Paulo Navarro | Entrevista com Danusa Carvalho
Entrevista com Danusa Carvalho. Foto: Arquivo Pessoal
O Casulo do Natal
Para introduzir o tema de hoje, invoquemos o “pai dos burros”, em sua versão digital! “Produção cultural é o processo de criar, gerenciar e viabilizar projetos e eventos artísticos e culturais (música, teatro, cinema, artes visuais, etc.), desde a ideia inicial até a execução e divulgação, transformando arte em experiências acessíveis ao público, gerando valor econômico e social, e atuando na interseção entre arte, economia e identidade, dentro da chamada Economia Criativa”. Agora ficou mais fácil entender o que todo mundo fala automaticamente, sem pensar e compreender o que é produção cultural. E, por consequência, o que faz uma produtora cultural, como nossa entrevista de hoje, Danusa Carvalho.
No setor, ela é referência mineira e nacional. Construiu uma trajetória marcada pela arte, pela inovação e pelo compromisso com as pessoas. À frente de sua usina, de sua fábrica, a “Casulo Cultura” e com décadas de experiência em projetos que transformam territórios, ela fala sobre sua caminhada e sobre o atual projeto, o “Magia que Conecta – Natal VLI”. Salvo engano, VLI é a sigla para “Valor da Logística Integrada”. No mais, vamos até o Rio de Janeiro para voltar a Belo Horizonte, com outras definições para a mágica profissão de Danusa: “um espírito que baixa em quem faz”, uma reflexão “sobre o que se quer fazer, como vai fazer, como vai compor um projeto, como vai botá-lo para fora; como é que você quer fazer aquela arte, como é que você quer fazer aquela comunicação, que estratégia você tem que buscar para as coisas acontecerem”. E elas acontecem!
Se quiserem “beliscar” um exemplo, ao vivo, está aí o “Natal VLI”, até dia 23, na Rua Sapucaí!
Danusa, um pouco de tua trajetória desde outros carnavais, melhor, Natais!
Sou produtora desde os 20 anos de idade e tenho 65. Comecei em Belo Horizonte, lancei vários discos da nossa época. Fui para o Rio de Janeiro, onde lancei alguns artistas da música brasileira, participei de muitas produções como a do filme “Cidade de Deus”, de uma orquestra de sapateado, de “Capitães da Areia”, da produção de Seu Jorge, no grupo “Farofa Carioca”, Paula Lima, Cássia Eller, enfim, muita coisa boa.
Mas não esqueceu BH...
Voltei para Belo Horizonte, no melhor estilo, “o bom filho à casa torna”, e fiz alguns shows muito importantes. Fui diretora artística do “Festival Natura Musical”. Criei um projeto para música mineira, um movimento muito legal; oportunidade de lançar Aline Calixto, Flávio Renegado, Thiago Delegado, entre outros talentos. Criei uma ONG, “Casulo Cidadania” e, através dela, fazemos projetos nas comunidades de BH. Tenho um carinho especial pelo “Circuito Gastronômico de Favelas”, que, há oito anos, confere poder às mulheres das comunidades através da culinária.
Muitas e variadas atividades!
Tive também a oportunidade de fazer o Natal, onde fomentamos uma nova linguagem com o uso de neons e dos “leds”. Numa parceria com Márcio Borges e o ex-secretário de Estado de Cultura e Turismo, Leônidas de Oliveira, fizemos o Natal a partir do conceito da “Mineiridade”, durante quatro anos. E, agora, com toda essa bagagem, realizamos também outros Natais, sendo um deles este lindo “Magia que conecta - Natal VLI”, que, em Belo Horizonte, ocupa a Rua Sapucaí.
Para você, o que é um casulo? Um “cocoon”? E a “Casulo Cultura”?
Um estado de espírito onde você reflete muito sobre o que quer fazer, como vai fazer, como vai compor um projeto, como vai botá-lo para fora, seja de artista, de música, autoral, de comunidades. O casulo te proporciona isso: estar ali dentro pensando como é que você quer fazer aquela arte, como é que você quer fazer aquela comunicação, que estratégia você tem que buscar para as coisas acontecerem. Eu me vejo assim, acho que do casulo, quando brota, nasce a borboleta e a gente sai voando, com os projetos culturais. Nós conseguimos viver e levar muita coisa boa para as pessoas.
