Paulo Navarro | Entrevista com Roque Antônio


Entrevista com Roque Antônio Soares Júnior. Foto: Mariana Botelho

Roque’n’roll

Divertir, divertir-se, aprender, ensinar, crescer; virar gente grande com jeito de ser humano, preservando a criança que (quase) sempre vive em nós. Ou pelo menos deveria! Brincar como linguagem essencial: Roque “Roquinho” Antônio Soares Júnior, nosso entrevistado, é referência no debate sobre infância, liberdade e cultura no Brasil. Ser brincante, curioso, interessado e pesquisador das infâncias é também o idealizador do Encontro Nacional com as Culturas das Infâncias Brasileiras, até dia 27, que agitará, com atividades, Belo Horizonte, Igarapé e Betim. Fundador da Carretel Cultural, Roquinho é hoje uma das vozes que cria “parquinhos; floridos e férteis jardins de infância” na sociedade brasileira. Uma alegre viagem do entretenimento à cultura, educação e ao desenvolvimento humano. Seu trabalho prova que brincar é uma forma de conhecimento, uma pedagogia. “Uma pedagogia das essencialidades, uma pedagogia que assenta no ‘ser humano novo’ e em quem brinca conhecimentos profundos sobre a natureza humana, sobre a vida em suas múltiplas dimensões e sobre o mundo que se habita”, garante. Bom, chega de brincar! Vamos falar sério. Ou não. Joga o dadinho, chuta a bolinha, caro Roquinho.

Grande pequeno Roque, entrevista com ou sem brincadeira?

Brincadeira, sempre! Nessa entrevista em que a palavra é o elemento básico, é também um elemento brincante. E eu te pergunto: O que é o que é que quanto mais a gente tira, mais a gente tem?

Buraco? Foto? Ou como cantava o Chico Buarque: “o que não tem governo, nem nunca terá, o que não tem vergonha nem nunca terá, o que não tem juízo”. Mas, agora sério: como você chegou a um trabalho de adulto, com cabeça de criança?

Não deixando desaparecer os traços da criança que fui e da infância que vivi. Acredito que se a gente preserva a linguagem original da criança e da infância que teve, continua senhor dessa linguagem. Com isso, podemos nos expressar e ser compreendidos pelas crianças. Ao mesmo tempo, compreender as crianças que estão diante de você.

Então, por falar nisso, o que são os Planos pela Primeira Infância?

O Brasil vive um movimento nacional de praticar programas para a Primeira Infância (de zero a seis anos). Em 2016, foi promulgado o Marco Legal da Primeira Infância (Lei nº 13.257/2016), que estabelece as diretrizes e políticas públicas para garantir o desenvolvimento integral de crianças dessa faixa etária. Esse Marco atualizou o Estatuto da Criança e do Adolescente ECA dando destaque à saúde, educação, cultura e proteção familiar. Desde então, governos federais, estaduais e municipais e sociedade civil vêm desenvolvendo iniciativas, estudos e pesquisas sobre o assunto. Ano passado, entrou em vigor a Política Nacional Integrada da Primeira Infância - PNIPI em cinco eixos estruturantes: viver com direitos, educação, saúde e dignidade; integração de informações e comunicação com as famílias. O desafio nacional agora é transformar a PNIPI em realidade. É para isso que estamos trabalhando há quase 30 anos.

Então, a infância já é ou deveria ser política pública?

Existem sinais muito significativos de que o entendimento sobre a infância evoluiu. O próprio conceito de ser criança, que não existia e hoje já existe. O ECA, que determina como a infância, deve ser compreendida e respeitada, traz isso. O PNIPI também é resultado dessa evolução. Timidamente, algumas políticas públicas já começaram a ser implantadas pelo país e Minas Gerais é referência, mas ainda temos uma longa estrada! O objetivo desse movimento é que a gente avance para a perspectiva de compreender o que dizem as crianças através da sua cultura, para que possamos elaborar políticas públicas inspiradas no que elas nos dizem como estratégia para a construção do mundo que a gente sonha; para pensar a pedagogia que a gente quer e que as crianças verdadeiramente merecem. 

