Paulo Navarro | Entrevista com Priscila Natany
Entrevista com Priscila Natany. Foto: Autorretrato
Nos Palcos e Bailes da Vida
Como e para que apresentar a entrevistada de hoje, Priscila Natany, quando ela já fala tudo e mais um pouco, em todas as respostas? Talvez com um resumão: “Até dia 23, três espetáculos gratuitos se apresentaram/apresentam na Funarte MG, reunindo uma seleção de artistas emergentes com criações nas linguagens do teatro e da dança. A Mostra “Em Cena: Novos Talentos" chega a Belo Horizonte com uma seleção de artistas emergentes. A programação integra diferentes linguagens cênicas e propõe um espaço de visibilidade para grupos e criadores que desenvolvem pesquisas autorais no campo das artes cênicas e da dança. Os espetáculos “Outono” e “Ensaio para o fim” já foram levados pelo vento, mas, estão aí, do dia 21 ao dia 23, “Retratos”. A mostra é uma resposta à dificuldade de acesso a espaços de apresentação para artistas novos. “Ao reunir esses trabalhos, buscamos dar visibilidade e também tensionar as dinâmicas de circulação e legitimação dentro da cena cultural”, diz a mesma atriz Priscila Natany, idealizadora da mostra. Bom, a seguir, como tudo começou, continua e pretende durar, incluindo a produção cultural. No mais, aproveitem esta mostra e todas as outras porque em Arte e Cultura, sempre “falta estrutura, falta mercado, falta patrocínio, falta investimento”. Em compensação o pulso ainda pulsa, atua e dança, graças as leis de incentivo, como a Aldir Blanc, aquele que escreveu “O Bêbado e a Equilibrista”, um tipo de balança, mas não cai, agoniza, mas não morre, porque, enfim, o show deve continuar. Leitura, palmas e, depois, um cafezinho. Melhor, cafezinho durante a leitura e xícara na mesa, na hora dos aplausos, por favor!
Priscila, resumidamente, qual a história e as estórias da atriz Priscila Natany?
Sou formada pelo teatro de grupo. Fui me formando atriz dentro da sede de uma companhia, a Cia Teatral ManiCômicos, um grupo que foi fundado em São Paulo e depois migrou para São João del-Rei, minha cidade natal. Então, desde muito cedo, cresci artisticamente convivendo com a ideia de coletivo e de treinamento continuado. A base da minha formação é técnica: disciplina, pontualidade, escuta, rigor e entendimento de que o teatro é sempre uma construção compartilhada. Uma parte fundamental da minha formação aconteceu sentada na plateia. Também fiz muitas oficinas, workshops e processos formativos: prática, observação e curiosidade. Foi no teatro que encontrei uma maneira de me aproximar das coisas belas do mundo. Gosto disso!
E da produtora cultural?
Um desdobramento do próprio “fazer teatral”. Formei-me aos 19 anos. A proposta era participar de todas as etapas da criação: atuação, produção, divulgação, organização e construção dos processos. Então, desde muito cedo, eu me acostumei a estar envolvida em tudo. Muitos dos meus colegas integravam a primeira turma do curso de Teatro da UFSJ, inaugurado em São João Del Rei em 2009. Acho que eles perceberam em mim uma entrega muito grande. Quando chegaram ao último ano da graduação e precisaram desenvolver o espetáculo de conclusão de curso, me convidaram para dirigir. Foi assim que dirigi meu primeiro espetáculo e comecei também a me aproximar da produção cultural. Passei a entender os bastidores da realização de um espetáculo: inscrição em festivais, organização de circulação, comunicação, articulação de equipe, viabilização do projeto, etc.
E da idealizadora de “Em Cena: Novos Talentos”?
Em 2022, a Funarte lançou um edital de circulação para a região Centro-Oeste do país, onde nasceu uma pequena mostra de trabalhos mineiros em Brasília. E acho que ali aconteceu uma primeira faísca muito importante para mim: entender a potência do formato mostra. A Funarte sempre teve um papel muito importante na minha trajetória. Grande parte das oportunidades de circulação e encontro que vivi ao longo dos anos passou por políticas públicas fomentadas pela instituição. Então existe algo de muito simbólico para mim no fato dessa Mostra também acontecer dentro de um espaço da Funarte. A mostra veio de uma inquietação. Como artista do interior de Minas Gerais, eu também carrego uma vontade muito grande de criar espaços para novas vozes e novos artistas.
