Paulo Navarro | sábado, 3 de outubro de 2020

Foto: Glauco Lúcio

Câmera, Ação!

Entrevistar, não! Conversar, ainda que virtualmente, com o arquiteto Bernardo Farkasvölgyi, foi uma aula, muito além da arquitetura; aula de cinema, de filosofia. Com extrema felicidade, Bernardo está vendo o trabalho, os relacionamentos e a vida, como assistimos a um filme. E esse filme é de horror e amor, ficção científica e realista, comédia e drama, aventura em P&B, em cores e câmera lenta. Oscar e palmas de ouro para Bernardo como melhor diretor, ator, efeitos especiais, roteiro e, claro, direção de arte e filme.

Bernardo, o que parou, o que continuou e o que acelerou neste 2020 da Covid-19? 

A sensação que tenho deste período é quase de um mundo capturado em câmera lenta, mas num filme no qual, paradoxalmente, os atores em cena estão acelerados. Acelerados pelas incertezas iniciais, pela compreensão que foi surgindo no decorrer dos meses, pela expectativa e ansiedade de poder viver, crescer e evoluir num mundo que, muito em breve, esperamos poder chamar de pós-pandêmico. Nesse set de filmagem, entre atores mais ou menos acelerados, a verdade é que ninguém parou. Seja no pessoal ou no profissional, em maior ou menor grau, todo o tempo estivemos e estamos em ação. O que o roteiro tem exigido de nós? Adaptação.

E na Farkasvölgyi Arquitetura? 

Reestruturamos e redistribuímos o trabalho seguindo todas as recomendações mais rígidas em termos de segurança. Sendo assim, não paramos de produzir. Para nós, sinceramente, o maior impacto da Covid-19 não foi ou tem sido a reorganização do trabalho, e sim uma exigência quase natural de desenvolver projetos ainda melhores. Porque arquitetura lida com sensações e o que a pandemia mais fez foi mexer com as sensações das pessoas. Além disso, sabemos que parte das dúvidas surgidas com a pandemia só encontram respostas na arquitetura. Estar conscientes disso, dentro da filmagem em câmera lenta, fez sim que nos tornássemos atores acelerados, reagindo e atuando rapidamente em busca de soluções, pensando o presente e o futuro.

Do que sente mais falta neste mesmo 2020 e no que ele se mostra positivo? 

A falta é das conexões e convivência com as pessoas, do contato humano direto. Gosto de estar perto, abraçar, beijar, demonstrar afeto de uma maneira que só a proximidade permite. Sempre digo que tudo na vida tem que ser feito com muito amor. E sabemos: o amor à distância é muito mais difícil. Por outro lado, este 2020 nos forçou a uma introspeção que fez aflorar consciências e sentimentos que talvez estivessem mais fechados. Trouxe a possibilidade de uma nova percepção de nós mesmos, dos outros e do mundo em que vivemos. Se o amor já era um sentimento presente em tudo que faço, hoje ele está ainda mais fluido, mais intenso; caminha lado a lado com outro sentimento, a gratidão.

Você é da quarta geração de arquitetos na família Farkasvölgyi. Sem poder planejar, o que espera do futuro, na arquitetura? 

Meu bisavô era autodidata, e meu avô, engenheiro e arquiteto, ambos com seus projetos, obras e legado em Budapeste, na Hungria. Em Belo Horizonte, a história da Farkasvölgyi começa em 1973 com meu pai, István, também arquiteto e engenheiro; comigo, a partir de 1989. Tive a honra de trabalhar e aprender com meu pai por quase 15 anos, até o seu falecimento. Essa história de família me ensinou e me ensina muito a cada dia, pois atravessamos gerações realizando arquitetura, enquanto o mundo se transformava e enfrentava continuamente novos desafios e demandas, incluindo guerras e outras pandemias. Herdei uma visão quanto ao futuro que, mais do que planejar, está baseada em buscar respostas e sempre fazer ainda melhor diante dos desafios.

Voltemos a 2020, de sinistra ou louvável memória?

As incalculáveis perdas humanas representam o que há de mais sinistro. De louvável, tudo aquilo que pudermos absorver disso. É um momento de aprendizado e reflexão, de maior conexão com nós mesmos, com o universo e com o divino.

Uma estranha sensação está ligada à noção, à passagem do tempo em que tudo e nada aconteceu, ao mesmo tempo, concorda? 

Sim, exatamente como citei: um filme em câmera lenta no qual tudo parece desacelerado, menos as pessoas. Essa desconexão com o tempo, pelo menos aquele que concebemos, é perceptível. Entendemos o tempo com base nas nossas rotinas e como elas de distribuem no espaço: acordar, sair de casa e voltar, ir à escola, ao trabalho, ao cinema, visitar amigos e parentes, viajar... vimos tudo isso mudar. Os espaços nos foram negados ou limitados, bem como as nossas velhas rotinas. A vida não parou, mas a percepção em relação ao tempo foi chacoalhada.

Pessoalmente, depois de tudo, o “home” será cada vez mais “office” ou tudo voltará ao bom e velho anormal que achávamos tão normal? 

O “home” veio para ficar. Em todas as realidades? Não. Aqui na Farkasvölgyi, por exemplo, continuaremos sendo “office”. Porque arquitetura exige interações prático-criativas que, pra ter qualidade e fluidez, precisam de uma reciprocidade que só o presencial permite. O que virá pode ou não ser muito diferente, mas, sinceramente espero que seja. Que do bom e velho anormal utilizemos apenas a melhor parte pra construir uma normalidade mais saudável e humana.

O global será também mais coletivo? Temos espaço e tempo para o otimismo?

O próprio fato de vivermos uma pandemia dessa dimensão mostra quanto hoje vivemos globalmente; e se vivemos globalmente temos, inevitavelmente, que pensar no coletivo. Tudo o que fazemos aqui ou o que fazem do outro lado da Terra pode gerar benefícios ou malefícios para o mundo inteiro. Daí o espaço para o otimismo: a pandemia escancarou a importância de se entender isso e espero que as pessoas assimilem o recado e façam o bem. Já quanto ao tempo, ele se faz urgente nas decisões que levam em conta o que é melhor para o planeta.

Em que projeto podemos usar os ingredientes “viver, crescer, aprender, evoluir, prosperar”? 

Em todos, principalmente nos nossos projetos de vida e de sociedade. Viver com alegria, crescer sempre, aprender e evoluir com tudo e em cada etapa. Fazendo assim, prosperamos como pessoas e como humanidade.