Paulo Navarro | Entrevista com Rick Alves


Entrevista com Rick Alves. Foto: Iury Wang

Quick Rick

Rick Alves nasceu em São Paulo, mas filho de mineiros, cresceu no interior de Minas. Mudou-se para Belo Horizonte em 1997, para atuar no espetáculo “Leça Arca de Noé”, ao lado de Odilon Esteves e Wesley Marchiore. Em 1998, funda o Espaço Cênico Escola de Atores. Desde então é responsável pela formação de novos talentos e pela promoção de intercâmbios culturais. Além das mostras anuais e das aulas de interpretação, o espaço traz artistas e diretores de diferentes partes do mundo, promovendo enriquecedora troca. Em outros capítulos, trabalhou com nomes da televisão, do cinema e da música. No cinema, foi responsável pela direção de elenco e supervisão de roteiro, no filme “Flops - Agentes Nada Secretos”, com Lucas Rangel, lançado pela Netflix (2020).

Atualmente, assina a direção de “casting” do novo filme de Helvécio Ratton, em produção, previsto para ser lançado no próximo e feliz ano novo. Também está produzindo seu filme, “Eloi”, no qual assina a direção e o roteiro. Na música, é idealizador do Festival de Música Pop Autoral “É pop BH – Epopbh”, ao lado do cantor Gustavo Fraga.

A seguir, mais detalhes e curiosidades sobre o artista inquieto, que acredita em compartilhar e ensinar como um eterno aprendiz. Ele vai detalhar o Espaço Cênico, explicar a “Noite Cênica” e o “Espaço Baila”. Ao final, vocês vão saber por que Rick Alves gosta tanto de celebrar. Podem abrir as cortinas, por favor. 

Rick por Rick? Apelido ou nome artístico?

Nome artístico. Logo que um estudante de teatro, artes cênicas, se forma, recebe um diploma e, para ter seus direitos como artista preservados, deve procurar o sindicato do seu estado (SATED) e receber o registro profissional. É conhecido em território nacional como “DRT” e, neste momento, podemos optar por registrar um nome artístico. Foi quando decidi me registrar como Rick Alves, que não vem de Henrique nem de Ricardo, mas em homenagem ao meu bisavô alemão, Richard Baptista. 

Diretor, teatrólogo, cineasta! Também já foi ator? Como começou?

O teatro sempre chamou minha atenção e, desde os tempos de escola, participava de tudo que envolvesse a encenação. São Paulo é uma cidade que respira arte. Estudei em colégio de jesuítas que realizava muitas mostras artísticas, sempre com contexto pedagógico e grandes produções. Também morei no interior de Minas, numa pequena cidade, Malacacheta, onde as encenações religiosas eram muito fortes e que, apesar do contexto religioso, não deixam de ser uma atuação. Aliás, o teatro surge no Brasil com as obras dos jesuítas, no intuito de catequizar os índios. O que parecia ser somente uma participação em feiras e eventos comemorativos, tornou-se uma profissão, ao me matricular em uma escola de atuação. Passei por diretores como Elias Andreato, Celso Frateschi, Sebastião Apolônio, Eugenio Barba e escolas como a do Palácio das Artes, UFMG, EICTV Cuba; atuando em mais de 20 espetáculos como ator.

O que é o Espaço Cênico que completa 27 anos?

Um espaço de investigações artísticas, para promover as artes cênicas e desenvolver novas manifestações, tanto para continuar produzindo novos pensamentos sobre o fazer artístico, quanto para reforçar o papel das artes, fundamental para o ato de viver. Temos a escola de atores, os cursos para crianças e adolescentes e aqueles voltados a executivos que buscam o teatro como desenvolvimento de comunicadores. Na música, realizamos o festival de música pop autoral, “Epopbh”. No cinema estamos sempre promovendo algum encontro sobre o tema e trabalhando em produções.

Quantos alunos e qual o perfil deles?

Hoje o Espaço Cênico é uma das maiores escolas do Brasil, onde circulam, mensalmente, mais de 300 alunos, entre crianças, adolescentes e adultos. Temos gente interessada na carreira artística ou que busca o teatro para se desinibir, para trabalhar a comunicação e até como arte terapia.

O que é o “Espaço Baila”? Como foi?

O “Espaço Baila” acontece desde a fundação da escola em 1998, e é um momento muito esperado por ex-alunos e artistas que passaram pela escola. É um ritual com música, performances e rodas de conversa. Na origem do teatro vamos encontrar várias referências festivas. Isso gera encontro, intercâmbio; promove trocas artísticas e ações cada vez mais fortes.  O “Espaço Baila” é um convite ao encontro.

Existe diferença entre ator de teatro, de cinema e de TV?

A base da boa formação artística é o teatro, onde se aprende a ter consciência da respiração, das nuances vocais, do que é orgânico; onde se desenvolve a capacidade de improvisar e esvaziar-se para preencher-se com o personagem. A diferença está na linguagem, nos processos, nos enquadramentos. Na TV e no cinema a experiência é diferente, no ritmo e até no tempo de preparação. A relação com os demais atores, nem sempre é de convivência, mas mais mecânica, na maioria das vezes. Teatro é ao vivo, se ensaia junto e a experiência num meio ou no outro é que faz a diferença, mas o ator continua o mesmo e explorando seu potencial de forma diferente.

Como foi e o que foi a mostra, “Noite Cênica”?

Mais uma iniciativa do Espaço Cênico, um encontro que incentiva a escrita, o trabalho autoral. Os alunos e convidados apresentaram performance artística autoral. Tivemos mais de 30 cenas curtas com trilha sonora ao vivo e textos inéditos criados pelos próprios alunos recém-formados. Além das encenações, tivemos conversas sobre roteiro e sobre o mercado artístico e as novas dramaturgias.

O segredo é ser inquieto e compartilhar?

Não sei se existe uma receita, mas acredito que um indivíduo incomodado, que propõe, além de criar e contribuir com seu meio, tem muito mais possibilidades de conquistar seu espaço e evoluir como cidadão. Compartilhar conhecimento é um ato generoso e de muita utilidade. Além de provocar novas manifestações e fazer com que a continuidade aconteça. Ainda mais nas artes que precisam de muita força. Arte é combustível para que a humanidade tenha um mínimo de sanidade e continuar existindo de maneira mais equilibrada.

Outro segredo é celebrar?

Celebrar é a capacidade que todo indivíduo deveria ter; celebrar é agradecer, é reconhecer que está tudo bem. Desejar mais é do humano, que já nasce na falta. Assim, precisamos dialogar com este desejo insano de ter, de reconhecer diariamente as conquistas, celebrar sempre. E envolver aqueles que contribuem ou contribuíram com as conquistas, isso fortalece os laços e também inspira as pessoas.

Rumo aos 30 anos, até aqui deu certo, quais são os próximos passos, muitos planos?

Continuar inventando, criando novas conexões e realizando neste universo das artes cênicas que é infinito. Eu crio pensando no aqui e agora, nem penso no tempo. Quando paro para pensar é que vejo que são quase três décadas. Isso é alguma coisa, certamente deixei e vou deixando muitas provocações pelo caminho.