Paulo Navarro | sábado, 4 de julho de 2020

Foto: Nathália Mariana Castro

Vacina e antídoto

É muito bom conversar com o galerista e “marchand d’art” Murilo Castro. No distanciamento involuntário ao qual o vírus, o medo e as autoridades nos submeteram, é muito entusiasmante falar com Murilo Castro por telefone. Foi muito importante e prazeroso entrevistar Murilo por WhatsApp e um paleolítico tal de e-mail. Pelas muitas e frequentes lives, também nesta entrevista, confirmamos a importância e o poder da arte. Não só estética e econômica. À citação de Louise Bourgeois, pelo próprio Murilo, somamos a definição do poeta, crítico de arte e artista plástico Ferreira Gullar (1930-2016): “A arte existe porque a vida não basta”. E para quem ainda duvida, tente ficar sem arte neste confinamento sem jogar pedras nos aviões que não voam mais.

Murilo, qual é a cor de 2020?

Dramaticamente multicolorido. Começou com céu de brigadeiro, um belo e esperançoso azul, de repente fechou em uma cor nunca vista, inexistente na paleta do artista, no arco-íris, em nossa imaginação, uma cor não imaginada, um tipo de buraco negro que a tudo consome. Agora, com o primeiro semestre vencido, como será a paleta de cores que se apresenta no próximo? Quem quer apostar? Eu acho que estamos vivendo a máxima de Sócrates: “Só sei que nada sei”. Nunca não soubemos tanto quanto agora.

Qual o tamanho da crise, até agora?

Segundo o pessimista, nós chegamos no fundo do poço e, segundo o otimista, o poço pode ser mais fundo ainda. Qual a sua visão? A minha é que esta crise é devastadora para quem ficar esperando o mundo voltar ao que era, que nunca mais voltará, ou é a motivadora para todo um processo de reinvenção de tudo, de todos os procedimentos em todos os planos.

As desvantagens conhecemos, mas o que descobriu de positivo nestes tempos de coronavírus para o mercado de arte?

Com certeza toda crise traz algo de impacto positivo em nossas vidas. No mercado de arte, especificamente, por incrível que pareça, trouxe a oportunidade de aproximar mais os interessados e participantes deste mundo. Nunca se viu tantos eventos e conteúdos tão interessantes disponíveis em diversas plataformas digitais, a qualquer tempo, para quem tiver

interesse, com toda a facilidade de acesso. Criou-se um processo de discussão das artes, em todos os níveis, como nunca havíamos pensado. Este processo já vinha acontecendo levemente, mas foi fortemente acelerado nestes tempos.

Claro que as exposições são importantes, mas há muito o mercado já explorava as vendas “online”, mais discretas, concorda?

Não é uma questão de discrição e sim de característica geracional, e por isto esta tendência já era de crescimento mesmo. As exposições sempre acontecerão, são fundamentais, insubstituíveis, e agora vão conviver com o ambiente “online” de forma absolutamente natural. A plataforma “online” é uma ferramenta de complementação, de facilitação, mas absolutamente insuficiente para suprir a emoção de estar defronte à uma obra de arte, desfrutando sua integralidade, tendo a oportunidade de experimentar uma vivência que somente presencialmente é possível.

Os negócios “online” cresceram e agora serão o “novo normal”?

As vendas “online” no mercado de arte vêm crescendo ano após ano, em percentual maior que a venda global de arte. E esta é uma realidade de todos os mercados. No caso do mercado de arte este processo de aquisição é um procedimento adotado pelas novas gerações e pouco utilizada pelos “baby-boomers”, por exemplo. Com esta pandemia este procedimento acelerou, é uma realidade. O “novo normal” será a convivência destes dois procedimentos, complementarmente, mas de forma diferente, conforme. As obras com valores mais altos ainda serão negociadas pessoalmente, porque envolve um volume de informações mais apuradas que o mundo “online” não permite ainda, como, por exemplo, o próprio estado de conservação da obra. Interessante notar que era um tabu colocar preços de obras de arte em sites, hoje é um padrão que está acontecendo em todo o mundo, até como forma de facilitar a decisão do interessado na aquisição.

Você anda muito ativo com as já famosas “lives”. Qual o retorno imediato delas?

De início, as lives me mantiveram vivo. Um importante retorno. Na sequência, foram acontecendo naturalmente sem nenhuma realização de negócios, mas sim proporcionar a disseminação e discussão de assuntos diversos das artes para quem estiver interessado. Assim, tenho possibilidades de manter contato com pessoas do circuito das artes.

A arte é ou deveria ser considerada um serviço essencial?

A arte é, sem a menor dúvida, essencial na vida desde a mais primitiva das vidas humanas. Como disse Louise Bourgeois (1911-2010): “A arte é o que nos salva da vida”. Nestes tempos de pandemia tenho certeza de que esta necessidade de ter por perto, de vivenciar qualquer tipo de manifestação artística, seja a música, teatro, dança ou balé, uma sinfônica e as artes plásticas, foi vitalizada em todos. É essencial, é vital.

Como você está usando o tempo livre? Ou não tem tempo livre?

Hoje não sei mais o que é tempo livre, e livre de que? O meu tempo hoje é todo um só, em casa, sem nenhum controle de horário, e todo o tempo envolvido com arte, seja estudando, organizando, conversando. É um assunto que me deslumbra sempre e agora estou tendo a oportunidade de desfrutar das artes com maior plenitude.

E os artistas confinados? Estão produzindo mais ou o medo e a incerteza paralisam?

Não creio que este momento seja de estímulo criativo para os artistas e sim um momento de certa melancolia para todos nós, independente de nossas atribuições profissionais. Tenho conversado com vários artistas e alguns estão trabalhando mais por um estímulo interno do que externo. Não tenho percebido nenhum interesse em ter este momento como inspiração. Pode até ser que, o que venha a ser criado neste momento reflita uma dose de tristeza, é natural, mas, não vejo nada inspirador, ou como motivador de nenhuma série.

Além do uso da tecnologia, o que a pandemia vai mudar no mercado de arte?

Esta pandemia mostrou a importância de vivermos, de buscarmos mais estímulos intelectuais em nossas vidas, em nossas casas. Inúmeras pessoas me disseram que não suportam mais verem televisão, e que passaram a buscar outras formas de ocuparem este tempo perdido, que não era percebido assim. A leitura voltará com mais força, ver um espetáculo de dança será apreciado com uma alegria muito maior, conhecer e viver com artes plásticas será cada vez mais um “way of life”. Certeza.

Projetos? Otimismo para 2020 ou só 2021?

Realista para 2020, ou seja, nós fomos colocados em uma nova realidade, lançados em um novo terreno, que exige novas formas de tratar os negócios e a própria vida. Vou fazer o dever de casa. Vou preparar o terreno, semear, para colher na sequência da estação. Quero simplesmente seguir o curso da vida, desfrutando do que foi apreendido nestes tempos, sempre grato por ter o que fazer com minha breve existência. E fazer da melhor forma possível.