Samba da sensatez

Paulo Laender é ótima conversa ambulante e instigante. É também grande artista: pintor, escultor, designer de joias e arquiteto. Do ser humano ele quer nada mais que honestidade, inteligência e sensibilidade. Para o Brasil, gostaria de mais civilidade, seriedade, "sem chutar o lirismo e sem dar um tiro no sabiá". Tomara, para nós, que ele volte rápido de suas férias, para mais histórias.

- Com vai o mau humor mais bem humorado de BH?
- Parece até elogio. Prefiro classificá-lo como humor crítico e satírico em função da nossa realidade.

- O que tira teu humor?
- A convivência constante com a barbárie, a banalidade, a "peruice" e a idiotice (no mais puro sentido Nelson Rodrigues) que determinam este estado de sítio permanente.

 - Do que você ri no Brasil hoje?
- Rio e choro do ridículo de continuarmos esperneando por um país minimamente decente e que pudesse nos gratificar ao invés de só nos escorchar e espoliar.

 Nelson Rodrigues escreveu: "Não acredito em honestidade sem acidez, sem dieta e sem úlcera".
 - Honestidade é questão de princípio, formação. De Nelson prefiro outra: "A melhor maneira de um artista trabalhar pelo seu país é trabalhando a sua arte".

- E pra fazer um samba e pintar um quadro com beleza? É preciso um bocado de tristeza, como cantaria Vinicius de Moraes?
- Não necessariamente. "Garota de Ipanema", "Samba do Avião" são exemplos de pura alegria, mas a melancolia faz parte da alma do artista.

- Fale sobre sua mais recente exposição e sobre a(s) próxima(s)?
- Perguntado uma vez sobre qual era seu melhor quadro, Picasso respondeu: o próximo. É mais menos por aí.

- Férias em Portugal e Espanha. O que está achando?
- Lisboa é bela, simples e descomplicada. Não estamos na alta temporada e parece que metade da população é de turistas. Os estrangeiros entram no ritmo. A interação é muito boa. Lisboa realmente se tornou uma metrópole cosmopolita e civilizada.

- O que é mais invejável em Portugal?
 - Admirável! Imaginem um país de riquezas limitadas, com dimensões tão diminutas em relação à nossa boba rica e inútil paquidérmica enormidade, mantendo um bom equilíbrio social, estruturas urbanas e de transporte, arquitetura com seu traço tradicional bem adaptado ao design atual, ecologia bem preservada; vinhos e azeites de alta qualidade que suprem o mundo inteiro.

 - O que fez em Portugal e vai fazer na Espanha? E as artes aí?
- Viajar, para mim, é pós  graduação sempre. Ouso afirmar que, em breves momentos menos obscuros no Brasil e além da nossa imaturidade como povo e nação, fomos capazes de produzir cultura e arte atuais, com profundidade e qualidade reconhecidas internacionalmente. E continuamos prontos para fazer isso acontecer novamente bastando uma civilidade maior. Aqui percebo um certo entorpecimento pelo qual o mundo passa, talvez pelo excesso da informação robotizada que a mídia e a informática nos impõe gerando um vazio assustador. "Voilà".