Casulo também é uma estufa?
Em relação à “Casulo Cultura”, é uma produtora autoral independente que desenvolve projetos nas áreas artísticas e sociais. Há 23 anos, em BH, fomenta carreiras artísticas, seja da área de audiovisual, da música, da dança, do teatro, todas as vertentes da arte em geral. É isso, ela está ao lado dos artistas, ela busca espaço, guiada pela ética, pela cidadania, criando movimento entre artistas, parceiros, músicos, produtores e a classe técnica, respeitando muito, sobretudo, a mão de obra da cadeia produtiva da arte.
Hora de explicar o que é “Magia que Conecta - Natal VLI”, principalmente o que é VLI...
A VLI atua na integração de serviços logísticos por meio de ferrovias, portos e terminais intermodais. A empresa opera as ferrovias Norte Sul (FNS) e Centro-Atlântica (FCA), além de terminais em pontos estratégicos como Santos (SP), São Luís (MA) e Vitória (ES). Presente nas regiões Norte, Nordeste, Sudeste e Centro-Oeste, a VLI conecta a produção nacional aos principais corredores logísticos do país. A VLI reafirma seu protagonismo ao conquistar, pela terceira vez, o topo do “ranking” Valor Inovação em Transporte e Logística - mantendo-se entre as líderes do setor por sete anos consecutivos.
Mas por que “Natal VLI”?
Quando fui convidada para desenvolver esse projeto “Magia que Conecta - Natal VLI", fiquei muito feliz, porque é um projeto muito grande, muito expressivo. Ele é, digamos, inédito no sentido de uma produtora cultural realizá-lo em Minas Gerais, São Paulo e Rio. Estamos trabalhando com uma ferrovia, uma linha de ferro que passa por muitos municípios, criando um impacto muito grande na vida das pessoas. Estamos proporcionando a passagem dessa locomotiva natalina nos trajetos que a VLI faz.
De quebra, ainda reforça alternativas para as rodovias!
Uma empresa importante que integra serviços logísticos por meio de ferrovias, portos e terminais intermodais conectando diferentes regiões do país. Essa estrutura toda potencializa ainda mais o alcance do projeto, que percorre mais de 38 municípios, e cuja realização a “Casulo Cultura” coordena em seis cidades, por meio da Lei Rouanet do Ministério da Cultura. Muitos são lugares onde as pessoas não têm tanto acesso das cidades, para as capitais. Então, é um projeto que parece muito comigo. Acho que veio para mim porque a gente tem essa linguagem de saber chegar aos territórios e conquistar as pessoas através da arte. Participar deste projeto, que percorre diferentes estados brasileiros e que vem de uma empresa com reconhecimento nacional por sua atuação inovadora no setor logístico, é uma honra muito grande para a “Casulo Cultura”.
Que Natal você preparou e por onde ele já circulou?
A jornada teve início em Divinópolis, dia 18 de novembro, passando por Betim em 27 de novembro e, em dezembro, Uberaba dia 9, Belo Horizonte, dia 10, Ribeirão Preto (SP), dia 12 e Barra Mansa (RJ), dia 19. Além da locomotiva decorada, fazemos uma casa do Papai Noel, para crianças e famílias tirarem foto com o Bom Velhinho. Também temos shows com artistas da cidade, distribuição de algodão-doce e pipoca para a criançada, além de levar palhaços, malabares e perna de pau.
Onde e quando entra a Rua Sapucaí e até quando?
“Magia que Conecta - Natal VLI" foi inaugurado dia 10, com a abertura do “Casarão VLI”, na Rua Sapucaí, 383, que abriga a casa do Papai Noel, com dois ambientes em que as pessoas podem tocar, tirar suas fotos temáticas. Tem uma instalação no prédio e uma programação cultural que a gente vai soltar aos poucos. Além disso, ele traz uma arte de Natal ousada, que as pessoas vão gostar de ver. O Papai Noel ficará disponível para fotos, vai ter música, coral e surpresas muito boas. O espaço vai funcionar das 18h às 22h, até dia 23, na Sapucaí, com a rua Tapuias. A programação pode ser acompanhada no Instagram @casulocultura.
