Paulo Navarro | Entrevista com Mateus Belisário


Entrevista com o urologista e andrologista Mateus Belisário Schettino. Foto: Studio2pontoZero

Um Doutor Homem

“O urologista mineiro que construiu uma atuação bastante particular na medicina masculina entre desempenho sexual, estética íntima, cirurgia e, sobretudo, escuta”. Isso bastaria para apresentar nosso entrevistado, o urologista e andrologista Mateus Schettino. Mas como ele “construiu a carreira em torno de uma área ainda cercada de silêncio, com homens que sentem, mas muitas vezes não conseguem verbalizar”, vamos exercer o civilizado ato de conversar: perguntar e escutar as respostas. Por exemplo, aos 16 anos, iniciou a própria análise. São 22 anos de um processo que, embora não o torne psicanalista, influenciou profundamente sua maneira de exercer a medicina. Em 2019, foi convidado como um dos poucos residentes das Américas a participar do TNT Technology and Training, congresso internacional de endourologia, no Ospedale Cottolengo, em Turim, Itália, com os maiores nomes da especialidade. No jantar de gala, foi reconhecido como o residente mais atuante e participativo do congresso. Ali conheceu uma técnica de cirurgia a laser da próstata que não existia em Belo Horizonte e trouxe a tecnologia para a cidade, realizando a primeira cirurgia a laser da próstata no Hospital SOCOR. A formação internacional continuou nos Estados Unidos e na Argentina. Hoje sua atuação se concentra em três frentes: desempenho sexual masculino, estética íntima masculina e cirurgia a laser da próstata. No entanto o aspecto mais interessante de nossa conversa foi o contraste entre a alta tecnologia e a escuta. Porque a queixa apresentada pelo paciente nem sempre é o verdadeiro problema. Seu lema bem poderia ser o nome daquele programa de TV: “Fala que eu te escuto”. Leiam!

Mateus Schettino! Neto, bisneto de italianos, mineiro da gema e da mina?

Mineiro da gema, sim. Venho de uma família de engenheiros, muitos na mineração - então, em parte, sou “da mina” também. Só acabei indo para outro nicho: a Medicina.

Quantos anos de “praia” na Medicina?

Formei-me em 2013, então são pouco mais de dez anos de profissão. Tempo suficiente para aprender que ouvir o paciente vale tanto quanto examiná-lo.

Urologista e andrologista? Uma rápida definição para as duas especialidades?

A Urologia cuida do trato urinário de homens e mulheres. A Andrologia é a saúde masculina propriamente dita - hormônios, fertilidade e função sexual do homem. Uma é mais ampla; a outra, o cuidado específico com o homem.

É fácil trabalhar com Medicina Masculina, visto que os homens têm a triste fama de não se consultarem como as mulheres?

Não é fácil, mas está mudando. O homem ainda chega tarde, muitas vezes empurrado pela esposa. Meu trabalho é fazer da consulta um espaço sem julgamento - quando ele percebe isso, volta.

Quais os casos mais comuns tratados?

Disfunção erétil, alterações da próstata, insatisfações estéticas da região genital, queda de testosterona e queixas urinárias. Muitas vezes um sintoma físico esconde estresse, ansiedade ou algo do casal.

Disfunção erétil e pouco esperma, com a idade, continuam problemas e tabus?

Continuam. E o tabu costuma pesar mais que o problema em si. Grande parte tem solução ou controle. O difícil é o homem dar o primeiro passo e falar sobre isso.

Mesmo depois de tanto Viagra e similares, os homens ainda têm problemas de desempenho sexual?

Viagra ou Cialis resolvem boa parte dos casos, mas nem sempre resolvem - ou nem sempre continuam resolvendo ao longo da vida. Chega um momento em que alguns pacientes precisam de tratamentos mais intensos ou invasivos para restaurar a ereção.

A estética íntima é novidade, ou já é uma preocupação tradicional?

É mais recente como demanda aberta, mas o incômodo sempre existiu. Hoje o homem se sente mais à vontade para falar de autoestima também nessa área.

O que leva um homem bem-sucedido, com informação, dinheiro e tecnologia, a procurar um urologista?

Justamente o que o dinheiro não resolve sozinho: saúde, confiança e qualidade de vida. Sucesso não protege ninguém de disfunção erétil ou de um problema de próstata.

E o que existe por trás de uma queixa aparentemente física?

Quase sempre algo emocional ou relacional. A queixa física é a porta de entrada - atrás dela costuma estar ansiedade, medo de envelhecer ou um casamento em crise.

Cirurgia! Onde, como, por quê? Preenchimento peniano? Prótese?

Opero nos hospitais Felício Rocho, Orizonti, SOCOR e Urológica. A cirurgia entra quando o tratamento clínico não basta - a prótese peniana, por exemplo, devolve a vida sexual a quem não responde à medicação. Já o preenchimento peniano é feito no consultório: um procedimento praticamente indolor, rápido, de poucos riscos e com resultados excelentes. Cada caso tem indicação própria; nada é feito por modismo.

Como e quando você trouxe a primeira cirurgia a laser da próstata?

Fiz minha primeira enucleação prostática a laser em 2021, em Belo Horizonte, ao lado de outros colegas urologistas pioneiros. Em 2026 realizei a primeira desse tipo no Hospital SOCOR. É uma técnica que trata próstatas de todos os tamanhos, com índices de resolução e de manutenção do resultado a longo prazo superiores aos das demais cirurgias, além de uma desobstrução mais completa do trato urinário - tudo com menos sangramento e recuperação mais rápida.

Conversar! Falar e escutar também são “remédios”?

São, e dos mais importantes. Muita queixa masculina só aparece quando o paciente se sente à vontade para falar. Escutar pode ser metade do diagnóstico; conversar, metade do tratamento.

Conversamos sobretudo, ou faltou perguntar e escutar algum lado?

Acho que cobrimos bem o essencial. Só reforço uma mensagem ao leitor: saúde masculina não é vaidade nem fraqueza - é qualidade de vida. Quanto mais cedo o homem procurar ajuda, melhor.