palácio das Artes foi, é e continuará sendo no coração de quem ama, faz e vive a arte em Minas Gerais. A vida passa. A arte permanece.






