Paulo Navarro | sábado, 27 de junho de 2020

Foto: Felipe Souza

O talentoso Freire

A conversa e a risada do advogado Décio Freire são música, aquele filme que não cansamos de rever. Homem sério, dinâmico e incansável, 24h/24h. Antes do confinamento, só relaxava no “leitão mensal”, poderoso encontro em seu escritório de BH e, quando podia, em casa, com a incontornável Netflix. Descanso durante a Covid-19? Nem pensar, nem se ele quisesse. Décio Freire faz parte do exército que está trabalhando mais e melhor que antes; maravilhado com as ferramentas tecnológicas de um novo normal, de um novo tempo, onde, mais que nunca, os fracos não terão vez.

Décio, antes de falarmos sobre amenidades, falemos de coisas sérias: séries de televisão. Conseguiu colocar filmes e séries em dia, neste confinamento? 

Não parei durante a pandemia, criei um Comitê de Crise, em BH, para dar apoio aos clientes e dirigir nossas 14 unidades, neste momento difícil para as empresas. Mas, como fã de “Billions” e do impagável Bobby Axelrod (Damian Lewis, o personagem principal da série da Netflix), no tempo que me sobra, estou em dia e partindo para a quinta temporada.

Do que sente mais falta? 

Do convescote e os melhores papos de Minas, em torno do famoso leitão, na primeira quarta-feira do mês, em meu escritório (risos). E de ir à missa. Gosto muito de igreja. É um momento de paz.

O que já aprendeu com esta nova e mundial crise? 

O ser humano está mais solidário, menos materialista. Tenho alternado apenas entre meu escritório de BH e minha casa. Tem 100 dias que não saio do trajeto Vila Castela/Raja Gabaglia. Para quem percorria, nos últimos 18 anos, de quatro a cinco capitais por semana, é uma mudança e tanto.

O que reviu pessoal e profissionalmente? 

Aprofundei conhecimentos e investi muito na área de tecnologia e videoconferências. Deixei de viajar fisicamente, mas hoje atendo até mais estados e muito mais executivos pessoalmente, pois faço 15 a 20 vídeos por dia, com todas as capitais do Brasil, dando atendimento pessoal e direto aos clientes DFA (Décio Freire Advogados) e ampliando muito nosso mercado, o que não conseguia antes, por mais que pegasse, em média, oito voos semanais.

Percebemos que você continua ativo, mesmo virtualmente. Está trabalhando mais e melhor que antes? 

Muito mais e muito melhor. Incrível como os clientes e o Judiciário aceitaram bem os vídeos, as lives. Me permitem estar direto com os clientes, em sustentações orais e audiências. Hoje, podemos participar, pessoalmente, por exemplo, de uma reunião em Teresina, no início da manhã, outra em Porto Alegre no meio da manhã, uma audiência em Recife no início da tarde e um julgamento em Brasília, tudo no mesmo dia e com altíssima eficiência. Não tem nada igual. Fantástica a evolução forçada por esses 90 dias de pandemia.

Como avalia as onipresentes lives, principalmente as do Décio Freire Advogados? 

Mais uma extraordinária evolução do “novo normal”. Semana passada, dirigi uma live do meu escritório em BH, com o ministro Eros Grau, em Tiradentes, com o Presidente do TRE, desembargador Rogério Medeiros, na sede do tribunal, e meu criminalista chefe, professor Fábio Tavares, em São Paulo. E tivemos 580 acessos simultâneos de todo o Brasil. Quando se poderia imaginar isso há seis meses?

Como “fazer diferente” quando todo mundo está vivendo de lives? 

Criamos o DFA Conceito, uma nova filosofia de estar mais próximo ao cliente, em qualquer município brasileiro, através de nossos advogados mais experientes, utilizando de vídeos permanentes. Nós nunca trabalhamos tanto, porque o Judiciário nunca produziu tanto e com tanta agilidade. Temos mantido um grupo de estudos permanente para assessorar as empresas, principalmente as pequenas e médias, em relação às centenas de normas e leis que foram editadas no período da Covid-19. Nunca foi tão importante para as empresas terem apoio jurídico e estratégico permanente e “on time”. Conseguimos, hoje, colocar especialistas nossos em 21 matérias do direito em uma mesma mesa virtual para um atendimento multidisciplinar que dá ao cliente uma orientação integral e agilíssima para tomar suas decisões. Isto num momento de crise sem precedentes tem sido um diferencial para os clientes DFA.

Arrisca definir o tal do “novo normal” que virá? 

Família mais valorizada. Qualidade de vida baseada em coisas mais simples. Uma certa aversão social a aglomerações, mas com mais intimidade entre os mais próximos. Acho que estamos tendo o privilégio de assistir a uma mudança na humanidade, coisa que poucas gerações na história tiveram. Na advocacia haverá talvez a maior concentração desde que a profissão existe, pois o atendimento remoto e os julgamentos virtuais permitem estarmos em todos os locais, sem necessidade de estarmos fisicamente. Os mais capacitados e estruturados terão mais oportunidade de mostrar seus talentos.

Como na música, “Nada será como antes”? 

Nada, mas para muito melhor. A humanidade estava indo por um caminho fútil e superficial.

Como caminha o Judiciário nestes tempos restritos? 

Eu diria que o Judiciário não está nada restrito. Tem produzido como nunca, julgado com uma agilidade elogiável e permitido audiências e julgamentos remotos de altíssimo nível. O momento é o melhor possível. Não deve retornar ao que era. Não faz mais sentido. Se o Judiciário conseguir assegurar os despachos virtuais dos advogados diretamente com magistrados e não com assessores não há motivo algum para retorno ao “status quo”. Esta deveria ser uma bandeira da OAB inclusive.

E a relação com os clientes? 

A melhor possível. Estamos conduzindo os clientes pela mão. O empresário no Brasil é um herói. Como dizia o inigualável Churchill: “Muitos olham para o empresário como o lobo a ser caçado, outros como a vaca a ser ordenhada. Poucos enxergam que ele é o cavalo que puxa a carroça”. Nós procuramos ajudar a tornar a carroça mais leve.

Qual a primeira coisa que fará, quanto tudo terminar?

Terminar bem, esperamos. Ir a Portugal e simplesmente andar por Lisboa. Amo aquela terra.