Paulo Navarro | Entrevista com Izabela Gonçalves
Entrevista com Izabela Gonçalves Nogueira. Foto: Luciana Diniz
Cartas Registradas
Toda vez que escutamos a palavra cartório, a música “Metrópole”, da Legião Urbana, hino à burocracia, nos vem à memória: “Por gentileza, aguarde um momento, sem carteirinha não tem atendimento, carteira de trabalho assinada, sim, senhor! Olha o tumulto, façam fila, por favor. Todos com a documentação. Quem não tem senha não tem lugar marcado. Eu sinto muito, mas já passa do horário. Entendo seu problema, mas não posso resolver. É contra o regulamento, está bem aqui, pode ver! Ordens são ordens. Só falta o recibo comprovando residência e agora eu já vou indo, senão perco a novela”.
Mas hoje chegou o dia de quebrar o tabu e o preconceito. Vamos conversar com a tabeliã, Izabela Gonçalves Nogueira, cujo trabalho vai muito além do jardim do Ibirité Cartório de Ofício do 1º Tabelionato de Notas. “Investida de fé pública para formalizar juridicamente a vontade das partes, lavrando escrituras, testamentos, procurações e atas notariais”, Izabela aproveita o cenário, inspira-se na vida como ela é e escreve. Não autos, bulas, dogmas, teses, tratados e dados oficiais, mas um romance: “Cartas ao meu abusador” que tem um tema, digamos, para rimar, assustador.
Mas não para ela e, realmente, como poderão ler a seguir, na verdade, é um livro libertador. Enquanto Izabela continua prevenindo conflitos e propiciando segurança jurídica; buscando a pacificação e vivenciando desafios, vamos torcer para que, de novo, ela drible a pretensa rotina de um cartório, com sua formalidade dos atos, sua técnica jurídica, seu rigor nos procedimentos e, mais uma vez, para nosso deleite, mergulhe na literatura.
Izabela, o que é uma tabeliã e qual a origem deste nome tão antigo quanto pitoresco?
Uma tabeliã é a profissional do Direito investida de fé pública para formalizar juridicamente a vontade das partes, lavrando escrituras, testamentos, procurações, atas notariais dentre outros. No Brasil, exerce função pública por delegação do Estado, após aprovação em concurso público de provas e títulos, atuando na prevenção de conflitos e propiciando segurança jurídica. O nome “tabelião” vem do latim tabellio, derivado de tabella (“tábua pequena”), porque, na Roma Antiga, os atos eram escritos em tábuas enceradas. Os tabelliones redigiam instrumentos com forma jurídica e são os antecessores do notário moderno. A palavra atravessou os séculos, foi incorporada por Portugal e chegou ao Brasil, mantendo seu sentido essencial: aquele que dá forma jurídica à vontade privada e lhe confere autenticidade. “Tabeliã” é apenas o feminino do termo, uma expressão contemporânea de uma função milenar que continua a transformar palavras em atos com valor legal.
Um cartório é chato e cheio de burocracia ou também pode ser inspirador?
Sua pergunta é ótima e bem interessante. Inclusive escrevi um artigo: “O mito da burocracia dos cartórios”. A sociedade acha que os cartórios tendem a ser burocráticos, mas posso afirmar que não. Vou dar um exemplo. Uma vez a parte solicitou a lavratura de uma escritura de compra e venda na qualidade de vendedor e informou que era solteiro. Quando a certidão de nascimento atualizada chegou, descobrimos que o mesmo era casado e o comunicamos. A situação foi constrangedora, mas a esposa teve que comparecer e assinar a escritura. Se não tivéssemos solicitado a certidão atualizada, haveria dilapidação patrimonial sem que a esposa soubesse. Histórias como essa previnem litígios e asseguram os direitos das partes. Isso para mim é inspirador. Também é inspirador fazer com que as pessoas tenham resoluções céleres para várias situações que impactam suas vidas. Principalmente agora, com a tendência da desjudicialização, os cartórios agilizam vários procedimentos como divórcio, inventário (inclusive com menores e incapazes), ata de usucapião, adjudicação compulsória, e muitos outros.
