Paulo Navarro | Entrevista com Adriano Gomide


Entrevista com Adriano Gomide. Foto: arquivo pessoal

Brioche e Circo

O que têm em comum, além da arte, nosso entrevistado de hoje, Adriano Gomide, Marcos Garcia e Pedro Moraleida? Ora bolas, a exposição “Marcos Garcia – Uma Homenagem ao Acrobata das Cores”, com curadoria de Adriano Gomide, na PQNA Galeria Pedro Moraleida, no Palácio das Artes, até dia 14 de junho. São 30 belas artes, entre desenhos e pinturas recentes e históricos, destacando a vitalidade de seu universo onírico, onde o corpo em movimento e o cotidiano se transformam em, digamos, um “Grande Circo Humano e Místico”. Garcia “desenvolveu uma linguagem figurativa e geométrica própria, marcada por cores vibrantes e traço preciso. Utilizando principalmente lápis aquarelável e caneta esferográfica”. Uma overdose de vida e movimento: jogos circenses, rituais domésticos, momentos religiosos e amorosos. Adriano joga o anzol com a devida e saborosa isca: “O trabalho de Marcos tem vários aspectos. Ele apresenta uma dimensão gráfica e lúdica, além de evocar intensamente nossas memórias - desde brincadeiras de infância até festas populares. Para o público mais familiarizado com arte, destacam-se o caráter gráfico, as composições, o colorido bastante intenso e elementos que remetem à arte pré-colombiana”. No mais, depois da leitura e da visita, é só esperar outra imperdível exposição, em breve, do próprio Adriano Gomide: uma individual com seus trabalhos recentes, um show de esculturas e fotografias. Aquele abraço!

Adriano, quem é Adriano Gomide?

Artista e curador que vive e trabalha em Belo Horizonte. Professor na Escola Guignard. Doutor em Artes pela UFMG com mestrado também em artes feito em Chicago, em The School of The Art Institute. Fez curadoria de mais de 15 exposições e mostrou seu trabalho autoral em mais de 60 exposições, entre individuais e coletivas.

Quem é Marcos Garcia?

Marcos Garcia nasceu em Belo Horizonte e vive e trabalha em Santa Luzia. Fez Cursos Livres na antiga Escola Guignard e, desde então, tem uma produção ininterrupta. Começou a mostrar seus trabalhos na antiga Feira Hippie, na Praça da Liberdade, nos anos 70, seguidos depois por várias exposições individuais e coletivas. Um trabalho coerente e consistente.

Quem é Pedro Moraleida?

Em 2015 fiz a curadoria da exposição "Pedro Moraleida: Pinturas e Desenhos" na Galeria Mama/Cadela, onde tive a oportunidade de conhecer seu trabalho mais a fundo. Pedro foi um artista de Belo Horizonte que infelizmente faleceu muito jovem, não obstante tendo deixado uma obra com uma expressão visceral, conectada com a história da arte, com temas provocativos sem perder o lirismo e a poesia. O trabalho de Moraleida exige o contato presencial e a contemplação direta, afirmando que “não há como ver pintura por meio de reproduções em livro”. Para o curador, a força da obra reside na matéria criada com tintas e cores, algo indissociável da fruição física do espectador diante das telas. Para homenageá-lo, a PQNA galeria recebeu seu nome.

O que têm em comum Adriano, Marcos e Pedro?

Os três são artistas nascidos em BH, com busca incessante pela construção de linguagens próprias, a partir de experiências pessoais e subjetivas, mesmo trabalhando com temáticas diferentes. Uma coisa que os aproxima é a busca de uma expressão visceral em seus trabalhos, com uma veia poética e muitas vezes até lírica.

Como Marcos faz acrobacia de cores?

Marcos faz verdadeiras acrobacias de cores ao transformar a superfície do papel em um picadeiro visual, onde o ritmo, o lúdico e o espetáculo gráfico se fundem com precisão. Em meu olhar sobre sua produção, percebo que esse malabarismo cromático ganha vida por meio de um colorido intenso e composições sofisticadas - que, por vezes, remetem à estética da arte pré-colombiana -, criando um universo onírico onde o cotidiano e o corpo em movimento bailam juntos.

Quais são os “trapézios, cordas, argolas e faixas” de Marcos Garcia?

Ferramentas simples, como o lápis aquarelável e a caneta esferográfica. Assim, ele alcança um traço cirúrgico, capaz de encenar jogos circenses e rituais domésticos cheios de dinamismo. Essas manobras visuais funcionam em uma dupla vertente que me fascina: ora agem de forma narrativa, contando histórias e evocando nossas memórias afetivas e festas populares, ora se comportam de maneira puramente gráfica, assemelhando-se a uma rica estampa. É através desse equilíbrio exato entre o afeto, a brasilidade e o rigor técnico que Marcos executa seus saltos cromáticos. Ele constrói uma ponte direta com o espectador e transforma o desenho em um verdadeiro espetáculo ritmado, que só se completa plenamente na retina de quem o observa.

Qual é a marca de Marcos?

Sua marca principal é o desenho estruturado em linhas que depois são preenchidas com cores. Mesmo suas pinturas nascem dessa estrutura que explora os mais diversos temas da cultura popular brasileira.

Pelo lado “histórico”, é uma retrospectiva?

Chamaria a exposição de recortes da produção do artista Marcos Garcia, pois uma retrospectiva buscaria ter obras representantes de todas as fases e de toda a produção do artista.

Um universo onírico também é real?

Sim, o universo onírico de Marcos Garcia é absolutamente real porque ele brota diretamente de nossas memórias afetivas, rituais cotidianos e da brasilidade popular. Longe de ser uma fuga do mundo, seus delírios cromáticos e formas vibrantes dão corpo e materialidade a sentimentos intangíveis, traduzindo visualmente a nossa própria existência. Essa fantasia torna-se palpável e verdadeira na experiência de cada espectador que se deixa guiar por seus traços.

Quais os temas preferidos ou recorrentes do artista?

Em minha leitura de sua obra, os temas centrais de Marcos Garcia são os rituais do cotidiano doméstico, as festas populares brasileiras e o corpo em movimento. Através dessas temáticas, ele resgata memórias afetivas e elementos da cultura popular, transformando a nossa realidade e a nossa brasilidade em um vibrante espetáculo visual.

Por que as pessoas devem correr para não perder esta imperdível exposição?

Porque é uma oportunidade única de testemunhar como Marcos Garcia transforma nossa brasilidade e afeto em um espetáculo de cores inesquecível. Além do mais, o artista autorizou a reprodução de três dos seus desenhos para que as pessoas possam levar para colorir em casa, entrelaçando a criatividade do artista com a dos visitantes.

E depois dela? O que você vai fazer neste “restinho” de ano?

Além dessa exposição, estou preparando uma individual dos meus trabalhos recentes – entre esculturas e fotografias – e tenho outra curadoria juntamente com o espaço Câmara Cultural da Câmara Municipal de BH em cooperação com a Escola Guignard-UEMG, onde trabalho.