Paulo Navarro | sábado, 27 de julho de 2019

Foto: Leo Lara

Tupy e to be

Ela é sinônimo de arte, pintura, cores. Uma das mais importantes e festejadas artistas brasileiras, Yara Tupynambá, 87, acaba de expor trabalhos de suas diversas fases, na exposição “Yara Tupynambá – Uma vida na arte – Obras de 1957 a 2019”, inaugurando novo endereço da Errol Flynn Galeria de Arte, Lourdes. Pena esta entrevista ter sido adiada, mesmo assim, o público conferiu belas artes.

Yara, é só coincidência este nome tão brasileiro, tão indígena e seu trabalho, tão colorido de Brasil?

“Tupynambá” vem da família de minha mãe, Montes Claros, há mais de 100 anos. Creio que meus pais acrescentaram “Yara” para combinar. Contudo, tenho, na origem, uma trisavó da tribo Tupynambá.

Aproveitando o nome da sua recente exposição, “Uma Vida na Arte”, como se deu a arte na sua vida?

Desde menina, desenhava muito. Ao chegar aos 18 anos, em Belo Horizonte, comecei pintura no colégio Sacré-Coeur de Marie e tive aulas com Guignard. Assim, a arte foi, desde menina.

As 106 obras expostas também expõem com fidelidade os 60 anos de vida artística?

Creio. Há os diversos temas que abordei, mas tendo sempre Minas como centralidade.

Você gosta de definir a arte? Tem uma definição?

Ao abranger todas suas manifestações, Arte é sensibilidade, conhecimento do mundo, muito trabalho. Ela apresenta o pensamento do artista sobre a vida.

Como vê o mercado de arte no Século 21, em especial o papel da pintura, em meio a tantas performances e instalações fajutas?

Muito difícil definir caminhos e estilos. Acredito que a performance pertence ao teatro, por pedir espaço, movimentos, falas e gestos; as instalações estão estritamente ligadas à decoração e à arquitetura pelo espaço. Mas deixo para eles a função de “descascar o abacaxi”. A pintura permanecerá, se for boa, expressiva e significativa.

Quem foi seu grande mestre e quem desponta na arte em Minas e no Brasil?

Guignard e Goeldi. No Brasil, há bons artistas, como Adriana Varejão e Luiz Zerbini. Em Belo Horizonte, muitos jovens estão lutando, com qualidade, para serem artistas, mas ainda não tiveram a maturação, que só chega com o tempo.

Se pudesse ilustrar uma nota de R$ 100, quem colocaria nela?

Com certeza, Portinari. Com a força poderosa da figura de um mulato, apresentando-nos uma enxada, diante de um cafezal. É a força do trabalhador brasileiro.

O Brasil já foi mais artístico e artista?

Creio que sim. Havia um tempo e uma calma para a busca e a reflexão. Só entrava na estrada quem tinha capacidade de caminhar. Hoje, muitos viajantes frágeis e sem pernas tentam percorrer, inutilmente, a estrada. Mas não fiquemos aflitos, pois o tempo selecionará tudo.

Planos para 2019 ou 2020?

Dificilmente, neste momento, pensarei em futuro. Continuarei o que fiz recentemente? Percorrerei mais atenta caminhos já traçados? Buscarei outros horizontes? Não sei. Só o tempo me encaminhará para o lado certo.