Paulo Navarro | sábado, 25 de julho de 2020

Foto: Pedro Nicoli

 

Penna de Chumbo

No boxe, o Peso Pena é a categoria para boxeadores mais fracos. A Peso Pesado é a dos atletas de “chumbo”, os Mohamed Ali, Mike Tyson. Nosso Penna, o arquiteto Gustavo Penna luta nas duas categorias, tijolos e feltro. Seu trabalho tem a leveza de uma pluma, a força de vulcão expelindo rochas. Lava, lama de fogo que, em vez de destruir, levanta a ideia da arquitetura mais convencional até a de um memorial. E o Gustavo de fala mansa e sorriso farto, da inteligência mais rápida do Oeste, da gentileza urbana e humana, tem muito da poesia de Tom Jobim. Não à toa, autor de mais uma linda música, justamente intitulada, “Arquitetura de Morar”. A Arquitetura como Tom vivia e amava, entre os pássaros, as árvores e as águas, principalmente as de março. Arquitetura que é um passo, é uma ponte, é um sapo, é uma rã. É um belo horizonte.

Gustavo, primeiro, como vai você neste ano par que é o mais ímpar da nossa recente história?

Na primeira fase da pandemia, naturalmente, olhamos mais para o nosso corpo, obrigado a ficar preso, parado. Penso que o espírito exige muito mais atenção. Por obra dele, somos maiores. Fico tentando escapar deste presente rotineiro, muitas vezes medíocre e estagnado. Como arquiteto, tenho a mania de viver o futuro. Um estado provocado pela profissão, que me 

exige adiantar o olhar para projetar hoje e só ver concluído no futuro. O momento e o meu trabalho exigem a busca da construção de harmonia. 

Você, que é um homem de visão e de espaço, consegue ver um horizonte belo, quando tudo terminar e recomeçar?

Eu tenho a certeza que o novo sempre vem, mesmo que a gente não queira. Observo pessoas apegadas ao presente, que se preocupam com os fatos do momento e do dia-a-dia e penso ser, por vezes, uma perda de oportunidade e um terreno fértil para a tristeza tomar conta. Imaginar que tudo passa e que a criação do futuro depende da nossa inventividade, da nossa energia e o nosso entusiasmo, é muito importante.  A imaginação nos permite visitar espaços e realidades mais generosos, com mais conteúdo humano. A história da humanidade está cheia de temas para reflexão, não é?

Como arquiteto, como anda enxergando e vendo a cidade, o Brasil e o mundo num cenário de ficção científica, tudo vazio e desolado?

Vimos que a cidade vazia é também bela. Os pássaros brincam no céu, as árvores se sentem mais seguras e com mais vigor, sem tanta poluição ao redor, o ar está mais leve e puro. Este momento nos possibilita enxergar quantos espaços desnecessários foram criados para os carros e que deveriam ter sido pensados para a gente caminhar, contemplar e encontrar. Este momento nos ensina a interpretar, mais uma vez, os espaços urbanos de uma forma diferente.

Você tem a consciência de assinar boa parte da paisagem urbana de Belo Horizonte?

Minha contribuição para Belo Horizonte é pontual, com temas muito bem definidos. Uma escola de arte, um parque sem especificidade para menino correr, um edifício sustentável que cria uma praça para a cidade, um diálogo estabelecido com edifícios de outros tempos. Fico feliz que sejam reconhecidos e sirvam de ferramenta de convívio. A grande maioria das edificações em Belo Horizonte são espontâneas, as habitações populares ou aquelas do mercado imobiliário. São esses dois agentes que constroem a nossa cidade. Mas devemos reconhecer que edifícios e lugares gentis é que são capazes de construir o amor que temos por nossa cidade, a nossa cidadania. Eu gostaria que houvesse sempre mais planejamento e que vários arquitetos fossem convocados a participar de um esforço conjunto na construção de uma cidade mais eficiente, gentil, alegre, harmônica e bela. Trocar boniteza por beleza. O bonito o tempo consome, o belo fica, é perene. 

O que já mudou e vai mudar na arquitetura depois deste período nefasto?

Já passamos por tantos acontecimentos ao longo da nossa história. O mundo não foi feito somente de grandes momentos, de glória e crescimento. Já vivemos situações terríveis, como a Gripe Espanhola, as (duas) guerras mundiais e outras tragédias que transformaram a vida das pessoas.  Acredito que as mudanças virão, mas não radicalmente. A gente gosta de estar junto, abraçar, festejar. Penso que a pandemia, na verdade, vai acelerar os processos mais latentes, tornando as necessidades inadiáveis. Aqueles movimentos que vinham acontecendo lentamente, como a diminuição da poluição, o aumento da área verde nas cidades, o cuidado e olhar mais atento às necessidades da periferia, a diminuição da distância moradia-trabalho, a criação de condições de relacionamento mais humano do homem com a cidade. Isto vai se intensificar e nós vamos ter que achar uma resposta para cada um deles. Antes mesmo da descoberta da vacina, nós somos desafiados a ir inventando os novos caminhos para as cidades. 