A importância de “descentralizar”, para além de BH.
Existe uma camada anterior a tudo isso, que para mim é muito marcante na experiência de ser artista no interior: a sensação constante de distância. Distância dos centros de circulação, das oportunidades, das informações, dos espaços de formação. Muitas vezes, a gente demora mais para entender como certas estruturas funcionam, porque o acesso não chega da mesma maneira. Não é falta de potência, é uma questão concreta de acesso e proximidade.
Quais e quantos são os novos rostos e corpos da cena cultural?
Acho impossível quantificar esses novos corpos da cena cultural, porque eles estão aparecendo o tempo todo, em lugares diversos. O interior de Minas, por exemplo, está cheio de artistas produzindo trabalhos sofisticados, sensíveis e contemporâneos, mesmo longe dos grandes centros. O que muda agora é que existe uma urgência maior de ocupar espaços, de criar redes e de contar as próprias histórias.
O Teatro e a dança agonizam, mas não morrem, ou continuam pulsando?
Eu acho que o teatro e a dança agonizam, sim. Agonizam porque falta estrutura, falta mercado, falta patrocínio, falta investimento, mas ao mesmo tempo pulsam mais do que nunca. Justamente porque existe algo no acontecimento ao vivo que nenhuma tecnologia consegue substituir. Existe uma experiência de presença, de risco e de troca humana que só acontece ali, no olho vivo, no compartilhamento do mesmo espaço e do mesmo tempo. E eu acho que está todo mundo ficando tão saturado de tela, do excesso de estímulo que talvez o teatro e a dança estejam se tornando ainda mais valiosos. Existe uma espécie de magia muito concreta no encontro entre artistas e espectadores que não pode ser reproduzida digitalmente.
O que acontece na Funarte, até dia 23? O que já aconteceu, desde o dia 7?
Abrimos a mostra com “Outono” e foi muito bonito perceber como o público recebeu o espetáculo. Os próximos trabalhos também caminham por essa dimensão mais íntima da cena. São espetáculos que criam conversa e convivência. Um deles, “Retratos”, termina com um café compartilhado entre artistas e espectadores. Acho bonito pensar que as pessoas permanecem ali depois da peça, conversando, trocando impressões, continuando o encontro para além da apresentação. Então nós ainda teremos de 21 a 23 de maio, o espetáculo “Retratos”, do Coletivo Troá, de Belo Horizonte.
Como o “Em Cena” é visibilidade para grupos e criadores; artistas de palco e de bastidores?
Os grupos presentes na mostra são formados por artistas que acumulam funções, que produzem, pesquisam, montam luz, divulgam, escrevem projetos, carregam cenário. Isso gera circulação de pensamento, troca de contatos, possibilidade de futuras parcerias e continuidade para os trabalhos. Às vezes, a visibilidade não acontece apenas no palco, mas nas conversas depois da sessão, nos encontros de corredor, no fato de um artista finalmente conseguir apresentar sua pesquisa para pessoas que talvez nunca chegassem até ela.
Viva a Lei Aldir Blanc para sempre?
Viva a Lei Aldir Blanc, que teve um impacto ótimo na continuidade da cena cultural brasileira, principalmente fora dos grandes centros. Existe uma ideia equivocada de que o investimento em cultura serve apenas para viabilizar espetáculos, quando na verdade ele sustenta ecossistemas inteiros de criação, formação e circulação. Teatro, dança, música e cinema exigem tempo e formação de público. Então políticas como a Aldir Blanc nos ajudam nessa missão de tentar cativar uma comunidade de espectadores, pessoas que começam a se interessar e frequentar mais teatros.
Ainda temos muito de 2026. Planos?
Muitos planos. Também graças a outro edital da Lei Aldir Blanc, no segundo semestre de 2026 farei uma pequena circulação com o espetáculo “Outono”, pelas cidades de Barroso e Barbacena. No dia 6 de agosto, estreia a montagem do curso que estou fazendo no SENAI, com direção da Bárbara Colen e do Vinicius Souza. Em setembro, trabalho durante todo o mês na produção do Festival Acessa BH, que já se tornou um evento muito importante para a cidade, com uma programação extensa, integralmente gratuita e voltada ao protagonismo de pessoas PcDs (Pessoas com Deficiência). Além disso, tenho duas novas criações no forno e que, se tudo correr bem, estreiam em 2027.










