Paulo Navarro | Entrevista com Danilo Candombe
Entrevista com Danilo Candombe. Foto: arquivo pessoal
Luz, Câmera, Alegria
Vejam que coisa mais interessante. Há quase 55 anos, no samba, "A Vez do Dombe", composto com o parceiro Toquinho, Vinicius de Moraes – “poeta e diplomata, o branco mais preto do Brasil, na linha direta de Xangô” como ele mesmo se definiu em “Samba da Benção” - homenageou a batida do candombe, ritmo uruguaio, também conhecido como "dombe". Mas, talvez por causa de um “uisquinho” a mais, Vinicius tenha confundido “as bolas” ou pedras de gelo e escreveu: “Mas é agora a hora do dombe, esse menino cheio de plá. África na América, a rumba, o merengue e o chá-chá-chá. Mambo, samba e dombe. É o dombe que chega na hora H. Pegue e dance o dombe. É o dombe que veio pra ficar, ritmo candombe, é o dombe que vem da Argentina”. Apelando para a Inteligência Artificial, aprendemos que a raiz “ndombe” (ou “kiamdomb”) significa “negro” ou “pertencente aos negros”. Assim, "dombe" é a raiz etimológica, mas a forma consagrada pelo uso e reconhecida como nome da expressão cultural é "candombe". A pronúncia ou a forma da raiz pode variar, mas o termo "candombe" é o padrão. Um estilo musical tocado em tambores, dança, desfile com personagens ancestrais e forte expressão de identidade e resistência. Agora, esqueçamos Uruguai e Argentina para mirarmos a África na América, a África em Minas, a África no Quilombo do Açude, Serra do Cipó e, principalmente no nosso entrevistado de hoje, Danilo Candombe que, dia 8 de novembro, no 27º FestCurtasBH, no Palácio das Artes, teve seu filme, “Tita: 100 Anos de Luta e Fé”, vencedor do Júri Popular. Fala Mestre!
Danilo, onde nasceu e como começou Danilo Candombe?
Nasci e cresci no Quilombo do Açude, na Serra do Cipó. Foi ali que aprendi a olhar o mundo com os pés na terra e o coração aberto.
E hoje? Cineasta, músico e produtor cultural quilombola?
É isso. Hoje sou cineasta, músico e produtor cultural, mas antes de tudo sou quilombola. Tudo que faço vem desse lugar, das minhas raízes.
Quilombos rimam com ancestrais?
Rimam e se completam. O quilombo é onde a ancestralidade respira.
Qual a história do Quilombo do Açude?
O Açude é raiz e memória viva. É onde nossos mais velhos plantaram histórias e a gente segue regando com arte, fé e resistência. O quilombo fica entre Jaboticatubas e Santana do Riacho, no coração da Serra do Cipó.
E como surgiu o “6º Festival Cinema dos Quilombos”, que aconteceu dias 11 e 12 de outubro?
A ideia veio de um projeto do amigo Cardes Amâncio, lá no Quilombo dos Marques, no Vale do Mucuri. Eu participei da oficina de vídeo, na direção de fotografia, com o Gabriel Martins. A semente foi plantada ali.
Mas não foi um festival apenas de cinema, o primeiro de cinema quilombola do Brasil nesse formato. O que mais mostrou?
Foi muito mais! Teve encontro musical, vivência, fé, dança, comida, abraço. Teve congado, teve arte de verdade. O cinema foi o ponto de partida, mas o coração do festival foi o encontro dos saberes.
O festival foi rápido, durou dois dias, mas como foi?
Foi lindo, forte e histórico. Primeiro festival de cinema quilombola do Brasil, e feito dentro de um quilombo! Tivemos a presença da ministra (dos Direitos Humanos e da Cidadania do Brasil) Macaé Evaristo, artistas, lideranças, gente da comunidade…. Todo mundo junto, vibrando. Saímos com o coração cheio e com a certeza de que esse é só o começo.
Por favor, uma palavra para cada um dos homenageados...
Lázaro Ramos: inspiração. Porque ele abre caminhos e mostra que o cinema negro e quilombola pode chegar longe, sem perder a raiz. Maurício Tizumba: força. É a batida do tambor que nunca se cala, um mestre que mantém viva a fé, a arte e o congado. Gabriel Martins: visão. Ele enxerga a gente com sensibilidade e verdade, ajudando a colocar nossas histórias na tela com respeito e beleza.
E para os artistas?
Sim! Aproveito para mandar uma palavra aos artistas que estiveram conosco no evento. Para KK Bicalho: gratidão. Para Sérgio Pererê: ancestralidade. Para Ifátokí: força. Para o Grupo Cultural Ponto BR: entrega. Para Adriana Araújo e Trio Gandaiêra: axé e alegria.


