Paulo Navarro | Entrevista com Marco Tulio Resende


Entrevista com Marco Tulio Resende. Foto: Daniel Pinho

Diários de uma Paixão

O convite era simples, mas sedutor: “Marco Tulio Resende revisita mais de 50 anos de criação artística na exposição “DIÁRIOS”, em Belo Horizonte. Com abertura em 17 de outubro, mostra na Lemos de Sá Galeria revela como décadas de desenhos e registros cotidianos se transformam em experiências artísticas que atravessam a memória, o tempo e diferentes linguagens”. Aí, é claro que lá estávamos, pontualmente, às 11h de um sábado, conversando com o artista e a bordo de algumas taças de vinho branco gelado. Familiares, amigos, admiradores não paravam de chegar, até lotar o espaço. Há muito não víamos/participávamos de um encontro que deveria durar até às 14h, mas só terminou, sob protestos, depois das 18h.

E exatamente por isso! Mais do que um banal vernissage, o que presenciamos foi um grande encontro com pessoas que, aparentemente, há anos não saíam de casa. E valeu muito participar da exposição, “DIÁRIOS” que, até 13 de fevereiro de 2027 – se o Brasil durar até lá – “apresenta um percurso pela produção do artista, revelando como o hábito de desenhar diariamente se tornou uma investigação permanente sobre o tempo, a memória e as possibilidades da criação”. Ah! Estes 50 anos incluem até um círculo precioso: a formação pela Escola Guignard, a bolsa da Fulbright Commission, obtendo, em 1978, o título de mestre pela School of the Art Institute of Chicago e a volta à Escola Guignard, como professor, durante 40 anos. Bom, então fica assim. Leiam a entrevista e corram para a galeria porque 50 anos não são 50 segundos.

Marco Tulio nome bonito de cônsul de Roma, o Império  da Lei (onde as leis estão acima dos governantes) - nasceu, sempre foi artista? 

Não sei se nasci artista, mas sei que muito cedo encontrei na arte uma maneira de olhar o mundo. O desenho veio como uma necessidade, quase uma forma de organizar as coisas que eu via, sentia e pensava. Depois vieram outras linguagens, outros materiais, outras possibilidades. Mas o desenho continua sendo meu ponto de partida. 

Professor? 

Fui professor da Escola Guignard durante quarenta anos. Ensinar foi uma parte muito importante da minha vida, porque a sala de aula é também um lugar de troca. A gente ensina, mas aprende muito. Sempre procurei estimular nos alunos a liberdade de experimentar e a coragem de encontrar o próprio caminho. A arte não se ensina como uma fórmula; é preciso criar condições para que cada um descubra suas perguntas. 

E, de repente, 50 anos de criação! Missão dada, missão cumprida ou a luta continua? 

A luta continua, naturalmente. A arte não é uma missão que se cumpre e se encerra. São mais de cinquenta anos de trabalho, mas não tenho a sensação de ter chegado a um ponto final. Pelo contrário: quanto mais trabalho, mais percebo o quanto ainda há para descobrir. A experiência não elimina as dúvidas; às vezes, torna as perguntas ainda mais interessantes. 

Em alguma época você já teve um diário? 

A ideia do diário sempre me interessou como possibilidade de registrar o que passa pela vida. Talvez eu não tenha pensado nisso da maneira convencional, como alguém que escreve diariamente sobre seus acontecimentos. No meu caso, o desenho acabou assumindo esse papel. Ao longo dos anos, fui acumulando imagens, ideias, estudos e projetos. Hoje, olhando para esse conjunto, percebo que ele guarda muito mais do que desenhos: guarda marcas de uma vida. 

E “DIÁRIOS”? 