Tabeliã, advogada, professora e negociadora de conflitos. Tudo sem conflito?
Adorei a pergunta! Infelizmente, em que pese ter sido aprovada na OAB, sou impedida de advogar, por ser tabeliã há vedação legal. Já lecionei em vários cursos de pós-graduação, mas hoje estou focada em um outro projeto que também será destinado à docência. Atualmente, ministro palestras para advogados que atuam no extrajudicial. Estudar em Havard era um sonho de adolescente, por isso optei por realizar e obter a certificação como negociadora de conflitos nesta reconhecida instituição. É um curso fantástico! Os cartórios, atualmente, podem propiciar mediação e conciliação. Essa é a tendência da advocacia, tal como ocorre nos Estados Unidos e na Europa. Tudo sem conflito e buscando a pacificação. Em minha vida pessoal, também vivo em constante conciliação com meus papéis profissionais e com o mais importante de todos: ser mãe da pequena Mariana.
Negociadora de conflitos, professora, advogada, tabelião e agora escritora?
Bom, amo desafios! E, agora, estou vivenciando mais um.
E o livro “Cartas ao meu abusador”? Por que um nome tão assustador?
Achou assustador? É um livro bem forte e de ficção literária. Tive a ideia depois de ouvir tantos relatos de mulheres ao meu redor. É uma obra de ficção com uma finalidade clara: ajudar na prevenção e combate à violência doméstica, em especial, psicológica quando se está diante de um parceiro narcisista, pois os sinais são bem sutis e as vítimas levam anos para se libertar, muitas vezes sequer sabem.
Sim, só que agora o nome ficou ainda mais assustador, mas tem um “jeitinho”, certo?
O livro foi escrito em forma de romance, para que as vítimas possam se identificar com as cenas e fatos. É importante orientar os jovens para que não venham constituir família e ter filhos com pessoas com esse perfil comportamental, uma vez que as crianças sofrem, absurdamente. É importante encorajar as mulheres a se libertarem, mostrar que é possível se livrar de discursos como “você nunca vai encontrar alguém que te ame como eu”; “você vai se separar com uma criança de dois anos de idade, seus pais sequer ajudam, como vai fazer?”; “você só está onde está porque eu te ajudei;” “seus amigos e família não gostam de você, gostam do seu status”. Enfim, o livro é um alerta, mas também traz esperança e superação.
Quando será lançado?
Será lançado em junho, pela Editora Literíssima.
Te chamam de “fora da curva ou da caixinha” por causa dos temas abordados, como violência, relações familiares, afetos e suas repercussões?
Amei essa definição! Acredito que não são pelos temas abordados, mas pelo fato de realizar atividades atípicas para uma tabeliã. Teve uma época que fui radialista em um programa, “Direito em Foco”, aproximadamente por três anos e meio, na Rádio 3VL de Ibirité. Atualmente, sou colunista jurídica em um jornal do bairro Buritis. Também tive uma “live”, chamada “Pessoas Inspiradoras”, na minha conta no Instagram: @izabelagnogueira. Minha mãe sempre pergunta quando vou parar. Eu falo que enquanto viver sempre pensarei em coisas novas. Sou uma pessoa que gosta de encarar desafios. Confesso que fico entediada de realizar a mesma atividade sempre.
O que imita o quê? A vida ou arte?
Acredito que a arte imita a vida e é por ela inspirada.
“Arte longa, vida breve”, podemos esperar outras “cartas”?
Infelizmente não tenho uma resposta para sua pergunta. Apesar de achar, lá no fundo, que seria fenomenal escrever novas cartas sob outros prismas. Acredito que os leitores gostariam, e eu também.








