Paulo Navarro | sábado, 5 de setembro de 2020

Foto: Arquivo pessoal

Bom dia, Futuro!

Em 2014 entrevistamos, pela primeira vez, a professora, educadora e diretora do Colégio Edna Roriz. Seis anos e um mês depois podemos repetir a apresentação do bate-papo que, desta feita, aconteceu pelo WhatsApp, época “oblige”. Reconfirmamos que Edna trabalha com, entende de, e incentiva a coisa mais importante do mundo: educação. Ela sabe que não existe outra saída para o Brasil e, literalmente, coloca seu nome na porta da escola. Seus alunos (continuam) “bons investigadores” e, assim, desvendam a vida. Um dia, certamente, vão fazer, vão construir um país melhor”. Hoje, o filme é “O Amor de Ensinar nos Tempos do Cólera”, com a Covid-19, em seu melhor papel.

Edna, recapitulando...

A escola foi fundada em 1997, tendo sua sede própria inaugurada em 1998, no Belvedere. Então, temos 23 anos de existência.

Qual o perfil dos alunos?

Principalmente moradores da região, inclusive os bolsistas que moram no bairro Olhos d’Água e na Vila Acaba Mundo. Para cada cinco alunos matriculados, que podem pagar a anuidade da escola, recebemos um aluno que não pode pagar. Temos que ampliar o leque de oportunidades a toda a comunidade e consideramos de fundamental importância a criação de espaços de aprendizagem onde prevaleça a diversidade, o que enriquece a formação dos jovens.

Foi fácil, rápida, a adaptação ao fechamento das escolas e à abertura do ensino online?

Durante o fechamento das escolas, criamos uma estrutura de aulas online, em tempo real, que foi um superdiferencial. As escolas fecharam em 18 de março, e nós, já no dia 23, dávamos aulas remotas, mas síncronas. Com total interação, inclusive para a Educação Infantil.

O novo método e o diferencial funcionaram?

Fizemos alterações de horário, organizamos material novo. Metodologia diferente da que usávamos em aulas presenciais. Interagimos diretamente com os pais. Mostrando cada passo do que iríamos fazer.

O que ajudou mais? A Intuição, a experiência ou a “necessidade, mãe de toda criatividade”?

Estudei muito nesse período sobre ensino à distância, para adequarmos a essa nova realidade. Quando as aulas voltarem, acredito que teremos um esquema híbrido. E já estamos preparados. Nosso programa acadêmico está em dia. Nenhum funcionário ou professor foi demitido. Inclusive, nossa carga horária não foi prejudicada e, em 15 de dezembro, completaremos um ano letivo de 203 dias.

Voltando ao diferencial, quais são eles?

Temos tido palestras com convidados. Lives, música, saraus com Odilon Esteves, aulas de culinária. Nosso voluntariado está funcionando. Como tenho doutorado em educação e pesquiso sobre a sala de aula e currículo escolar, tenho conseguido qualificar os professores com agilidade e qualidade.

Qual o papel do voluntariado e por que precisa de um voluntariado?

É mais uma maneira de contribuir para a formação de cidadãos melhores, que não exercem a solidariedade apenas quando ocorre uma catástrofe. Nossos alunos são confrontados cotidianamente com problemas reais para os quais eles devem procurar soluções. Para isto pesquisam, estudam e elaboram ações que devem impactar positivamente a sociedade. E o voluntariado é uma das estratégias que encontramos para exigir deles esse esforço, já que não aceitamos ações puramente assistencialistas.

Tudo isso, com as já citadas aulas de culinária, é o diferencial do colégio?

A escola tem muitas ações formativas que acontecem paralelamente às atividades acadêmicas. Acredito que instrução é muito diferente de formação. Há indivíduos muito instruídos, com titulação acadêmica impecável e que não contribuem para a melhoria da sociedade como um todo. Acreditamos que devemos levar cada jovem a desenvolver os melhores aspectos de seu caráter e que além de instruídos sejam também pessoas que possam fazer a diferença no mundo.

Como?

Com diversas maneiras de nos aproximarmos dos alunos e de suas famílias como forma de melhor acolhimento. Então, as lives de poesia, música, artesanato e culinária são formas de cuidado que todo educador deve ter. É claro que há muito o que ensinar enquanto fazemos um bolo juntos, ou uma receita de comida portuguesa que aprendi com minha sogra. Posso falar de cultura, de folclore, de física ou de química, mas, principalmente, estou ali, ouvindo, fazendo companhia e acalentando um aluno e sua família. Digo que nos distanciamos fisicamente, mas não socialmente.

O esquema “híbrido” é uma tendência que foi apenas antecipada ou já era uma realidade? Híbrido é aula presencial e online?

Bom, acredito que, por diversos motivos, a escola não será, de imediato, totalmente presencial. Creio que passaremos um tempo ainda com alunos indo ao colégio e outros que assistirão aulas em casa. Na verdade, acho que essa será a escola do futuro. Ou seja, essa é a forma híbrida. Mas uma das melhores coisas que nos aconteceu foi a oportunidade de discutir a própria educação e a escola que a oferece. Veja bem: a estrutura escolar vigente é a do século 17. Preparam alunos baseados em uma realidade que já não existe mais. É como preparar alguém para resolver questões que estão no passado.

Alguém precisa avisar que já estamos no século 21...

Sim, portanto, é muito importante entender que o presente deve servir para que haja um futuro e não para estimular comportamentos para uma realidade que não mais existe, mas para o que virá. Por isso, a pandemia nos deu a possibilidade de vermos com uma lupa muito poderosa o quanto a educação oferecida em nosso país é retrógrada e ineficiente. Tanto é que muitos alunos estão, até hoje, fazendo apenas atividades postadas em uma plataforma e muitos, nem isso tiveram, como no caso das escolas públicas. Se a própria escola, por meio de seus gestores e educadores, não consegue se reinventar, o que acontecerá com os alunos egressos dessas escolas em um mundo tão cheio de incertezas, com a informação circulando cada vez mais rápido?

Ótima pergunta! Mas qual é a resposta?

Para uma sociedade em que a velocidade é um valor, é preciso levar a seus indivíduos a chance de se tornarem pessoas críticas e com elevada capacidade de discernimento. Eu não acho que haverá um “novo normal”. Na verdade, a vida nos deu uma chance de corrigirmos rumos. Então, retomarmos aquilo que já não servia é um grande despropósito. Estamos no momento de reflexão sobre como construir um ótimo futuro e não reviver glórias do passado. E, para isso, só temos o presente e não devíamos perder essa oportunidade. Toda grande crise é a deixa para a extinção do que não serve mais, e nossa resistência em enxergar isso é que muitas vezes a provoca. Vamos rever nossas escolas, o que queremos para os nossos jovens, para fazermos um futuro melhor.