Paulo Navarro | sábado, 4 de dezembro de 2021

Entrevista com as atrizes Lilia Cabral e Giulia Bertolli. Foto: Cristina Granato

Lista de Sobreviventes

Lilia Cabral e sua filha, Giulia Bertolli, no Cine Theatro Brasil Vallourec, hoje e amanhã, com “A Lista”, em formato híbrido. Lilia interpreta Laurita, uma aposentada trancada em seu apartamento, evitando se contaminar com o Coronavírus. Amanda, vivida por Giulia, é quem faz as compras e abastece a casa da vizinha. O encontro gera uma “pandemia” de sentimentos, lembranças e descobertas.

Lilia, como você “viveu” a pandemia?

Minha família não sofreu, mas muitos sim. Não sei se nos alimentamos de algumas situações para sobreviver. Ainda vivemos a pandemia. Não dá para esquecer as mortes, quem sobreviveu, teve sequelas e como o país está empobrecido em todos os níveis. A pandemia veio e transformou nossa dor, em muitas situações, desespero. Começamos a nos reerguer muito devagar, querendo que as coisas voltem a ser como era antes.

E você Giulia?

Não tem como esquecer as mortes, a pandemia ainda afeta todos nós de maneira muito angustiante, não seria capaz de pensar nela, sem esse sentimento constante de tristeza e medo.

Lilia, você conhece gente que viveu a “comédia da vida privada” desta peça?

Não sei se é uma “comédia da vida privada” ou fazer, de raros momentos, momentos de alegria. Foi e é nossa maior preocupação.

Giulia, você sabe se o autor, Gustavo Pinheiro, imaginou esta situação ou conviveu com ela?

Quando me ligou, relatou que uma amiga dele tinha vivido a situação inicial da peça (fazer compras para a vizinha que não parava de reclamar de tudo que ela comprava). Assim, ele foi desenvolvendo essas reviravoltas e sentimentos de forma única e criativa. Quando recebemos o texto, foi um deleite. É um grande autor.

Lilia, o que você perdeu e ganhou com esta pandemia?

Tive que me reinventar. Comecei tudo do zero. E entre os orgulhos estão “A Lista” e o filme “Arcanos”. Coloquei a mão na massa e com recursos próprios, para a gente sobreviver e levar um pouco de esperança, dar trabalho às pessoas. Perdi muitos amigos, muitas histórias de vida.

E você Giulia?

Perdi amigos, referências, pessoas que eu admirava muito. Todos nós perdemos muito mais do que ganhamos. O que eu ganhei foi a oportunidade de trabalhar na pandemia, de forma “online” e cheia de medidas preventivas, com a minha mãe. A oportunidade de pisar nos palcos e poder descobrir a beleza de uma plateia vazia, mas uma reunião no Zoom cheia de espectadores. 

Lilia, se você fosse a “Laurita”, o que colocaria na lista de sobrevivência?

A generosidade. Cada um de nós não olhando para o próprio umbigo, mas ao redor e para o horizonte. A vida teria sido melhor.

Giulia, em outra pandemia, o que levaria para uma ilha deserta ou um sítio deserto?

Livros, meu escape na pandemia. Sempre amei ler, era um hábito que eu tinha perdido durante um tempo, mas que voltou nestes tempos que dão medo de ir até a esquina. Com livros viajei para diversos lugares do mundo sem sair de casa.