Paulo Navarro | Entrevista com Angela Vianello


Entrevista com a nutróloga e psiquiatra Angela Vianello. Foto: Roque Holanda

Muito Mais Menos

Referência em emagrecimento, a Clínica Less, fundada pela nutróloga e psiquiatra Angela Vianello, celebra 20 anos, com “corpinho de 19”. A médica também é doutora em saúde e bem-estar, casando, em comunhão de bens; equilíbrio metabólico, saúde hormonal, mental; suplementação e práticas comportamentais. Angela, sensata, coerente e sincera, destaca que o verdadeiro avanço da medicina está em tratar cada paciente de forma individualizada, conjugando o famoso diagnóstico ou a indefectível máxima de Juvenal: mente sã, corpo são. “Tratar a obesidade é tratar a pessoa em sua totalidade. É entender que cada paciente tem uma história, um ritmo e uma bioquímica própria”, ensina Angela que também põe em prática o controle do peso e o equilíbrio metabólico, com os avanços da ciência e as necessidades de cada paciente. Como já adivinhávamos, não existe “Tenda dos Milagres”. Emagrecer, pasmem, é um aprendizado, começando por entender que a alimentação influencia diretamente no humor, na energia, no sono, no foco, na ansiedade e na temida depressão. Se somos o que comemos, muita atenção com as gôndolas do supermercado e abra a geladeira com cuidado. No mais, larguem essa batata frita ultraprocessada, esqueça o açúcar e termine o cafezinho lendo a entrevista a seguir.  

Angela, por favor, apresente-se, brevemente, ao nosso respeitável público.

Sou médica nutróloga e psiquiatra, formada pela UFJF, fundadora da Clínica Less que completou 20 anos em outubro. Trabalho com emagrecimento de alta performance, medicina integrativa, longevidade e estética regenerativa - sempre unindo ciência, cuidado humano e olhar individualizado para cada paciente.

Tudo a ver, nutrição com psiquiatria? Uma completa a outra?

Tudo a ver. O que a pessoa come influencia diretamente em humor, energia, sono, foco e até ansiedade e depressão. A nutrição ajusta o “combustível”, a psiquiatria cuida do cérebro e das emoções. Quando caminham juntas, o tratamento é muito mais completo e eficaz.

Por que Clínica “Less”? “Menos é mais”?

Quando a Less nasceu o propósito era muito claro: emagrecimento com saúde. O nome já trazia esse DNA – “Less” é menos peso, menos excesso, mas também mais leveza, bem-estar e autonomia. Ao longo do tempo, a clínica evoluiu comigo, incorporando novas abordagens e ampliando o foco: ajudamos cada pessoa a construir um estilo de vida mais leve, com menos carga, menos doença e mais qualidade de vida em cada fase da jornada.

O que é um emagrecimento de alta performance? Rápido? Radical?

Passa bem longe de ser radical. É ciência. Emagrecimento de alta performance é um tratamento planejado, com metas claras, proteção de massa muscular, cuidado com hormônios, sono, saúde mental... A diferença é que ele pode ser mais rápido e mais eficaz, porque usa, de forma responsável, as ferramentas que a medicina moderna oferece – incluindo novas medicações, tecnologias e protocolos médicos, com segurança e foco no resultado que se sustenta. Não só em números menores na balança.

E abordagem integrativa?

É olhar o paciente como um todo. Na prática, significa usar o melhor da medicina tradicional somado à nutrologia, ajustes hormonais, estilo de vida e ferramentas baseadas em evidência. Em vez de tratar apenas um sintoma isolado, buscamos as causas e os “pontos fracos” que precisam ser ajustados.

Cada caso é um caso, com uma causa e várias consequências. Daí a importância do tratamento individualizado?

Exatamente. Duas pessoas podem pesar 90 kg e terem histórias e saúde completamente diferentes: genética, rotina, sono, estresse, medicações, traumas. Não existe pacote pronto, mas escuta, exame, estratégia personalizada e acompanhamento próximo.

Obesidade virou questão de Saúde Pública?

Sim. Hoje sabemos que obesidade aumenta o risco de doenças cardiovasculares, diabetes, vários tipos de câncer e impacto emocional importante. Isso atinge milhões de pessoas e sobrecarrega o sistema de saúde. Não é “frescura” nem falta de força de vontade: é uma doença crônica que precisa ser tratada com seriedade.

Quem é mais obeso, o norte-americano ou o brasileiro?

O norte-americano ainda é, em média, mais obeso. Mas o dado que mais preocupa é o brasileiro: mais da metade da nossa população já está acima do peso e a obesidade vem crescendo de forma importante nos últimos anos. Ou seja, a gente está encurtando perigosamente essa distância - e isso diz muito sobre nosso estilo de vida atual. Estamos comendo mais ultraprocessados, dormindo mal, nos movimentando pouco. Se o estilo de vida não muda, o gráfico sobe.

E no Brasil? Existe um ranking entre os Estados?

Existem diferenças entre regiões, associadas a renda, acesso à saúde, oferta de alimento saudável e oportunidades de atividade física. Mas vou ser sincera: no consultório, eu não enxergo ranking; enxergo pessoas e suas histórias de vida. O que muda a vida não é o lugar em que o Estado está na lista, é o passo que cada um decide dar.

A tecnologia de ponta ajuda muito, mas não faz milagre, correto?

Correto. Novos medicamentos, exames avançados, aplicativos e dispositivos são aliados importantes. Mas nenhum deles substitui sono reparador, alimentação adequada, movimento, manejo de estresse e acompanhamento médico responsável. Tecnologia potencializa o tratamento, mas quem faz a diferença, no fim, é o conjunto de hábitos.

Você leu “As mulheres francesas não engordam” (mas comem pão e doce, bebem vinho e fazem três refeições por dia)? Concorda com a autora, Mireille Guiliano?

Conheço bem a proposta do livro e acho que ele acerta em alguns pontos importantes. A autora fala de algo que a ciência confirma: comer com atenção, prazer e moderação protege mais do que viver em guerra com a comida. As francesas, tradicionalmente, cozinham mais, comem menos ultraprocessados, fazem refeições sentadas, em companhia, sem beliscar o dia inteiro - isso muda muito a relação com o peso e com a saúde.

Mas.... Tem sempre um mas.

O que não compro é a ideia de que exista um “gene francês mágico” que imuniza contra a obesidade. O que existe é cultura alimentar, estilo de vida e contexto social que favorecem escolhas melhores. E isso não é privilégio de um país: qualquer pessoa, em qualquer lugar, pode construir uma rotina mais inteligente, que permita pão, doce e vinho de forma responsável, sem culpa e sem perder de vista a saúde.