Paulo Navarro | sábado, 3 de abril de 2021

A pintora Yara Tupynambá. Fotos: Raquel Guerra.

Senhora das Cores

Yara Tupynambá é artista até no nome. Yara, em tupi, claro, significa “Senhora da Água”. 70 anos de pintura! 89 de vida, completados ontem, dia 2. O segredo? “Amor pela arte e a genética tupynambá de vida longa e saudável. Sou bisneta de índio, de Montes Claros, com a paixão pelas forças dos temas naturais, a vontade de me identificar com o popular. E no Brasil, para fazer arte é preciso vontade”.

Yara, uma pergunta de Oswald de Andrade: “Tupy or not Tupy?

Nada de “or not”, comigo é Tupi, Tupinambá.

O que encontramos na exposição “Yara Tupynambá – 70 anos de Carreira”, no CCBB?

Uma visão panorâmica da natureza. Primeiro, a floresta e a Serra do Cipó, intocadas, protegidas por órgãos oficiais. Depois Inhotim, natureza acrescida; os parques municipais, natureza usada. E, finalmente, meus jardins, natureza cuidada.

As obras são filhas de 2020 ou órfãs do Covid-19?

Várias datas, inclusive do tempo da pandemia. Um ciclo. Todo artista trabalha com ciclos e eu encerro o ciclo natureza nessa exposição. Duas séries inéditas: o Parque Municipal e os jardins da minha casa, lugar que eu amo. Adoro cuidar das minhas plantas. Quando não estou pintando, estou cuidando do meu jardim.

A exposição é homenagem ou pedido de socorro ao Meio Ambiente?

As duas coisas, expor a beleza da natureza, mostrando que devemos dela cuidar. Eu a retrato para ver se o homem perde a vontade de destruí-la. Sou uma ambientalista, mais do que muita gente por aí. E pinto para a preservação da natureza. Meus quadros dizem: não tire essa água, não arranque essa árvore, não polua esse rio... Como é muito bonito isso!

O ponto alto dos 70 anos de arte já passou ou é o próximo ano, a próxima tela, a próxima exposição?

O ponto do ciclo natureza passou. Agora, me abro para novos ciclos. 70 anos de arte, certamente a próxima tela para a próxima exposição.

Trabalho e inspiração não faltaram em 2020. Do que sentiu e sente saudade naquele “normal que nunca foi tão normal assim”?

Fico praticamente o dia todo no ateliê. Minha atividade continuou, a pintura é a minha paixão e me deixa tranquila. Posso dizer que sou privilegiada porque não fui privada de exercer o ofício que amo. Mas sinto muita saudade das minhas idas ao Belas Artes e ao cinema do Palácio das Artes; amo o cinema. Sou frequentadora assídua de cinema. As idas aos restaurantes aos domingos, quando gosto de conhecer novos lugares. Mas mesmo na dificuldade, na pandemia, deveríamos fazer uma reflexão: o que você realizou nesse momento?

Que paisagem gostaria de pintar?

Voltar à beleza da floresta do vale do Rio Doce aqui e uma nova ida aos jardins de Giverny (os jardins do pintor impressionista francês, Claude Monet, França).

Em qual museu amaria ter uma tela ou exposição?

No museu Afro-Brasil, em São Paulo, pois sou muito ligada à cultura popular, que lá abriga tudo de bom que o país teve, sob a direção espetacular de Emanoel Araújo.