Paulo Navarro | Entrevista com o Milton Hatoum
Entrevista com o escritor Milton Hatoum. Foto: Renato Parada
Quibe de Hatoum
Mil perdões pelo infame trocadilho do título, mas é também um suculento elogio, frito ou cru. Nosso convidado, hóspede, entrevistado de hoje, é o ilustre e, literalmente, ilustrado, Milton Hatoum, que possui como uma de suas maiores originalidades, a de ter nascido na longínqua e misteriosa Manaus (AM), em 1952. Outra é ser descendente direto de libaneses. É autor dos premiados livros “Relato de um certo Oriente” (1989), “Dois irmãos” (2000), “Cinzas do norte” (2005) e, entre outros, da trilogia ambiciosa, mas não pretensiosa, “O lugar mais sombrio”, formada por “A noite da espera”(2017), “Pontos de fuga”(2019) e “Dança de Enganos”, que acaba de sair do forno, em fogo lento. Obra com lançamento marcado, para o dia 29, no Centro Cultural Unimed-BH Minas, dentro do projeto “Letra em Cena”, sob mediação de José Eduardo Gonçalves. Dia 30, no cinema do espaço cultural do mesmo Minas Tênis Clube, o autor apresenta uma sessão do filme “Retrato de um certo Oriente”, de Marcelo Gomes, adaptação do primeiro romance do escritor, “Relato de um certo Oriente”, com o curador do espaço, Samuel Marotta. O final dessa apresentação fica, mui informalmente, com Zé Eduardo Gonçalves, que assim nos apresentou Hatoum: “Tô sem tempo pra escrever algo especial. O Milton é um grande amigo, além de ser um romancista magnífico, clássico, fascinado pelos romancistas franceses - ele já traduziu Flaubert por aqui. Em agosto foi eleito para a Cadeira n.º 6 da Academia Brasileira de Letras. Esteve na bolsa de apostas pra ganhar o Nobel deste ano. Este romance que ele está lançando é praticamente ambientado em Ouro Preto. Aliás, o livro, que tem citações de Joseph Conrad e Guimarães Rosa, se encerra com um poema do poeta juiz-forano, Murilo Mendes. Abraços”. Outros abraços para você, Zé, dividir com o Milton. E muito “merci”.
Milton, por que teu avô deixou o Líbano por um lugar tão diferente e inóspito, como a Amazônia, do Acre, em 1904?
Meu avô paterno e tantos outros imigrantes sírios, libaneses e de outros países, como os da Europa, migraram para a Amazônia, atraídos pela riqueza da borracha, o famoso Ciclo da Borracha, entre 1879 e 1912.
E por que você nasceu em Manaus?
Nasci em Manaus, como poderia ter nascido no Acre. Minha irmã é acreana. Meu pai foi a Manaus, pouco antes da Segunda Guerra Mundial, onde conheceu minha mãe e não voltou mais para o Líbano. Ele não era um imigrante, meu pai trabalhava no Ministério da Justiça, em Beirute, mas se apaixonou pela minha mãe. Antes foi ao Acre, para conhecer onde meu avô tinha vivido, passou um tempo e voltou para Manaus, onde nasci.
Você conhece Beirute, o Líbano, um certo Oriente Médio?
Fui ao Líbano duas vezes, a primeira com meu pai, em 1992. A segunda vez, já faz mais de 10 anos. Fui para um evento, um colóquio de Literatura Latino-Americana, na universidade jesuíta de Saint-Joseph, em Beirute. Acabei passando um tempo lá, inclusive dei uma palestra na Universidade Americana de Beirute.
O brasileiro conhece o Brasil, em particular, o Amazonas?
Acho que muitos brasileiros gostariam de conhecer a Amazônia, mas é muito longe do Sudeste e do Sul. Mesmo assim, muitas pessoas estão indo para lá e, agora, com a COP30, acho que o interesse pela região aumentou. Para a imensa maioria da população não é fácil ir para lá porque é caro. É muito caro você sair de outras regiões e ir, por exemplo, para Porto Velho, Macapá ou qualquer outra capital na Amazônia. Mas acredito que as pessoas também viajam sem sair de seus lugares. E uma maneira de conhecer outras regiões, uma Cultura, uma Geografia, uma História ou histórias, é ler romances. Então, também para isso, a gente escreve.
