Paulo Navarro | segunda, 16 de maio de 2022

Entrevista com o artista plástico Miguel Gontijo. Foto: Clara Gontijo

Carne Trêmula

O artista plástico Miguel Gontijo pode até estar “capengando”, mas não sua nova safra, batizada como “Carne Crua” e, até junho, exposta na Fundação Educacional Lucas Machado - Feluma. É carne viva, fria, quente e sangrando. Carne seca, filé mignon, de pescoço e de soja. Carne mal passada, ao ponto e queimada, com cheiro de Santa Inquisição. “Em seus papiros, Papillon já me dizia que, nas torturas, toda carne se trai”. Então, meu bom Alá, por que “Carne Crua”? Elementar, meu caro Watson, “porque ainda não foi assada”. Bom churrasco aos apressados que comem cru.

D. Miguel, como vão você e a vida?

Como sempre, tentando adaptar uma coisa à outra. Capengando.

Por que a exposição em teatro e não em uma galeria?

A Feluma não é apenas um teatro. É um espaço reservado à arte. Nesse espaço as artes plásticas estarão pau a pau com as outras manifestações artísticas. Como você conhece, está no cancioneiro mineiro (Milton Nascimento), a famigerada frase que diz que arte tem que estar onde o povo está. E depois, as artes plásticas, há muito, perderam o elitismo das igrejas, dos castelos, dos burgueses e agora, das galerias. As galerias, hoje, são opção.

Por que “Carne Crua”?

Porque ainda não foi assada.

Os vegetarianos e veganos também estão convidados?

Isso vai depender deles. Se o cheiro atrai-los...

E os carnívoros? São também antropófagos dos 100 anos da Semana de Arte Moderna?

Sim. Todos convidados e já presentes na mostra. Um banquete antropofágico. Tem até Macunaíma. 

Os trabalhos desta exposição começaram há quatro anos. Antes, durante e “depois” da pandemia. Alguma influência?

Não. Estavam prontos antes da pandemia. A pandemia abriu novas camadas nessa “carne crua”, jogando cadáveres sobre ela. A guerra e nosso desmazelo político também lançaram seus destroços sobre ela.

Por que e como os mesmos trabalhos refletem e instigam sua visão “sobre a incessante e inalcançável busca do ser humano pelo sucesso”?

A “Carne Crua”, antes da pandemia, falava apenas dos desejos de realizações pessoais, na maioria das vezes, inalcançáveis. Sonhos perdidos.

Qual tua definição de sucesso?

Não conheço outra definição a não ser a que está expressa nos dicionários. A "Carne Crua" não fala de sucesso. Fala da falta dele. Fala de desejo e das frustrações.

Entre as pinturas há um livro. O que é?

É um livro de 52 páginas, medindo 0,48cm X 0,48cm, pintadas em acrílico, óleo e bico de pena sobre telas.  Está exposto sobre uma mesa para ser manuseado pelo público. Tem o título de: "Grandes Personagens Desconhecidos da Nossa História", ou, para adocicar, um subtítulo: "A vida Cor de Rosa que eu Sonhava". São retratos de centenas de pessoas, posando como se fossem artistas de Hollywood, e não passam de seres humanos comuns. Talvez um carnaval, um baile à fantasia, talvez um disparate. Por certo, uma metáfora.

Esta exposição é para brilhar na ribalta?

Não. É para dar visibilidade à ribalta. Amaciar a carne, numa tentativa de nos fazer mais iguais.

Até já ou até daqui mais quatro anos?

Prefiro “Até já", visto que, há mais de 50 anos, estou aqui a roer os ossos. Em breve virão os zumbis.