Paulo Navarro | Entrevista com Roberto Willians
Entrevista com Roberto Willians de Santana. Foto: Arquivo Pessoal
O Trem da Prosperidade
Este “samba” vai para quem já teve a sorte e/ou o privilégio de viajar de trem. A Europa tem o Eurostar ligando o Reino Unido ao continente. Na França, o TGV, trem de grande velocidade, liga Paris a várias cidades na França e vizinhança, fazendo linda rima rica. E quem já não leu/ouviu falar do "Orient Express", trem, literalmente, de literatura e de cinema, a famosa linha, conhecida por seu luxo e que ligava a já citada Paris a Istambul, Turquia, em seu auge. Hoje, talvez, corre somente de Londres à Veneza. E as mil e uma rotas nos Estados Unidos? Sem falar na China! E no Brasil “grande e bobo”? Imaginem o sonho impossível de um trem de carga e passageiros unindo, por exemplo, Porto Alegre à Fortaleza! E o saudoso e famoso "Trem de Prata", “verdadeiro hotel sobre trilhos”, que levava do Rio de Janeiro a São Paulo? Imaginem, por fim, se todo transporte pesado, no Brasil, fosse realizado sobre trilhos e não pelo caro, lento, péssimo e assassino asfalto selvagem? Imaginem e sonhem como as ferrovias fariam bem à Economia e ao Turismo neste país continental, bonito por natureza, abandonado por Deus nas mãos de quem só quer saber de avião? Para quem só conhece a Maria Fumaça de Tiradentes, ou o trem de Matusalém que liga BH à Vitória (ES), conheçam, na entrevista de hoje, Roberto Willians de Santana. Ele é membro do Núcleo de Desenvolvimento Tecnológico Ferroviário do Estado de Minas Gerais (NDF/MG), do Instituto da Qualidade Ferroviária (IQF) e diretor técnico geral da primeira startup ferroviária de Minas, ligada ao NDF/MG. “Estamos na jornada da retomada ferroviária em Minas Gerais e no Brasil, através de estudos preliminares de viabilidade econômica e comercial dos trechos abandonados, por meio de visitas nas cidades, em conversações com o empresariado e população, inclusive participando de audiências públicas: uma jornada de coração, técnica e esperança”. O sonho acabou, mas a realidade vai começar!
Roberto, brevemente, o que é o Núcleo de Desenvolvimento Tecnológico Ferroviário do Estado de Minas Gerais?
O coração acadêmico da retomada. A materialização de um sonho coletivo que pulsa nas veias de quem acredita no poder transformador das ferrovias. Inaugurado em 2022, na Universidade Federal de Viçosa, o NDF nasceu do amor pela preservação ferroviária, liderado por visionários como Jershon Aires; o professor, Julio Campos, coordenador geral do NDF/MG e nós na articulação junto ao empresariado do setor, tais como Abifer, Alaf, Simefre, Anptrilhos, Gpaa, Aenfer etc.
E o Instituto da Qualidade Ferroviária?
É a excelência como missão de vida. Nascido em 2023, no “Fórum Ferrovias em Foco” em São Paulo, no IPT - USP, é o guardião da segurança, da confiança e da esperança de milhões de brasileiros que sonham com trens seguros e eficientes. Resposta apaixonada do empresariado brasileiro que compreendeu uma verdade fundamental: qualidade não é luxo, é necessidade vital.
E a primeira startup ferroviária de Minas?
Athenas Projetos, ponte dourada entre o mundo acadêmico e as necessidades do mercado ferroviário. Como uma moderna Atena, deusa da sabedoria, nasceu para ser a mediadora inteligente entre os desafios das empresas e as soluções da pesquisa. Seu objetivo é mediar demandas das empresas, seus desafios de rotina e as pesquisas voltadas para o segmento.
Concorda com a máxima "todo mineiro tem um trem de ferro apitando nas veias" atribuída ao jornalista Jorge Fernando dos Santos?
A poesia que virou realidade. O diagnóstico preciso da alma mineira. Vejamos a grandeza numérica: 5.000 quilômetros de malha ferroviária - a maior do país. 180 municípios conectados pelos trilhos da história. Oito grandes regiões de desenvolvimento econômico e social. Minas tem a maior malha ferroviária do Brasil e, no entanto, é o estado que mais perde.
No novo e feliz slogan do Governo de Minas, “Aqui o trem prospera”, tem lugar para as ferrovias?
Slogan que carrega esperança; uma declaração de fé no futuro ferroviário do estado. O Governo do Estado desenvolve um plano estratégico de logística e transporte que, apesar de tímido, já é um grande passo. O modal ferroviário é capaz de integrar, desenvolver pessoas, processos e mercadorias.
E no Brasil de “dimensões continentais”? Não é um absurdo, vergonha e desperdício, o “sumiço” das ferrovias?
O sumiço das ferrovias é reflexão dolorosa e necessária. Em 1995, o PIB brasileiro era maior do que o da China, fato que carrega o peso de oportunidades perdidas e a urgência de decisões que não podem mais esperar. A China, com visão de Estado, compreendeu que ferrovia é uma questão civilizatória, consequentemente de Estado e investiu de forma massiva: 45 mil km de trens de alta velocidade, contra apenas 10 mil km da Europa. Crescimento: 5% a 7% ao ano. 15 anos para transformar completamente a civilização do transporte.
Faltam trens e ferrovias para o transporte de carga e principalmente para o de passageiros?
A ausência de trens para carga e passageiros é uma realidade. O trem era para ser subsidiado pela carga na antiga Rede Ferroviária Nacional. No entanto, ao desestruturar a rede ferroviária, nós perdemos a capacidade de investir no transporte de passageiro. Transporte da população não é negócio, é direito. Cada estação abandonada, cada trilho enferrujado, cada apito silenciado representa não apenas infraestrutura perdida, mas sonhos interrompidos, famílias separadas, oportunidades que se esvaem como fumaça de locomotiva que não mais existe. Entretanto, o caminho de consórcios por regiões podem garantir retomada dos trens de passageiros, com sustentabilidade, como outros países o fazem, portanto uma grande esperança, proposta esta apresentada em audiências públicas, lançada em 30 de Agosto de 24, no “Grito de Ponte Nova”.
Ferrovias são caras e demoradas em sua construção, mas são eternas. São também viáveis?
As ferrovias são caras e demoradas, por pertencerem a uma área da economia de média a alta complexidade, de natureza inter-regional e, portanto, de complexidade territorial. Não há como desenvolver de forma abrupta todo o processo - vide a China: 15 anos para mudar a paisagem do transporte, tronco na sua civilização, incluindo e estruturando o modal ferroviário. As ferrovias não seguem a lógica do imediatismo moderno. Elas exigem visão de Estado, pensamento além de mandatos, paciência estratégica e fé no futuro.
Como “andam e correm” as audiências públicas para a realização deste sonho?
Onde os sonhos encontram vozes, um verdadeiro périplo democrático: quatro audiências na Assembleia Legislativa e cinco em câmaras municipais, incluindo Belo Horizonte. Centrei minha exposição no impacto econômico e social; sentido para a vida de empresas e, sobretudo, da população. Cada audiência foi uma oportunidade de plantar sementes de esperança.
O que vai acontecer dia 28 de novembro?
É o dia que pode mudar tudo. No Instituto de Pesquisas Tecnológicas - IPT - USP, vamos promover um evento que promete ser histórico; uma apresentação técnica e o lançamento de uma nova era.


