Paulo Navarro | sábado, 4 de abril de 2020

Foto: Vivian Eliazar Moreira


Imortal Trajano

A melhor piada da quarentena reza que, se a doença dizimar a humanidade, restarão apenas dois ingleses. O lendário guitarrista dos Rolling Stones, Keith Richards, e a própria rainha da Inglaterra. Mas podemos substituí-los pelo brasileiro Ricardo Trajano. Como verão, Trajano pode esnobar a quarentena, sair por aí beijando e abraçando todo mundo, sem perigo.


Ricardo, você gosta da música “Medo de Avião”, do Belchior?

Sim, claro. Gosto quando ele fala dos Beatles "I wanna hold your hand", do James Dean e do gole de conhaque.


Você tem medo de avião e de incêndio?

Medo de avião ainda não, mas de incêndio sim, é muito triste, agonizante, doloroso e lamentável...


Vinicius de Moraes, em outra música memorável, cita Paris em 1973. Isso te lembra o que?

Claro, lembra meu acidente aéreo ocorrido no mesmo ano, 1973, em Paris.


O que aconteceu?

Minha vida, naquele 11 de julho de 1973, virou do avesso... O sonho de conhecer Londres, na minha primeira viagem ao exterior, virou um pesadelo. Faltando cinco minutos para aterrissar, o avião pegou fogo. O Boeing 707 da Varig fez um pouso de emergência numa plantação de cebolas, mas todos os passageiros e alguns tripulantes já estavam mortos... Fui resgatado pelos bombeiros e cheguei no hospital em coma. Depois de 30 horas, acordo, todo entubado, com as costas queimadas, meus pulmões cheios da fumaça tóxica e esperança de vida de uma semana. Estou no lucro há muitos anos e agradeço cada minuto da vida.


Desobedeceu ordens e escapou. Acredita em sorte, destino?

Morreram 123 pessoas. A fumaça começou dentro do toalete. Me levantei da poltrona por impulso. O comissário pediu que eu voltasse, mas por instinto ou força divina continuei em direção a cabine.


Você teve a síndrome de culpa de sobrevivência?

Senti a morte me abraçando, mas era a vida me protegendo, meu anjo da guarda, a mão de Deus! Minha “síndrome” é a da gratidão. E de poder ajudar as pessoas nas palestras e de aprender também com elas.


E a festa no teu próprio velório?

Quando cheguei ao hospital, sem roupa, fui confundido com o comissário (Sergio Balbino) que tinha um porte parecido com o meu. Pedi papel e caneta, escrevi com uma letra tremida e de criança: meu nome, nome do meu pai, endereço, telefones... O pessoal foi na lista de tripulantes e descobriu meu nome entre os passageiros. A Varig ligou imediatamente para meu pai, dizendo que eu estava mal, mas vivo! O velório lá em casa se transformou numa grande festa!


Que reflexões de sobrevivente tirou e ensina de tudo isso?

“Nunca se dê por vencido, quando você pensa que tudo terminou, é o momento onde tudo recomeça”. É possível recomeçar após uma queda, o que aconteceu comigo; após um fracasso, um trauma, uma perda. Vivo o presente, sou grato à vida e às pessoas, acreditando sempre nos meus sonhos e crenças. E sempre acompanhado do “meu Deus”.