Líbano e Brasil fizeram o escritor Milton Hatoum?
O que me fez escritor foi a vontade e o desejo de escrever. Primeiro, de ler. Fui formado por leituras fundamentais, tive a sorte de ter tido uma ótima professora e também bons professores de português, de história, geografia. No Ginásio Amazonense Pedro II, acho que eles inocularam em mim o vírus da leitura (risos). E também a leitura caseira; as obras completas de Machado de Assis, que ganhei de minha mãe quando eu tinha 13 ou 14 anos. Comecei a ler os contos do Machado, um dos maiores contistas do Ocidente, não tenho dúvidas quanto a isso.
E a grande viagem entre a leitura e a escritura?
Enfim, o próprio desejo de narrar. Mas isso só aconteceu depois de muitas leituras, quando eu já não era tão jovem assim. Comecei a escrever - o primeiro romance - com 30 anos e só acabei sete anos depois. E claro, esses livros, em Manaus, na minha infância, na minha primeira juventude foram importantes para assimilar muitas coisas, principalmente a ideia da alteridade, de você conviver com pessoas, com estrangeiros, na nossa própria casa.
Outras línguas...
Ouvir uma língua estrangeira, aliás, duas! O árabe e o francês porque meu pai conversava com os meus avós em árabe e minha avó materna, libanesa, falava um pouco de francês e isso também foi importante para a gente entender que o conhecimento do outro, de outras línguas é importante. E eu convivi também com vários amazonenses, manauaras, caboclos, inclusive indígenas que falavam outras línguas. Essa convivência com várias línguas e sotaques foi essencial, como a culinária “manauárabe”, digamos, a culinária libanesa, a sírio-libanesa, já adaptada, abrasileirada, vamos dizer assim. A música árabe, a música das grandes cantoras egípcias e libanesas, enfim, a poesia árabe, o Corão, tudo isso foi importante na minha juventude.
O que acha da polêmica e controversa Academia Brasileira de Letras e de, agora, fazer parte dela?
A Academia Brasileira de Letras se renovou nos últimos 10 ou 15 anos; acho que já não tem mais o perfil conservador que tinha na década de 1970, durante a ditadura. Acho que isso foi decisivo para eu ingressar na ABL. Pretendo continuar atuando, a fazer coisas que sempre fiz e tenho feito; que é dar palestras, falar basicamente de Literatura. E tentar formar leitores que é importantíssimo e nada fácil no Brasil.
O Prêmio Nobel de Literatura, como o céu, pode esperar?
A minha indicação, meu nome que apareceu na lista foi uma surpresa, algo totalmente inesperado. Não penso nisso, nunca pensei nisso. Aliás, nunca pensei em prêmios. Nunca participei de nenhum grupo, de ações que visassem a um prêmio literário. Acho que isso não é relevante para mim, aliás, nunca foi. Ganhei vários prêmios no Brasil, ganhei um prêmio importante, na França, um prêmio francês para a Literatura Latino-Americana e tudo isso também foi inesperado. Então, recebi com surpresa e um pouco de humor a indicação para o Nobel. As autoras e autores que deveriam ter sido premiados, não foram: Drummond, Guimarães Rosa, Clarice Lispector, Manuel Bandeira. A academia sueca nunca olhou para o Brasil seriamente. É isso.
O que você vem fazer, depois de amanhã, em Belo Horizonte?
São dois eventos. O primeiro será voltado ao meu último romance, “Dança de enganos”; uma conversa com o José Eduardo Gonçalves, sobre os outros livros, Literatura e o que rolar, depende muito do andamento da conversa. No dia seguinte vou falar no Minas Tênis Clube sobre a adaptação de “Relato de um certo Oriente”, cujo título é “Retrato de um certo oriente”. Vou falar um pouco sobre estas adaptações, bem como das outras.
“Traduzir, às vezes, é trair”. Adaptar um livro teu para Cinema, TV e Teatro também?
