Paulo Navarro | sábado, 7 de março de 2020

Foto: Arquivo pessoal/Divulgação


Lessa à beça

A múltipla Rita Lessa é pergunta bípede, ambulante, interessante, inteligente e instigante. Anda com anjos sem asas, faz coisas bonitas, cheias de cor, sabor, desenho e palavras. Pinta, não sabemos se borda, mas escreve e muito bem. Seus trabalhos podem até ser fronteiriços, mas têm fronteira não. De longe, parece normal, mas fecha a porta da geladeira do incomum, com os pés. Ou joelhos.


Rita, como vão os anjos?

Como “mãos invisíveis” do universo, conto com uns por aí. Minha fé fajuta não me permite falar de anjos extraterrestres. Já os anjos gente, encarnados, os que vêm sem ser preciso chamá-los, existem.


Artista plástica. Quais suas outras praias?

Sou uma fazedora de coisas. Quando se é assim, você não reconhece muito bem as fronteiras. Meu trabalho não se limita à pintura e desenho.... Olha que me amarro em ambos!


Empresária também, já teve loja em Bichinho, Búzios...

Sim, empreendedora, aquela que sai da articulação mental para a realização ou a tentativa. Não posso falar de empresária, não por pudor de artista que amaldiçoa tal condição. É que esse lugar exige predicados que não tenho.


Existe fronteira entre arte e design?

Sim, são passíveis de interfaces, mas campos distintos. A arte se toma na força da liberdade, não conhece limites. Já o design está a serviço de, atende demandas ligadas à estética, funcionalidade etc. Meu trabalho é fronteiriço: tenho produtos no mercado, mas meus fundamentos possivelmente estão mais do lado das artes plásticas.


Por falar em fronteira, e o Rio de Janeiro? E Paris?

Ah, vamos ser bem originais? O Rio continua lindo, e Paris é uma festa! (risos). São cidades que gosto, como tantas outras, e, para sorte, abrigam o que faço.


E sobre outro tipo de arte, a de ser incomum, de provocar, ironizar, surpreender, desconstruir?
Estou me sentindo intimidada! Estaria acaso sugerindo que algo de meu comportamento tenha tais características? Sou mineira, bicho quieto no seu canto.


Onde encontramos e nos perdemos hoje, com seu trabalho?

Há coisa de um ano, abri um estúdio em BH, separado do ateliê. Ali, artes plásticas, visuais e produtos. Dou muitos pulos para viver de uma escolha maluca! Ninguém precisa do que faço (risos). Então, venham ao meu Estúdio Less! O trabalho, felizmente, caminha com as próprias pernas e está por aí.


Você tem, pelo menos, um livro lindo na gaveta. Quando ele escapará de lá?

Que inconfidência! Não é segredo a escrita, parece que escrevo desde que me dei por gente. Ao modo do Bispo do Rosário, “preciso das palavras escritas”. Como há editores malucos que desejam publicar minhas bobagens, acho que vou encarar.


Já que o assunto é palavra, o que pensa sobre o tempo, que dá nome a este jornal?

Pergunta interessante, inteligente e instigante. Respondo dizendo com uma escrita de rua minha (sim, escrevo nos muros): Tempo é areia na fila de espera.