Paulo Navarro | sábado, 25 de agosto de 2018

Foto: Xará Moysés


Encontros Marcados

A suave entrevista foi editada, modéstia à parte, ao som de Miles Davis, em “A Day in Paris”. Tudo a ver! Quem duvidar ou concordar não pode perder a exposição de José Alberto Nemer, “Nemer | Aquarelas recentes – Geometria Residual”, no Minas Tênis Clube, até 2 de setembro. No País da Delicadeza Perdida, Nemer conseguiu aprisioná-la em pequenos e grandes formatos. Um “Agosto in Paris”.


Nemer, concorda com Vinicius de Moraes em “a vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida”?

Completamente. Devemos entender “encontro” não só aquele de um par amoroso, mas o das sincronicidades da vida. Há certos achados do destino que são encontros, mas que só percebemos quando atentos.

Qual o mais recente encontro? A exposição no Minas Tênis Clube?

Encontro mesmo foi durante o processo, no ateliê. A exposição é uma extensão, a comunicação dele. Isso não impede que outros encontros aconteçam. E acontecem.

O que é Geometria Residual?

Há algum tempo, meu trabalho é um diálogo entre a geometria e o gestual, entre o construído e o aleatório; razão e emoção. Aprofundei nessa dialética, buscando a geometria onde quer que ela esteja e em seus vários estágios. Nas aquarelas, mas também nas fotos, vê-se uma desconstrução da geometria. Ou o que resta dela.

O que os visitantes admiram nela?

Tenho tido um excelente e comovente retorno. Por mais que os depoimentos variem, há pontos em comum, como o silêncio, a harmonia, a calma, o rigor. Mas parecem apenas adjetivos, comparados à emoção genuína que expressam.

Que frutos a exposição rendeu?

A cada dia rende um pouco, principalmente no que diz respeito à emoção e alegria que as pessoas – além de mim, claro - sentem.

Para 2018 está bom ou tem mais? 2019, por exemplo, se o Brasil continuar...

Boa pergunta. Somos sobreviventes desse furacão. Devemos festejar cada dia e tentar surfar no que está por vir. Nesse panorama, coloco meus planos para este e os próximos anos.

Nem só de Lava Jato, sobrevive Curitiba, não é? A exposição vai para lá?

O curador da exposição, Agnaldo Farias, é também do Museu Oscar Niemeyer. A mostra abre em outubro e vai até março de 2019. Depois, talvez, São Paulo.

E para onde gostaria de ir o artista e o pintor Nemer? A boa, vetusta e linda Paris de sempre?

Tenho sorte de poder sair do país com frequência. Às vezes, em compromissos, como, recentemente, num seminário em Lisboa. De todo modo, com ou sem pretexto, gosto de viajar, e prefiro voltar a lugares onde já estive e curti-lo com uma familiaridade. De fato, Paris é um deles.

Como seria a “Aquarela do Brasil” neste ano em que vivemos em perigo?

Quanto à “Aquarela desse Brasil”, deixo para outros a tarefa de pintá-la. Como diz Ítalo Calvino em “Cidades Invisíveis”, devemos “saber reconhecer quem e o que, no meio do inferno, não é inferno, e preservá-lo, e abrir espaço.” É o que tento fazer com minha arte.