Deu para tirar alguma lição, algo positivo desta época cheia de dúvidas e incertezas?

A coisa mais importante do momento é enxergar a nossa pequenez. Afinal, que energia imensa é essa que mandou todo o ser humano, em todo planeta, parar? O homem vive na presunção de crer que a ciência que ele inventou é capaz de controlar tudo. Aí, de repente, uma força maior nos obriga a parar. No começo de 2020, tempo de imaginar, disse a um grande amigo que este prometia ser o ano dos pássaros. Uma brincadeira com a sonoridade dos nomes quero-quero, tico-tico, bem-te-vi, e achei que vinte-vinte era coisa de passarinho. E, veja você, a natureza continuou, talvez ainda mais exuberante sem a ação do homem, mas a nossa raça, humana, esta teve que parar. E este ano, o dos passarinhos, nos fez reconhecer o nosso real tamanho, e nos provocou a olhar para dentro, para o grande universo que se inaugura a partir do nosso inconsciente, criatividade e transcendência. A arte ficou ainda mais presente, já que sem ela nossos dias são monótonos, sem cor e sem vida. Estamos mais propensos a escutar, a entender como se dá o fazer artístico, e como a música, a literatura, a dança são capazes de nos apresentar outra dimensão. Eu, particularmente, fiquei ainda mais atento aos canais de arte, vi documentários sobre a alma dos artistas e entendi o quanto essa conexão com o nosso chão, o nosso fazer manual e caseiro, a nossa expressão corporal, nos fazem transcender.

Fale um pouco, de outra recente tragédia, da qual você está bem próximo, assinando o Memorial de Brumadinho.

Somos de Minas Gerais, portanto essa vocação minerária já inscrita no nosso nome, não é uma surpresa. Sempre soubemos que as minas são gerais, e que nós, que nascemos aqui, somos mineiros. Mineiro é o único designativo de origem no Brasil que se refere a um trabalhador. É aquele que trabalha nas minas. Então, o que me estarrece não é o fato de Minas Gerais ter mineiros, mas sim de não termos aprendido a fazer isso até hoje. Erros brutais ocorreram e causaram uma tragédia humana de proporções inimagináveis. Em Brumadinho, 272 pessoas se foram, com datas de nascimento diferentes e a data de morte igual. Uma ruptura tão severa que coloca toda aquela gente numa sensação de suspensão. Suspensão, pois tiveram suas vidas roubadas no meio de um almoço, de uma conversa, de um trabalho ou um descanso. A vida dessas pessoas foi suprimida. Nada avisou que aquela tragédia ocorreria, e todos estavam completamente despreparados para algo tão radical.  As famílias hoje não conseguem parar de sofrer ou ter um pouco de paz. O Memorial é tão importante, pois permite transformar a dor num espaço de memória, numa dimensão da saudade. Por isso, é fundamental que memoriais existam. A memória em Brumadinho ficará viva em três dimensões e, como alerta, nos exige que tragédias como esta jamais voltem a ocorrer.

Guardadas as proporções, qual a importância de memoriais como os de Hiroshima, World Trade Center e Brumadinho?

Não se pode medir a dimensão de um memorial. Sentimento não é mensurável. Quando entramos em um memorial construído com a matéria da dor, do sofrimento, da perda, da supressão da relação humana, entramos em um espaço muito grave, muito solene. Para que o homem se sinta maior - e não coisa, número, matéria -, ele cria esses espaços de solenidade imperecíveis.

Um memorial, como diz o nome, é memória. Como você tratou esta tragédia com arte, visando o futuro?

O nosso memorial é despojado, está ligado ao chão. É um corte, uma fenda. A fenda que se abriu na barragem. O projeto a reproduz, construída da matéria lama retirada do fundo do Córrego do Feijão. É com ela que os espaços serão feitos. Materiais simples, diretos. Essa matéria tem a legitimidade para estar presente, pois de alguma forma ela foi envolvida pelo erro, pelo equívoco, ou pela negligência.  

Como seria um memorial mundial de 2020?

Se eu pudesse sonhar um memorial para 2020, penso que não deveria ser vertical, mas um grande espaço de reunião. Um imenso côncavo vazio, com um ponto central que lança uma luz e um olhar para o infinito. Não mais que isso. Uma forma aberta que acolhesse gente com pergunta e sonho. O memorial deveria convidar as pessoas a ter os pés no chão, os olhos no horizonte e cabeça nas estrelas. O espírito precisa de mais espaço que o corpo. Para o corpo basta uma caixa. É ele que, afinal, pode adoecer, não é? O espírito pede grandes dimensões, pede o céu, pede tudo, é capaz de transportar pensamento. Então, tudo que fazemos para manter a memória, fazemos para o nosso espírito humano, para essa capacidade nossa de amar vida.