Paulo Navarro | Entrevista com Eliana Maia


Entrevista com Eliana Maia. Foto: Arquivo Pessoal

Solidariedade à Moda

Conhecemos a jornalista, advogada e tradutora pública, Eliana Maria Câmara Del Bianco Maia, na chique e deliciosa “68 La Pizzeria” de Lilian Mesquita, ao lado da não menos saborosa e parisiense cafeteria, “Douce Enfance”, no nobre bairro de Lourdes. Mas Eliane Maia não estava lá comendo pizza ou sorvendo suculentos doces, mas fortalecendo a parceria de seu projeto, “Acolher”, generosamente apoiado pela 68, na pessoa da Lilian!

O “projeto é um abraço em cada morador em situação de rua, através de um alimento maravilhoso, preparado com muito amor, fruto de doações arrecadadas e utilizadas com muito critério e propósito: trazer alento, afeto e dignidade a quem tem tão pouco”. Com Eliana está sua fiel escudeira e filha, Fernanda, outra grande parceira na distribuição de alimentos, também aos “cãezinhos” e ainda de cobertores nas campanhas de inverno! No Natal, por exemplo, elas proporcionaram, a muitas pessoas, uma noite mais feliz, com jantar, kits de higiene, panetone. O projeto é incansável, não tem hora para começar, muito menos para parar de ajudar.

Quem se sensibilizar pode juntar-se ao time e sair por aí, distribuindo respeito, carinho e generosidade; qualidades que não saem de moda, mas fazem muita falta. 

Eliana, quem é Eliana Maria Câmara Del Bianco Maia?

Uma paulistana que se mudou para as Gerais ao se casar com um mineiro encantador que, por ser filho e braço direito do pai, Álvaro Maia, fundador da primeira imobiliária de BH, não podia morar em São Paulo. Filha de pessoas além de seus tempos e fontes de inspiração para o projeto que hoje desenvolvo. Meu pai era o homem mais generoso do mundo!

Generosidade genética?

Cresci nesse mundo da solidariedade, do amor ao próximo, da superação pautada na fé e na certeza de que faria a diferença para aqueles “invisíveis” moradores em situação de rua. Sempre acolhemos crianças carentes na minha casa, meus filhos pequenos ajudavam a escolher uma roupa bonita para eles, recebiam também banho e uma refeição caprichada, além de muito amor.

Teu sobrenome é também uma combinação de Itália com Portugal?

Tem origem italiana e portuguesa.

Jornalista e advogada, tudo bem, mas o que é uma tradutora pública?

Sempre fui ligada ao contato com as pessoas, tanto que fiz dois cursos superiores correlatos, que se baseiam na busca pela justiça, igualdade, respeito e verdade. Como correspondente no exterior que desejava ser, estudei em colégios estrangeiros em São Paulo e depois, ao sair do jornalismo, usei meus conhecimentos para atender clientes que buscavam tradução de alta qualidade, culminando com aprovação no concurso, em 2008, para tradutor juramentado.    

Agora fale sobre a Eliana voluntária, solidária. O projeto Acolher.

O projeto Acolher tomou corpo após um momento financeiro muito injusto e difícil que enfrentamos e que me fez olhar ainda mais para aqueles que nada tinham. O que tínhamos sobrando, dividíamos com pessoas que moravam ao nosso redor, pessoas em situação de vulnerabilidade. Através de uma pessoa muito querida, Irma de Mello, conheci Flávio de Almeida que se encantou com o nosso propósito e nos levou para a “68 La Pizzeria” de Lilian Mesquita. Ela nos acolheu de forma inenarrável, abrindo a cozinha da 68 onde passamos a servir 50 marmitas, passando em seguida para 100, através das doações recebidas. 

Quantos moradores de rua BH tem?

16.600.

Quantos vocês conseguem acolher?

Semanalmente, 100.

Quem são teus parceiros e apoiadores nesta iniciativa? 

A pizzaria 68, os participantes da distribuição e doadores maravilhosos.

O Brasil desperdiça muita comida?

O Brasil com toda riqueza, com tantos recursos, desperdiça sim muitos alimentos e isso podemos ver ao visitar países estrangeiros que racionam o uso da comida com sabedoria e não por mesquinhez. Inconcebível jogar tanto alimento fora! A coisa mais triste que vemos são pessoas comendo, com as mãos, restos de comida, retirados de sacos de lixo...

Como e onde são preparados os alimentos distribuídos? 

Na pizzaria 68.

Até em ações solidárias e generosas aparecem oportunistas? Onde e como querem levar vantagem e enganar?

Os oportunistas existem em toda parte e nem em um contexto como este, de solidariedade, escapamos deles. Já houve casos de um Honda Civil, do ano, parar e pedir uma marmita, casal classe média que saía da rodoviária, entrar na fila e ser convidado a se retirar por não fazer parte do nosso público alvo. Nosso foco são os recicladores e seus agregados.

Alento, afeto e dignidade são as palavras que norteiam o projeto?

Sim, são as palavras de ordem, pois buscamos alimentar alma e corpo. 

Você acha que um dia o Brasil vai riscar a palavra fome de seu vocabulário?

Fome de respeito, fome de visibilidade, fome de dignidade, fome de comida. Isso requer um megaprojeto de políticas públicas e de personagens sérios, dignos de um país tão rico e maravilhoso como o nosso. Vamos crer que sim!