Paulo Navarro | Entrevista com Guilherme de Castro
Entrevista com Guilherme de Castro. Foto: Edy Fernandes
Dr. Tech
“Você quer sair comigo”, ele pergunta e ela responde: “Prefiro arrancar um dente sem anestesia”. Piadas à parte; durante muito tempo e, para muita gente traumatizada, até hoje, ir ao dentista era como se submeter a uma sessão de tortura voluntária, quase uma brincadeira entre sadomasoquistas. Claro que discutir política com amigos em um bar ainda é um programa mais agradável do que um tratamento de canal, uma simples obturação ou fazer um implante. Ou não? Depende muito do dentista e claro, dos amigos. Mas, a realidade é bem diferente das experiências com o “ferrinho do dentista” há 40 ou 50 anos. Conhecimento e tecnologia sem limites explicam a mudança e criam uma geração que encara um tratamento odontológico como escovar os dentes. Quem prova isso, e muito bem, é nosso entrevistado, Guilherme de Castro que dá uma aula sobre o assunto. “Reabilitar esteticamente é integrar ciência dos materiais, biomecânica e psicologia do paciente. É devolver confiança com responsabilidade técnica”. Para Castro, dentes, boca e sorriso são muito mais que estética, é saúde física e mental: influencia autoestima, desempenho profissional e percepção social, mesmo porque, não há estética sem função, e sim a função antes da estética. Esperamos que a leitura, a seguir, seja uma anestesia no tédio. Depois, podem retomar uma atividade normal!
Guilherme, o que é um cirurgião dentista na “reabilitação estética”? Conserta nossos “cartões-postais”?
A reabilitação estética é muito mais do que “consertar um cartão-postal”. É devolver função, equilíbrio estrutural e identidade ao sorriso. Começamos pelo resultado ideal e construímos o caminho clínico para alcançá-lo. Isso envolve estética facial, proporções dentárias, oclusão, fonética e saúde periodontal. É restaurar a mastigação eficiente, estabilidade articular e harmonia com a face. O sorriso é um componente central da comunicação humana, influencia autoestima, performance profissional e até percepção social.
E um dentista “entusiasta do digital”?
É utilizar a tecnologia em prol da arte odontológica. De forma Digital e 3D consigo realizar as simulações de todo e qualquer tratamento. Consigo mostrar, na tela, todo o percurso do tratamento para o paciente. Certos sistemas mudaram a forma de diagnosticar, planejar e executar tratamentos. Scanner intraoral substitui moldagens desconfortáveis; softwares permitem simulação do resultado antes mesmo de tocar no dente; impressoras 3D produzem guias cirúrgicos com precisão milimétrica. O digital reduz a margem de erro, melhora a comunicação com laboratório e aumenta a segurança clínica. É eficiência, reprodutibilidade e controle biológico; fluxo, integração e documentação. O digital mede, valida e acompanha resultados com método. Isso encurta o tempo clínico, eleva o padrão de qualidade e o conforto do paciente. A odontologia moderna exige domínio dessas ferramentas. Transparência anda lado a lado com eficiência e baixo custo para os meus pacientes.
Você tem graduação em diversas áreas. Quais?
Minha formação principal é em Odontologia, com foco em Prótese Dentária e Implantodontia. A estética é a cereja do bolo. Ampliei minha formação com especializações em reabilitação estética, fluxos digitais CAD/CAM e planejamento cirúrgico. Investi fortemente em fotografia odontológica e documentação clínica. Busquei formação em gestão, marketing e posicionamento estratégico: excelência clínica com visão empresarial. Essa combinação técnica-estratégica me permite atuar tanto na clínica quanto na formação de colegas. A odontologia exige esse perfil híbrido: clínico preciso, gestor eficiente e comunicador claro. Não é acúmulo de diplomas; é construção de repertório para entregar soluções completas.
Para reabilitar todo e qualquer paciente que “ferramentas tecnológicas” você utiliza?
O ponto de partida é o diagnóstico de alta precisão. Utilizo fotografia padronizada, escaneamento, tomografia computadorizada e planejamento digital do sorriso. Aplico fluxo CAD/CAM para confecção de provisórios e restaurações definitivas com materiais como lítio e zircônia. Em implantes, a cirurgia guiada por impressão 3D aumenta a segurança e reduz a invasividade. Tecnologia não substitui conhecimento, mas amplia a precisão. Cada ferramenta reduz variáveis clínicas, aumenta previsibilidade e documenta cada etapa. Quanto mais mensurável o processo, mais controlado o resultado.
Você também escreveu, por enquanto, dois livros. Do que trata “Foco X Ansiedade - uma Guerra sem fim”?
O livro aborda o conflito interno entre produtividade e autossabotagem. Vivemos em uma era de estímulos excessivos, onde distração virou padrão. “Foco X Ansiedade” discute como a mente pode ser tanto aliada quanto inimiga do desempenho. Analiso mecanismos cognitivos, influência do ambiente digital e padrões comportamentais que sabotam metas profissionais. O foco não é apenas concentração, mas clareza de prioridade. A ansiedade, quando não gerenciada, fragmenta energia e compromete decisões estratégicas. O livro propõe disciplina mental, construção de rotina estruturada e responsabilidade pessoal como pilares para alta performance. É uma reflexão prática sobre como transformar a inquietação em movimento produtivo. Para profissionais da Saúde ou de qualquer outra área - que lidam com pressão constante - dominar essa guerra interna é determinante. Não é um livro motivacional superficial, é um manual prático para uso diário. É um chamado à autorregulação e à construção consciente de resultados.