Com brincadeira se aprende tudo e se desenvolve do jeito certo?

Brincar é uma pedagogia. Uma pedagogia das essencialidades. Uma pedagogia que assenta no ‘ser humano novo’ e em quem brinca conhecimentos profundos sobre a natureza humana, sobre a vida em suas múltiplas dimensões e sobre o mundo que se habita. A formação humana acontece em profunda relação com a natureza - sua diversidade, beleza e mistérios – que amplia nossa percepção do mundo e de nós mesmos. Ao se conectar com a natureza, a criança fortalece sua capacidade de imaginar, aprender e experimentar a sensação de infinitas possibilidades. Quando a gente olha para a vastidão do mundo, os horizontes largos e vastos, essa vastidão reverbera em nós e nós também temos a oportunidade de assegurar em nós vastidões interiores. É preciso estar diante da natureza, com a natureza, na natureza. Quando a gente retira o brincar do centro da vida das crianças, a gente empobrece não só a infância, mas o próprio tecido social. O brincar organiza pensamento, corpo, emoção e relação. Ele é uma forma de estar no mundo.

Brincando se faz um país do futuro, aquela máxima de que “o menino é o pai do homem”?

Acredito que brincar nos faz um país de agora. Brincar é um exercício constante de um conhecimento poderoso e profundo. É a criança estar de tal modo, envolvida e comprometida, que ela só tem aquele tempo. Ela não pode se distrair. Então ela está totalmente comprometida com a ação que ela desenvolve no presente. Precisamos tomar isso como inspiração: o que nos importa é o presente. Nós precisamos construir um país de agora que escute as suas informações, que construa uma prática que acolha e respeite a vida da criança agora. Uma das ideias centrais defendidas pelo movimento é que a criança representa a síntese da experiência humana, guardando em si a essência de tudo o que a humanidade construiu ao longo da história. Por isso, ela pode ser vista simbolicamente como a mãe e o pai de toda a humanidade. É ela a versão mais elaborada do ser humano, então ela também se faz mãe de toda a humanidade. Eu gosto dela, é uma imagem bonita e poderosa.

Cultura + educação + mobilização comunitária! Que matemática é essa?

Essa é uma economia natural, infância, natureza, cultura e comunidade. É o lema que rege a Carretel Cultural, que ao longo da sua existência vem buscando nos seus processos dialógicos com as comunidades brasileiras, se inspirar no que diziam as crianças e nos métodos e modos, estratégias das culturas das infâncias, para compor o seu próprio método, a sua própria estratégia. Então infância, natureza, cultura e comunidade, para nós, são o que rege os desafios e as perspectivas. É preciso que a gente afirme a infância e dê às crianças a oportunidade de se formarem em diálogo profundo com a natureza. É preciso que a gente fortaleça essa nossa perspectiva comunitária para que a gente seja um ser poderoso de fato. Eu acho que isso só acontece no exercício comunitário, para que a gente não adoeça sozinho no mundo. Enfim, infância, cultura, natureza e comunidade é uma soma natural, nasce de uma equação natural.

Resultado: brincar é coisa séria?

Penso que brincar é um processo de formação. Então a humanidade nova experimenta ou deveria experimentar o mundo, aprender, ler e interpretá-lo. E penso até que nós, adultos, deveríamos pensar que é preciso continuar brincando para que a gente continue nesse exercício de nos formarmos para interpretar o mundo em suas linguagens diversas. É como se fosse um processo de alfabetização, em que a gente, gradativamente, de maneira coletiva, se prepara para ler o mundo e ler todas as linguagens que estão postas sobre o mundo. Ler as coisas mais singelas e as coisas mais complexas. Então, estarmos prontos para um diálogo com o mundo. Com a natureza do mundo, nós, seres humanos, adultos e crianças, construirmos aquilo que a gente compreende que é melhor para nós, sem deixar de fora o que é melhor para o planeta e para toda a vida que o planeta abriga.