“DIÁRIOS” é o encontro com esse arquivo construído ao longo de mais de cinco décadas. São desenhos de diferentes momentos, reunidos em cadernos que não obedecem a uma ordem cronológica ou a uma classificação rígida. Gosto dessa ideia de que o tempo não precisa estar organizado para produzir sentido. Os desenhos se aproximam, se afastam, dialogam entre si. O conjunto é uma espécie de grande diário, aberto, em movimento, que continua a existir para além de mim. 

Alquimista de registros que se transformam em experiências? 

Gosto da ideia de alquimia porque ela envolve transformação. O desenho, para mim, nunca foi apenas uma representação de alguma coisa. É uma experiência que pode se transformar em pintura, objeto, recorte, cerâmica ou instalação. A matéria também participa desse processo. As terras, os pigmentos, a madeira, a argila: cada material traz suas possibilidades e seus limites. O trabalho nasce justamente desse encontro entre intenção, experiência e aquilo que o material nos oferece ou nos impõe. 

Escritor escreve todo dia. Artista plástico desenha todo dia? 

Não sei se todo escritor escreve todos os dias, mas, no meu caso, desenhar se tornou uma prática cotidiana. Nem todo desenho precisa resultar em uma obra, assim como nem toda anotação de um escritor se transforma em livro. Muitas vezes, o desenho é uma tentativa, uma pergunta, um pensamento que ainda não encontrou sua forma definitiva. O importante é manter essa relação viva com o trabalho. Depois de tantos anos, desenhar continua sendo uma maneira de pensar. 

O que veremos na Lemos de Sá Galeria e até quando? 

A exposição reúne diferentes aspectos desse universo construído ao longo de mais de cinquenta anos. Há uma instalação formada por cem cadernos encadernados, com uma grande quantidade de desenhos, além de livros e páginas suspensos e trabalhos de recortes em madeira branca. São conjuntos que estabelecem relações entre desenho, livro, espaço e memória. Quero que o visitante tenha a possibilidade de perceber tanto a singularidade de cada trabalho quanto a dimensão desse percurso. A visitação segue até 13 de fevereiro de 2027. 

Tem que ser 13 de fevereiro? Não dá para esticar até dia 22? 

Eu ficaria muito feliz se a exposição pudesse ser vista por mais tempo. Uma mostra dessa natureza, que reúne tantos anos de trabalho, merece encontrar o maior número possível de pessoas. Mas essa é uma conversa que depende da galeria, da programação e das condições de permanência da exposição. Vamos torcer para que o diálogo com o público seja tão bom que dê vontade de prolongá-lo. 

A Lemos de Sá Galeria faz 35 anos! A velocidade do tempo é veneno ou antídoto? 

Talvez seja as duas coisas. O tempo leva muita coisa, mas também revela aquilo que permanece. Trinta e cinco anos de uma galeria representam persistência, trabalho e compromisso com a arte. No meu caso, olhar para mais de cinquenta anos de desenhos é perceber que o tempo transforma tudo, inclusive a maneira como entendemos o que fizemos. O passado não fica parado: ele muda de significado quando o olhamos a partir do presente. 

“Passado e presente, permanência e transformação”? 

Essas relações atravessam todo o meu trabalho. O desenho feito há décadas pode adquirir outro sentido quando aparece ao lado de um desenho recente. Uma imagem que parecia resolvida pode voltar a provocar perguntas. A permanência não significa ficar igual, assim como a transformação não significa apagar o que veio antes. Em “DIÁRIOS”, os trabalhos não estão organizados para contar uma história linear. Eles convivem, e dessa convivência surgem novas leituras. 

E o futuro com cara e jeitão de 2027? 

O futuro, para mim, continua sendo uma folha em branco - embora nunca esteja completamente em branco, porque levamos conosco tudo o que vivemos. Quero continuar trabalhando, desenhando e experimentando materiais e possibilidades. Não gosto muito de antecipar o que ainda não aconteceu. Prefiro manter o trabalho em movimento e deixar que as próximas perguntas apareçam. Se aprendi alguma coisa nesses anos todos, foi que a arte precisa continuar aberta ao inesperado.