Paulo Navarro | terça, 18 de janeiro de 2022

Mundo moinho

Hoje, no auge dos tempos do “cólera”, variantes de gripe e Covid-19, o relato de Vivian Scarano Tonon, da Dominox Design, sobre como o Coronavírus revirou sua vida, incluindo a morte que passou por familiares e por ela mesma, entubada. “A primeira perda foi a de minha sogra. Após ser diagnosticada com Covid-19, foi internada e faleceu em três dias”.

Mundo carrossel

“Um choque para a família, que, à esta altura, já estava toda infectada. Minha mãe foi internada, meu sogro e logo depois eu mesma. Isolada no quarto do hospital, tive a pior notícia: a segunda morte, minha mãe! Eu não acreditava! Uma semana antes a gente estava bem, juntas, rindo... Não haveria velório. O enterro seria em 20 minutos”.

Mundo frágil

“Ali estava minha história, meu nascimento, meu passado e presente. Tudo resumido em um saco plástico preto, um breve funeral. Nunca mais eu veria minha mãe. Sozinha no hospital, sem ninguém poder me dar um abraço, um conforto, senti a maior dor do mundo. A notícia teve efeito de uma bomba! Caiu e não resta mais nada. Nem o corpo eu poderia ver para me despedir”.

Mundo cruel

“Senti-me num acampamento de feridos no meio de uma guerra. Guerra contra a Covid-19. Liguei no ‘mood’ sobrevivência, a cada hora que passava eu dessaturava mais. Piorei. Fui para o CTI no outro dia. A médica, muito delicada e firme, me disse que eu seria entubada, ‘entubada?’, ‘Não aceito’, ‘façam o tratamento sem me entubar’, eu relutava”.

Mundo louco

Continua Vivian: “‘Liguem para os meus irmãos que são médicos e eles não vão autorizar’! Eu apelava. ‘Já ligamos e eles autorizaram, você está com 75% do pulmão comprometido!’, afirmou ela. O chão abriu sob meus pés! “Outra bomba! Eu estava indo para o corredor da morte. Somente 25 a 30% sobrevivem à entubação”.

Mundo breve

“Pensei nos meus filhos, Lívia 14, João 21. Pensei na minha vida inteira em minutos. Eu buscava o ar com dificuldade e medo, porque aqueles momentos poderiam ser os últimos da minha vida. Eu queria deixar alguma coisa organizada, um manual de vida, um bilhete, um abraço, mas eu não tinha mais tempo”.

Mundo mortal

“A morte de novo rondava. No desespero, comecei a sentir uma calma. Tentando me controlar, fui tomada por uma sensação de acolhimento. Foi quando escutei a voz da minha mãe dizendo: ‘vai ficar tudo bem, tenha força, eu estou aqui’. Fui às lágrimas! Muita informação e emoção juntas. Não me sentia mais sozinha”.

Mundo paralisado

“Enquanto os médicos estavam me anestesiando, eu olhava para os lados para ver como eram os pacientes entubados. Senti a sedação entrar pelo meu corpo, mas, ainda lúcida, implorei à minha mãe: ‘Mãe se você está aqui, me salva, eu vou ter força, não posso morrer, preciso criar meus filhos’".

Curtas & Finas

*Continua o impressionante relato de Vivian Scarano Tonon.

“Nesses 30 dias de coma induzido, tive infecção hospitalar com uma super bactéria chamada acineto, três choques e um AVC”.

“Me entubaram, extubaram, entubaram de novo e tome traqueostomia. Tomei antibiótico de dois mil reais a dose, se eu não tivesse na Santa Casa, talvez não teria sobrevivido”.

“Fiquei entre a vida e a morte por semanas. Nesse período, meu sogro morreu, além de mais duas irmãs da minha sogra”.

“Meu marido perdeu o pai, a mãe a sogra, duas tias em menos de 20 dias e a mulher no CTI. Perdemos cinco pessoas da família”.

“Até que escutei ‘Acorda, acorda! Vamos! Estamos saindo do CTI’, era a enfermeira me acordando um mês depois”.

“‘Que alívio’, foi a primeira coisa que pensei: ‘estou viva’ ainda sentia minha mãe por perto”.

“Foi depois da euforia, que percebi estar sem voz; sem conseguir mastigar, engolir, poder segurar um garfo ...”.

“Após o CTI, tive cinco dias de alucinações terríveis, pois os remédios que me davam eram muito fortes e o desmame foi rápido. Mas era a guerra e eu estava viva”.

“Durante a recuperação, todo dia, às 3h da madrugada, as enfermeiras me acordavam para fazer um exame muito dolorido, que pega a artéria do pulso”.

“Tinha que ser nesse horário para ficar pronta às 7h, quando o médico chegava e tomaria as decisões. Chorava, mas entregava meu braço”.

“Sofria sem desespero... e pensava ‘é para me curar’. E assim eu ia melhorando a cada dia...entre fisioterapia, agulhadas e exames”.

“A primeira visita dos meu filhos foi o meu renascimento emocional, depois de 50 dias sem vê-los, o encontro foi um verdadeiro milagre”.

“No dia da minha alta, eu aguardava os protocolos. Na secretaria, escutei ao longe, numa rádio qualquer, Roberto Carlos cantando ‘É preciso saber viver’. Desabei”.

“Chorava compulsivamente! Era a música que minha mãe adorava cantar! Ela estava novamente ali, só que se despedindo!”.

“Hoje estou curada e sem sequelas. Sinto saudades dos que se foram, mas poder estar aqui criando os meus filhos me conforta e anima”.

“O amor da minha mãe e o amor que eu sinto pelos meu filhos, me trouxeram de volta. Eu sobrevivi”.

Parabéns Vivian, sobrevivente e vencedora! Cuidem-se!

Quem faz e acontece passa por aqui

Eles sabem e praticam viver, Joana Barcelos e Ricardo Carvalho Abreu no ‘Joya Beach Club, em Miami. Foto: Arquivo Pessoal

Eles sabem e praticam viver bem, Ricardo Carvalho Abreu, a mãe Cira Carvalho e Joana Barcelos no Bakan Winwood. Foto: Arquivo Pessoal