Paulo Navarro | Entrevista com Erica Lorentz


Entrevista com Erica Lorentz. Foto: @42fotografia

Sem Filtro

“Narciso acha feio o que não é espelho”, mas há controvérsias! Principalmente quando quem está se mirando é a artista Erica Lorentz que, bonita, nem precisa “brigar com ele”. Prova disso é sua exposição, “Retrato Falado”, na Galeria Templuz. “Com curadoria de Mary Arantes, a mostra mergulha nas múltiplas camadas da identidade e do autorretrato, explorando o rosto humano como território simbólico de presença, ausência e transformação”. Só vendo para crer, entender e aplaudir uma arte que viaja entre a pintura, o desenho, a fotografia e a arte têxtil. Mesmo assim, vamos ousar dar dicas para despertar o interesse de vocês: em “Retrato Falado”, mora a artista como personagem e matéria-prima. Seu rosto está lá “repetidamente, velando e revelando emoções, questionamentos e marcas”. Querem mais, seus insaciáveis? Então saibam que Erica, alquimista, pratica uma mistura fina de fotografia, pastel seco, nanquim e intervenções com tinta acrílica, vidro e tecido queimado. No mais, a exposição da bailarina, coreógrafa, cenógrafa e figurinista é uma vitrine de como os humanos disfarçam, transformam e reinventam sua própria imagem, gesto que, em tempos de selfies e filtros, se torna também um ato de resistência estética e emocional. Ainda bem que nossa entrevistada a seguir só não morre de preguiça por selfies e redes sociais porque tem mais o que fazer.

Erica, Lorentz! Descendente de que nacionalidade?

Sou descendente de alemães.

Como e há quanto tempo iniciou-se como artista?

Sou formada em Comunicação Social, mas tenho três especializações, em Arte, Moda e Dança. Comecei a trabalhar muito nova, com apenas 14 anos já dava aulas de balé e desfilava. Vejo Arte, Moda e Dança como parte de um mesmo movimento. Hoje, meu trabalho nasce do diálogo entre essas áreas - onde o corpo, a imagem e o gesto se encontram.

O que acha do livro, “O Retrato de Dorian Gray”? Te inspira?

Li esse livro há muito tempo. Pelo que me lembro, no fim, o Dorian tenta destruir o retrato que envelhece no lugar dele e acaba morrendo (sem querer dar spoiler e já dando rsrsrs). O sentido é que a gente pode até esconder o que faz por um tempo, mas uma hora a verdade aparece - o exterior não segura o peso do que tá por dentro. Isso serve pra tudo, inclusive para beleza/juventude.

O que é a exposição “Retrato Falado”, na Galeria Templuz?

“Retrato Falado” segue em cartaz até dia 20 de dezembro e é o resultado de um ano de pesquisa sobre a história e a evolução do retrato e do autorretrato. Fui selecionada pelo edital da Lei Paulo Gustavo e minha proposta foi, exatamente, aprofundar minhas pesquisas nesses temas e desenvolver um trabalho de poética visual para ser apresentado como contrapartida em uma exposição.

Retrato falado, autorretrato; confessados ou inventados?

Nem somente confessados, nem somente inventados. Existe aí uma investigação que perpassa pelas minhas experiências pessoais, mas também por questões relacionadas ao universo feminino e por isso ultrapassam o ato de confessar.

Na exposição, o que faz, outra “artista”, Mary Arantes?

A Mary Arantes é a curadora da exposição. E, como artista que é, compreendeu rapidamente minha “fala” e com muita maestria materializou em exposição.

Os suportes dos retratos foram atração à parte?

Não diria uma atração à parte, mas parte de um contexto, uma completude melhor dizendo.


Foto: @42fotografia

Você é a criadora. E as criaturas de “Retrato Falado”?

Criadora e criatura, juntas, unificadas, sobrepostas, descaradas, escancaradas, ali expostas como uma atriz que interpreta um papel no teatro. Sou uma personagem.

Como você se relaciona com o espelho?

Tenho uma relação madura e saudável com o espelho. Não brigo com ele. Simplesmente, aceito aquilo que vejo. Envelhecer é uma arte.

E com as selfies e as redes sociais?

Não sou muito assídua nas redes sociais. Me falta tempo e sobra preguiça. Posto pouco, não sou adepta de filtros.

As aparências enganam. E as transparências?

As aparências enganam com o que mostram, as transparências enganam com o que deixam - e com o que fazem parecer visível. As transparências revelam, mas também iludem.

2026 será o ano de novos retratos, da Dança, da Moda e da Educação; dos Figurinos, Cenografias, Bordado, Pintura, Escultura ou da Performance?

Espero que 2026 seja um ano tão fértil e produtivo como foi 2025. Pronta pra seguir na direção que a vida me propuser.