Paulo Navarro | sábado, 4 de setembro de 2021

Entrevista com o artista plástico Fernando Lucchesi. Fotos: Leonardo Reis

Vacina floral

O raro e um raro Fernando Lucchesi brindam Belo Horizonte com a inédita exposição, “Flores para Guignard”. São 41 telas pintadas durante os últimos seis anos. Pérolas e pétalas inspiradas em Guignard, revelando as impressões de Lucchesi sobre o universo do mestre. Até 18 de setembro, na Errol Flynn Galeria de Arte. Lucchesi não é bom para tosse, nem para Covid-19, mas sempre é oxigênio.

Novos tempos ou nada mudou para o artista e para o homem?

Novos tempos, mas tudo igual. Estamos perdendo o verdadeiro sentido das coisas, não apenas em virtude da pandemia, isso já vinha acontecendo no mundo há muito tempo. Eu continuo trabalhando (e pagando as contas rsrs). Ser artista plástico nesse país é difícil. Infelizmente, no Brasil, não se valoriza a arte, o que importa é o valor monetário. Sempre foi assim. Guignard é a prova da desvalorização da arte. Ele era um artista único, que só foi reconhecido após a sua morte. Ele foi explorado, massacrado, morreu na miséria e sozinho.

Por que “Flores para Guignard”? Não vale responder “por que não?”. 

A minha relação com o Guignard é desde criança. Foi o meu avô que me apresentou a obra dele, quando eu ainda era menino. Eu fiquei um tempo sem pintar, devido ao câncer, e quando pude voltar pensei: por que não Guignard? As flores representam o mundo de Guignard. Os quadros são a minha fantasia sobre o mundo dele.

Depois de tantos anos, os mineiros continuam “alunos de Guignard”? Ou órfãos?

Não, a nova geração não conhece Guignard. Eles batem um prego na parede e penduram um barbante e chamam de obra de arte. Está tudo muito vazio.

Voltando à nova exposição. O que tem de novo e de nem tão novo?

Todos os quadros são recentes, pintados nos últimos seis anos e inéditos aos olhos do público. O tema é antigo, Guignard, meu mestre. Mas eu vou mudando a cada série. Cada quadro é um. A história é a mesma, mas tudo é diferente.

Além de trabalhar, o que fez em 2020 e ultimamente?

Fiquei quieto, pintando, lendo, assisti a filmes e séries. Eu sempre gostei de viver sozinho, recluso, e a pandemia contribuiu para que eu fique mais recluso ainda. Moro na zona rural de Nova Lima, bem isolado, numa área cercada pela mata do cerrado. Vivo acompanhado de pássaros e animais.

O que pretende fazer neste “restinho” de ano?

Ficar em casa! Nada mais em mente.

Tua pintura ficou mais solar ou mais sombria?

Solar, com certeza! A minha pintura já foi até um pouco sombria, mas hoje ela é luz, transmite felicidade. A pintura é o que me salva. É nela que tento transformar a minha amargura. 

Planos, além de ficar vivo?

Vou continuar pintando, com certeza. Nunca pensei em parar de pintar. Eu vivo o momento. Na pintura, sempre que termino uma série, paro sem pensar no tempo, no que farei depois. De repente me vem a vontade de pintar e começo sem parar. E tentar manter um pouco de saúde mental nesse mundo louco.