Paulo Navarro | Entrevista com Lígia Jardim


Entrevista com Lígia Jardim. Foto: Bárbara Dutra

Jardim Botânico

Não existem nome e sobrenome mais perfeitos para “explicar” nossa entrevistada de hoje! Lígia, nome de musa de Tom Jobim e Jardim, sobrenome quase redundante porque cheio de flores e beleza. Beleza como mulher e como profissional, em seu trabalho de arquiteta e designer de interiores. No mais, com 30 anos de “praia nas montanhas”, Lígia é também uma constante estufa de exemplos e aprendizados; prêmios e reinvenção; criando espaços residenciais e comerciais, funcionais, belos e personalizados. Seu palco são mostras como a CASACOR e a Modernos Eternos. Seu senso de generosidade, reconhecimento e gratidão não a deixa brilhar sozinha, quando ela faz questão de enaltecer a sócia, Fernanda Sperb. No capítulo lição de casa, Lígia capricha, sendo “habituée” e “aluna” atenta das tendências que povoam espaços e eventos como o “Salão do Móvel de Milão”, a “Bienal de Arquitetura de Veneza” e a “Paris Design Week”, que ampliam sua “visão e alimentam novas ideias para os projetos”. Como uma Indiana Jones, em arqueologia do futuro, Lígia acompanha todos os tempos, valorizando cores, texturas e memórias, casando-as com a revolução tecnológica: a realidade aumentada e inteligência artificial. E como o trabalho de Lígia tem que ser visto para ser devidamente apreciado, recomendamos, no Instagram, o perfil “Lily House”, vitrine do design, onde Lígia e Fernanda compartilham tendências, inspirações e bastidores de seus trabalhos. No mais, vejam como a arquitetura - assim como a arte - reflete o tempo em que vivemos, transformando mudanças em espaços que emocionam, acolhem e contam histórias. Ah! Este Jardim do Paraíso e da Babilônia não precisa de água, nem de sol. Ele já vem pronto para viver.

Lígia, resumidamente, como floresceu a arquiteta Lígia Jardim?

Desde muito cedo, me encantei pela relação entre o espaço e as pessoas. Adorava mudar os móveis de lugar, desenhar e sempre fui boa em matemática. A arquitetura me pareceu um caminho natural. Aos 17 anos, passei no vestibular da UFMG, onde me formei em 1995. Desde então, comecei uma trajetória voltada a entender não só a técnica, mas também a emoção que um espaço pode transmitir.

E a designer de interiores?

O estágio que fiz com o Carico (o arquiteto Carlos Alexandre Dumont, falecido em 2019) foi decisivo para mim. Ele era um mestre no detalhamento, e percebi que, por isso, seus projetos eram tão incríveis. Aprendi a observar tudo com outros olhos, sempre atenta aos mínimos detalhes. Ao longo dos anos, fui desenvolvendo uma linguagem própria, equilibrando funcionalidade, estética e o toque pessoal de cada cliente.

Trinta anos de arte, dentro e fora dos espaços?

Sim, são três décadas de muita troca e aprendizado. A arquitetura e o design evoluíram tanto quanto o mundo ao redor - nós acompanhamos mudanças culturais, sociais e tecnológicas profundas. Continuo aprendendo, viajando, observando e me inspirando na arte, na natureza e nas pessoas. Acho que o segredo é esse: manter o olhar curioso.

Tem uma fórmula para os residenciais e comerciais?

Não existe uma fórmula única, mas há princípios que guiam meu trabalho: conforto, harmonia e identidade. Nos residenciais, busco traduzir a essência dos moradores; nos comerciais, o foco é criar experiências que comuniquem a marca e valorizem quem trabalha ou visita o local. Em ambos, acredito que a estética deve andar de mãos dadas com a funcionalidade.

Tuas vitrines são a CASACOR e mostras como a Modernos Eternos?

Sem dúvida. As mostras sempre foram grandes vitrines e também laboratórios criativos. Elas me permitem ousar, experimentar materiais, propor novas soluções e interagir com o público. Eventos como a CASACOR e a Modernos Eternos são oportunidades de mostrar ideias que inspiram e abrem caminhos para novas parcerias.

E as “escolas”: viagens, mostras nacionais e internacionais?

São fundamentais. Participo com frequência de feiras e eventos como a “Expo Revestir”, em São Paulo e o “Salão do Móvel de Milão”. Este ano, visitei a “Bienal de Arquitetura de Veneza” e a “Paris Design Week”. Cada viagem é um mergulho em novas culturas, técnicas e estéticas. Essas experiências ampliam o olhar e trazem repertório - e isso se reflete diretamente nos meus projetos.

Você e Fernanda Sperb! Como dividem trabalho e prêmios?

Eu e Fernanda temos uma parceria muito afinada. Cada uma tem seu olhar e sua especialidade, e isso enriquece o resultado final. Compartilhamos as conquistas - como os prêmios da Deca - e também os desafios do dia a dia. Trabalhamos de forma colaborativa e com muito respeito mútuo. E o mais importante: acima do trabalho está nossa amizade. Sempre damos muitas risadas e temos assuntos infinitos!

Cada espaço, como banheiros e cozinhas, tem segredos?

Com certeza! Esses ambientes pedem atenção especial aos detalhes e à ergonomia. São espaços de uso intenso, então precisam ser práticos e confortáveis, sem perder o charme. O segredo está em equilibrar tecnologia, materiais de qualidade e design que traga prazer no uso diário.

Em 30 anos, o que muda e o que não se altera na sua arquitetura e design de interiores?

Mudam as tendências, os materiais, as tecnologias…. Mas o essencial permanece: o olhar humano. Sempre acreditei que a arquitetura deve emocionar e acolher. Essa essência não muda. O que muda é a forma de expressá-la; hoje, com mais consciência ambiental, mais integração e mais personalização.

O que é “atuação boutique”?

É uma forma mais personalizada de trabalhar. Decidi focar em menos projetos, mas com mais profundidade. Isso me permite estar presente em cada etapa - do conceito à entrega - e oferecer um atendimento mais exclusivo, com atenção total aos detalhes e às expectativas de cada cliente.

E a “Lily House”?

A “Lily House” é um projeto que criei junto com a Fernanda Sperb. É um espaço no Instagram dedicado ao universo do design de interiores, onde compartilhamos novidades, inspirações e bastidores. Em breve, vamos lançar uma linha própria de objetos e acessórios para casa, com curadoria e design autoral - uma extensão natural do nosso trabalho como arquitetas.

O mercado vai bem neste conturbado Brasil de 2025?

O mercado está desafiador, mas também cheio de oportunidades. As pessoas estão valorizando mais o lar, o bem-estar e o design. Há uma demanda crescente por projetos personalizados, sustentáveis e funcionais. É um momento de adaptação, mas também de criatividade e reinvenção.

Planos e projetos?

Seguir criando, explorando novas possibilidades e mantendo o entusiasmo que me trouxe até aqui. Continuar com os projetos exclusivos, ampliar o alcance da “Lily House” e investir em produtos com design autoral. E, claro, continuar aprendendo - porque a arquitetura é um aprendizado constante.