Magia é sinônimo de celebração, festa?
Quando veio esse título, "Magia que Conecta", pensei: que delícia! Porque magia é celebração, festa, uma coisa que você não imagina; então você sonha com aquilo. Quando você chega, se transforma e fica alegre. A magia que conecta é uma coisa muito íntima, esse sentimento de cada um, esse afeto, esse amor ao próximo que o Natal celebra. Então, eu acho que é uma festa, é celebração e a magia que conecta é um slogan, nome de projeto para um momento muito oportuno. Reitero ter a honra de poder fazer, estrear esse projeto, com esse empenho sobre o que é uma magia, o que é essa celebração, o que é essa festa, o que é família, o que é amor, o que é estar amando o próximo.
“Casulo Cultura” é uma usina de criação, gestão e realização; arte e inovação? Realização também de grandes shows?
A realização de grandes shows faz parte da nossa trajetória. “Casulo Cultura” é uma produtora autoral que, além de fazer parcerias com grandes patrocinadores, grandes empresas e grandes empreendedores sociais, também faz parcerias com artistas, pessoas. Pela estratégia, fazemos com que elas também se tornem grandes, como é o caso do Seu Jorge. Trabalhei com ele, lancei o “Farofa Carioca”, que era a banda. Aí eu saí da banda, ele também e, trabalhando juntos, criamos uma estrutura de linguagem independente. Hoje, Seu Jorge é um dos maiores artistas do Brasil com essa linguagem que foi desenvolvida por nós.
Este lado dos shows está “em férias”?
A Casulo faz grandes shows, mas isso não está sendo mais o foco. Apoiamos grandes eventos de Belo Horizonte, mas outro exemplo que a gente tem muito carinho é a “Família de Rua”, o duelo de MCs, o maior do Brasil, debaixo do viaduto Santa Tereza. É um projeto que cuida da juventude periférica, que dá voz a esses artistas e de onde despontaram vários artistas como Djonga, FCB, o próprio Renegado e vários outros. Acredito que quanto mais a gente cria redes e colabora, mais os grandes shows surgem, mais as grandes pessoas surgem, a arte circula e o público consome - o que é o mais legal.
Casulo fértil, pelo jeito!
A “Casulo” traz uma inovação nos conceitos de como fazer as coisas. A gente trata o conceito com muito cuidado. “Casulo Cultura” elabora, faz o projeto, inscreve na Lei de Incentivo. Depois, passamos para a parte visual do projeto, que é o desenvolvimento em 3D para fazer uma boa apresentação e ter um olhar novo, como é o caso do Natal. A gente trouxe essa linguagem diferente para o mercado, em 2020. Em seguida surgiram iniciativas similares e a gente tem esse olhar de que algumas coisas que fazemos, passa, é tendência. E essa tendência não necessariamente já está em evidência, mas com esse cuidado, com essa criação, com esse olhar, a gente se mantém antenado lá na frente e conseguimos surgir com alguns segmentos no mercado. Buscamos unir a arte e a inovação.
E 2026?
Um desafio muito grande. Temos já um projeto para fazer com as baterias das escolas de samba de BH. E estamos muito animados. Temos também o lançamento de um livro-exposição e um “videodoc” sobre o (Serviço Social Autônomo) Servas. Temos materiais sobre as presidentes que passaram pelo Servas e que foram muito importantes na área social de Minas. Este serviço começou com Dona Sara Kubitschek e, atualmente, está com a doutora Christiana Renault. Passaram mulheres incríveis por essa importante instituição. Além disso, vamos fazer o “Circuito gastronômico de Favelas”. E vamos aguardar, porque coisas muito boas estão vindo e estamos aguardando outros convites para que a gente possa crescer e contribuir com a cena de Minas Gerais. Desejo um Feliz Natal, um Feliz Ano Novo e obrigada pela oportunidade de poder falar um pouco mais do nosso trabalho.


