Paulo Navarro | sábado, 26 de setembro de 2020

Foto: Elena Fragoso

Perfume de van Gogh

Ana Paula Dacota é uma jovem velha amiga. Jovem amiga, nova escritora, nos férteis, duros, gentis e minados campos da poesia. Se Marilyn Monroe tinha apenas duas gotinhas de Chanel Nº5, como camisola, Ana Paula tem lugares estratégicos para seu perfume, lembrando que a vida é bela. Latifúndios estratégicos, visto que é uma mulher alta em todos os sentidos. Inclusive latifúndios na poesia, invadida pelo perfume que escorre das orelhas, dos olhos e dos dedos, impregnando, com elegância, as palavras de amor, solidão, decepções, perdas, prazeres, encontros e desencontros.

Ana, que perfume você usa?

Perfume, só à noite, quando saio. Algumas gotas do La Vie Est Belle, da Lancôme, em locais estratégicos. Evito passar perfume de dia. Pessoas que se perfumam demais viram aromatizantes ambulantes. Acho perfume em excesso deselegante.

O novo livro, “Perfume Atrás da Orelha”, é só um título ou também um dos poemas do novo livro?

“Perfume atrás da orelha” intitula um dos poemas que batizou o livro por sugestão do editor, Wagner Moreira. Está presente também no verso de “faço isso enquanto espero”, outro poema dessa mesma edição, que apresenta esses diálogos, estribilhos.

Qual a arte de ser invisível? 

É eclipsar-se para o outro brilhar. É amar alguém em silêncio sem que ninguém saiba. É estar em um lugar lotado e não ser notado. É ser famoso e se misturar ao povo, como fez Ivete Sangalo, se vestindo de palhaço no Carnaval, se divertindo, anônima, entre pessoas comuns. É vestir um “dominó” de trabalhador, “pregar uma máscara à cara”, parafraseando Pessoa, ignorar seu talento, fazer algo que detesta. É estar à margem da sociedade e fazer disso matéria para a arte. O título inicial do original era “A arte de se tornar invisível”, porém “ser invisível” faz referência a várias outras obras, então o editor sugeriu a mudança, e eu acatei imediatamente.

Por que tantos anos escrevendo e reescrevendo, parindo este livro?

Antes do livro, tive que parir minha persona como escritora. Sempre escrevi, desde adolescente, mas sem pretensões de publicar. Escrever era um hobby. Quando me assumi, organizei o original e submeti à Scriptum (livraria e editora). Ele foi aceito em 2016, mas só consegui acertar a coparticipação com Betinho (o editor Welbert Belfort), em 2019. O livro nasce quando tem que nascer, ainda bem que o meu nasceu antes do estouro da pandemia. Contei com a parceria de profissionais excelentes, além do editor, já citado. A revisora Stephania Amaral, o designer e diagramador Mário Vinicius, as ilustrações do artista André Araújo, a poeta Simone de Andrade Neves e Celina Lage, artista, curadora e professora da Uemg, me honraram com os paratextos. O processo demorou, mas valeu a pena. Foi o tempo de amadurecer, de reunir essas pessoas, ter condições de investir e o resultado foi incrível.

Qual o tema? Perdas, danos, amores?

Sim, amor, solidão, decepções, perdas estão presentes assim como o cotidiano, o prazer, a sensualidade, encontros e desencontros. A tônica do livro foi escrever no calor do momento e deixar os poemas dormindo, reescrevendo-os tempos depois, lapidando-os com distanciamento e frieza.

As artes plásticas também são poesia no teu livro?

Sim, o André Araújo reconfigurou várias de suas pinturas, originalmente em cores berrantes, para preto e branco. A forma como ele capta as sutilezas do universo feminino, o traço marcante com influência punk, as caveiras, a morte, tem tudo a ver com os poemas. As ilustrações são muito poéticas, inclusive o design do Mário, que criou uma capa genial com a pintura do André, transformando a edição em um livro-objeto, cria uma poesia visual surpreendente, então as várias linguagens artísticas se complementam e se harmonizam no livro.

Cite dois poemas favoritos, um famoso e um novo...

Um famoso: “One Art”, de Elizabeth Bishop. Escritora controversa, não foi tão feliz em suas convicções políticas, mesmo assim admiro a sua escrita. Um da geração nova é o poema “Latente”, de Simone de Andrade Neves, que me inspira muito.

Você trabalhou muito durante o confinamento, a quarentena, a pandemia. Esses tempos te inspiraram ou a poesia serviu para fugir deles?

Escrever foi terapêutico e foi um ponto de fuga que canalizou minhas angústias. Produzi um livro que reflete sobre questões ligadas ao distanciamento social, à pandemia, o cotidiano, autodescoberta, relacionamentos, a escrita e a leitura, em um exercício metalinguístico. Foi aceito pela Impressões de Minas, o projeto já está em andamento.

Para você, sol rima, vem de solidão ou vice-versa?

Sou de solidão não. Cada um sabe de si. Quando o sol sair me encontre lá.

Livro de papel ainda tem espaço, vai sobreviver?

O livro de papel é um fetiche. Você lê melhor, toca, cheira, folheia, rabisca. Ele pode carregar uma dedicatória e a assinatura do punho do autor. Lançar um livro é um acontecimento social, é a arte do encontro: da leitura, do autor, do objeto, das pessoas, das livrarias, das feiras literárias, tudo isso é muito prazeroso. Enquanto existirem desejos, o livro de papel vai sobreviver sim.

Para nossos leitores (do jornal O TEMPO), o que a poeta Ana Paula rimaria com tempo?

Estampar como poeta no O Tempo

é um acontecimento

poesia não é só passatempo;

é alimento para o pensamento

Uma palavra em português e uma em inglês, já que você também é professora das duas línguas.

Em inglês, “friendship”, mistura de amigo (friend) e barco ou navio (ship). Amigos no mesmo barco. Crie as analogias que quiser! Em português, a palavra “reviver”, um palíndromo maravilhoso!