Adaptar ou traduzir não é exatamente trair, é o contrário, é você inventar, com outra linguagem, a essência do livro. Isso eu percebi em todas as adaptações, tanto para o Audiovisual como para o Teatro e Quadrinhos. Mas sobre isso eu vou falar, no dia 30. As adaptações são sempre arriscadas, mas acho que tive sorte com os cineastas, roteiristas; na montagem dramatúrgica para o Teatro e com o belíssimo trabalho dos irmãos gêmeos e quadrinistas, Fábio Moon e Gabriel Bá, para meu livro, “Dois Irmãos”.
Se “até escrever um bilhete é difícil”, o que dizer de uma trilogia?
O Graciliano Ramos disse isso, sobre seu primeiro romance, “Caetés”: “escrever é o mais difícil”. Comecei esta trilogia no início de 2008, há quase 17 anos. Tudo dá trabalho, até escrever um bilhete, como dizia Jorge Luis Borges. Acho que foram 800 páginas ou mais, nesses anos todos e, na verdade, escrevi um quarto volume que não está ligado à trilogia; um romance independente que tem alguns pontos de contato com a trilogia de “Um lugar mais sombrio”, mas pode ser lido de uma forma também independente. Aliás, eu comecei por este último, que já estou revisando, mas não sei se termino no ano que vem. Tudo dá trabalho quando você escreve, e escrever não exclui o tempo da leitura, porque eu leio muito mais do que escrevo. Passo a maior parte do meu tempo, lendo e não escrevendo. Como sou muito lento, então, essa escrita é mesmo demorada e não tenho a mínima pressa em publicar. Essas coisas, a publicação e o desejo de publicar ocorrem quando você já esgotou toda sua força, sua energia física e mental. É um momento em que você tem que colocar um ponto final e partir para outras viagens.
Incluindo a trilogia, tua obra é temática, “samba de uma nota só”, ou plural?
Todo escritor escreve o mesmo livro, com variações. Variações temáticas, às vezes estilísticas, mas você persegue e é movido pelas mesmas obsessões, os mesmos fantasmas. Meus romances ambientados em Manaus, no interior do Amazonas ou em Brasília, São Paulo, Paris; até mesmo os contos, todos têm as mesmas inquietações; todos refletem o que eu penso, o que me perturba, o que me move: a escrita.
“Dança de enganos”, com linda capa ilustrada por Alceu Chiesorin Nunes, é uma dança com lobos de Ouro Preto?
A “Dança de enganos” eu deixo às leitoras, aos leitores, o veredito. Não sei se é uma dança com lobos, porque há lobos por toda parte, não só em Ouro Preto, mas é um livro também de amor a Ouro Preto e à Literatura de Minas, que tanto admiro, sempre admirei. Neste sentido sim, acho que a presença de Ouro Preto é fundamental no romance, porque foi fundamental, na minha juventude, quando eu ia, na década de 70, para os festivais de inverno. Saía daqui, de São Paulo, e ia para Ouro Preto, em julho. Quando a gente respirava e festejava, apesar da presença da polícia. Era a ditadura, mas isso foi importante. Eu quis pagar essa dívida com minha experiência de estudante de arquitetura da USP, que ia para Ouro Preto, com milhares de outros do Brasil todo e também com a Literatura de Minas que de algum modo me formou como leitor.
Você acredita em paz, no Brasil e no mundo? A literatura poderia ser um caminho para ela?
Não acredito. A gente quer a paz, mas não acredito que haverá paz, nunca houve paz. O que é a história da Europa? De guerras, sempre foi; de interesses econômicos, políticos; de conquistas, de colonialismo, de imperialismo. Sempre foi isso e hoje, a gente está vendo esse horror em Gaza, esse genocídio explícito que está sendo, inclusive, confirmado pelos maiores estudiosos do Holocausto. Muitos judeus estão falando isso; pesquisadores, historiadores judeus. A Literatura é um dos modos de ver o mundo, não é mais do que isso, ela fala basicamente das relações humanas, da verdade dessas relações e não vejo perspectiva de paz, na leitura de um livro. Há sim, conflitos, questões sociais e políticas; de linguagem, de abordagem simbólica. Há tudo num romance, mas o caminho para a paz é muito árduo, infelizmente não depende da literatura, depende da essência humana em prol de uma humanidade mais justa, menos desigual; mais tolerante e que promova o entendimento entre as diferenças.