E o outro, “Laminados Cerâmicos”?
“Laminados Cerâmicos” é um guia técnico e estratégico sobre planejamento e a execução minimamente invasiva de laminados cerâmicos. A obra aborda seleção de casos, preparo conservador, escolha de material, cimentação adesiva e controle oclusal. Defendo a filosofia de preservação máxima de estrutura dental. Os laminados não são maquiagem; são restaurações biomecanicamente calculadas.
Mais técnico…
O livro também enfatiza fotografia clínica e comunicação com laboratório, fatores decisivos para previsibilidade. A proposta é integrar estética, ciência dos materiais e longevidade funcional. Não se trata de vender sorriso branco indiscriminadamente, mas de indicar corretamente e executar com protocolo.
Sem lugar para amadores...
A odontologia estética de alto nível exige método, não improviso. Mais de 80% do meu trabalho hoje é corrigir tratamentos que foram indicados de forma incorreta. Daqueles que apenas venderam estética sem função e harmonia. Essa obra é a minha forma de contribuir com um trabalho de excelência para colocar a odontologia em alto nível.
O que você chama de “reabilitação oral”? É a já citada “reabilitação estética”?
É um conceito mais amplo. Inclui restauração funcional de pacientes com perda dentária extensa, desgaste severo, colapso oclusal ou comprometimento mastigatório. A estética pode ser consequência, mas o foco primário é função e estabilidade biomecânica. A reabilitação estética está contida dentro da reabilitação oral quando há demanda visual associada. Nem todo caso funcional exige grandes intervenções estéticas, mas todo caso estético deve respeitar a função. Ignorar isso leva a fraturas, infiltrações e insucessos precoces. Portanto, a reabilitação oral é reconstrução integral do sistema estomatognático. Estética é parte do resultado, não o único objetivo. Gosto de citar sempre que não há estética sem função, e sim que a função sempre precede a estética.
O que é CAD/CAM?
CAD/CAM significa “Computer-Aided Design / Computer-Aided Manufacturing”. É a integração entre “software” de planejamento e equipamentos de fresagem ou impressão 3D para produzir restaurações dentárias com alta precisão. Sistemas e softwares que aceleram os planejamentos e a forma de realizar os procedimentos. O uso de computação gráfica 3D e inteligência artificial que visualiza e entrega soluções para os pacientes de forma integrativa. Tratamos pessoas, visualizar a personalidade, materializar de forma digital o que entendemos de odontologia para melhor satisfazer a expectativa delas dentro do consultório. O fluxo digital reduz etapas analógicas, melhora adaptação e aumenta a reprodutibilidade. Na prática, escaneamos, desenhamos virtualmente e fabricamos modelos e peça restauradora com controle micrométrico. É eficiência aliada à qualidade. O futuro da odontologia é ser cada vez mais digital.
O Brasil ainda é “um país de banguelas”, como cantava a banda Titãs, ou de próteses e implantes?
O Brasil avançou muito em implantodontia e prótese, tornando-se referência mundial em técnicas e formação profissional. Contudo, ainda enfrenta desigualdade de acesso. Temos centros de excelência comparáveis aos melhores do mundo, mas também regiões com alto índice de perda dentária. A questão não é capacidade técnica, ela é de acesso e educação preventiva. O país não é mais majoritariamente “de banguelas”, mas ainda convive com desafios socioeconômicos. A solução passa por políticas públicas, prevenção e ampliação do atendimento especializado. O conhecimento existe. O desafio é distribuição e acesso.
Você também dá cursos?
Sim. Atuo na formação de colegas interessados em reabilitação estética e fluxo digital. Ensino planejamento estratégico de casos, execução clínica previsível e posicionamento profissional. A proposta é elevar o padrão técnico e visão empresarial do dentista. Não basta dominar a técnica; é preciso estruturar atendimento, comunicação e experiência do paciente. Compartilhar conhecimento acelera a evolução coletiva da profissão. É uma contribuição para melhoria de mercado e agregar valor à nossa classe/profissão.
Teu currículo diz que você é “apaixonado em aprender”. O quê?
Gosto de escutar os colegas e amigos, aprender observando pessoas de alto nível; participo de cursos e palestras para absorver o que o mercado tem feito para melhorar e atualizar a odontologia. Aprendo sobre comportamento humano, tecnologia aplicada à saúde, gestão estratégica e materiais restauradores de última geração. Estudo biomateriais, adesão, oclusão e também marketing digital e inteligência artificial aplicada a processos clínicos. Aprender é manter relevância. A odontologia evolui rápido. Quem para, fica obsoleto. Minha curiosidade é direcionada: tudo - que amplia o desempenho clínico, a eficiência operacional e o impacto positivo na vida dos pacientes - me interessa. Quero entregar excelência, por isso, estou sempre buscando. Conhecimento é ferramenta de transformação pessoal, profissional e espiritual.






