Paulo Navarro | sábado, 30 de março de 2019

Foto: Marianna Barros Badaró

Lanterna na popa

O 31 de março! Revolução para uns, golpe militar para outros. Murilo Prado Badaró é economista, consultor em energia e finanças. Oriundo de uma família de políticos, vivenciou capitais momentos históricos da política brasileira. Está lançando o livro “Bastidores de 1964 – Detalhes não Revelados do ‘Golpe’” e, provando ser mesmo historiador amador, apaixonado pela política e pela história.

Murilo, se lermos “Bastidores de 1964”, foi “golpe” ou “gópi”?

Provo que os militares se anteciparam a um golpe que seria dado pela esquerda; foi um contragolpe. Poucos ouviram falar do G11, de Brizola. Ele formou, em 1963, cinco mil células de 11 pessoas, inspirado na revolução russa. Uma milícia de 50 mil pessoas.

O que achou de mais esta polêmica, sobre comemorar ou condenar 31 de março de 1964?

Temos sempre 500 motivos para ver uma coisa e outros 500 para não ver, depende de nossas referências. Não existem pessoas que comemoram a Revolução Russa, Chinesa e Cubana? Acho uma bobagem essa polêmica, cada um deve comemorar o que quiser.

Mas vamos ao que (mais) interessa. Resumidamente, por falta de espaço, o que não foi revelado sobre estes bastidores ou porões?

Exemplo. O Boeing 707-441 partiu do Rio de Janeiro, em 27 de novembro de 1962, e se espatifou em Lima, Peru, vitimando seus 80 passageiros e 17 tripulantes. No rescaldo foi achada mala diplomática cubana com provas do financiamento cubano às Ligas Camponesas. Espiões da StB (Agência de Inteligência Tcheca) sob o comando da KBG, inclusive em um episódio fazendo estratégia para começar uma guerra civil aqui.

O que tem a Guerra Fria a ver com o 31 de março?

A Guerra Fria foi muito pouco explorada na nossa história e posso concluir que foi a principal protagonista dos episódios de 64.

Teve dinheiro da esquerda na direita?

Muito dinheiro da esquerda. Desde a Intentona de 35 os russos colocam dinheiro aqui. Temos várias passagens no livro com valores, inclusive atualizados para termos ideia do montante, com todas as fontes bibliográficas. Fiz uma grande e deliciosa pesquisa.

Foi uma questão de quem dava “golpe” ou agia primeiro?

Exatamente. Ambos os grupos com potenciais para dar o golpe tinham instrumentos políticos, forças, dinheiro e vontade para dar o golpe. O Brasil tem longa tradição para sedições, revoltas e golpes, outro fato que muitos desconhecem. O que tem ocorrido muito, infelizmente, é a utilização da democracia, com o belo e onírico discurso da justiça social, para darem golpes: Venezuela, Nicarágua, Turquia, Rússia com Putin...

Afinal, foi “Gloriosa”, “Vergonhosa” ou “Pecaminosa”?

Totalmente gloriosa, porque nos salvou das garras da esquerda que chegou a ser muito forte nos anos 50 e 60. Importante frisar que não faço defesa do regime militar. E nem entro muito em discussões de cunho político sobre esquerda e direita. O livro narra, de forma romanceada, episódios da época.