Paulo Navarro | sábado, 24 de outubro de 2020

Sangue Bom

Para quem nem pensou em fazer medicina ou enfermagem porque “não pode ver sangue”, nem em filme de horror ou de vampiro, solte o cinto porque hoje falaremos de sangue, muito sangue, a “gasolina” do corpo humano, o combustível da vida. O precioso e viscoso líquido escarlate que é puro, mas, por inúmeros motivos, pode ser “batizado” ou envenenado, fazendo o “motor” engasgar, parar. Um rio de saúde, cristalino ou poluído. Com vocês, Dr. Guilherme Muzzi, o protetor desta fonte vital, coordenador do serviço de hematologia e da unidade de transplante de medula óssea do Hospital Felício Rocho.

Guilherme, o que trata a hematologia?

O hematologista é o médico que cuida das doenças “benignas” e malignas do sangue; como a leucemia, o linfoma e o mieloma múltiplo. Também realiza transplantes de medula óssea.

Quais os números, em Minas e no Brasil?

No Brasil, até o final de 2020, 146.750 novos casos. Minas é o segundo estado; e Belo Horizonte, a terceira capital com o maior número de pacientes. Os cânceres do sangue estão entre os dez mais comuns no Brasil, como o linfoma não Hodgkin, o linfoma de Hodgkin e a leucemia. Muitos estudiosos apontam que o mieloma múltiplo atinge quatro a cada 100.000 brasileiros, o que representa aproximadamente 7.600 novos casos por ano.

Existem doenças sanguíneas benignas?

As doenças “benignas”, apesar do nome, muitas vezes têm um comportamento agressivo. São representadas pela anemia, baixa de leucócitos e/ou plaquetas, tromboses etc.

Aqui também, o diagnóstico precoce é o melhor remédio?

Sim. Inclui ter uma vida saudável, como exercícios físicos, boa alimentação, não fumar, beber com moderação, evitar expor-se ao sol exageradamente e relações sexuais protegidas. Mas, nos casos de doença confirmada, o tratamento deve ser iniciado o mais breve possível.

Alguma causa específica ou é uma “roleta russa”?

Diversas causas externas e internas ao nosso organismo. Dentre as externas, a poluição, o tabagismo, o excesso de bebida alcoólica, a exposição exagerada ao sol, a obesidade, atividades ocupacionais de risco sem equipamentos de proteção individual, como pintores e frentistas, etc. As principais causas internas são a baixa da imunidade, por não eliminar as células mais velhas e defeituosas, a herança genética e o envelhecimento natural, já que nos torna mais vulneráveis.

Solidão, depressão, estresse e associações podem levar à doença?

A depressão, o estresse e a solidão podem comprometer nossa imunidade.

Que sintomas devem levar a pessoa ao médico?

Febre recorrente, crescimento de “ínguas”, do baço e do fígado, perda de peso progressiva, fraqueza persistente por semanas, falta de apetite sem causa, sudorese noturna intensa, dor de coluna refratária a analgésicos, anemia, baixa de leucócitos e plaquetas.

Quais os números positivos, a porcentagem de cura?

No linfoma de Hodgkin, 10% dos casos; e linfoma não-Hodgkin, 90%. O linfoma de Hodgkin, quando diagnosticado precocemente, tem chance de cura de 90%. O não-Hodgkin pode ser subdividido em indolente e agressivo. A forma indolente não tem cura, mas é controlável. No caso do linfoma não-Hodgkin agressivo, quando diagnosticado, deve ser tratado imediatamente. Com o tratamento precoce, a chance de cura pode chegar em mais de 80%. A leucemia tem cura, e o tratamento, basicamente, é a quimioterapia. Em alguns, também, o transplante de medula óssea. O mieloma múltiplo não tem cura, mas é controlável com a terapia atual, quimioterapia, seguido de transplante de medula óssea.

O paciente de câncer precisa ter mais cuidado nesta pandemia?

Ficar em casa e evitar aglomerações. O paciente em tratamento tem sua imunidade baixa, corre mais riscos de ter a Covid-19 de forma mais grave. Qualquer sintoma de gripe e falta de ar precisa de pronto atendimento.

A pandemia interrompeu tratamentos?

Alguns tratamentos quimioterápicos ficaram atrasados. Já os que não puderam ser interrompidos deixaram os pacientes mais susceptíveis à infecções graves pelo coronavírus. Este fato pode ter contribuído para o aumento da mortalidade. Outro ponto negativo: as doações de sangue e de medula óssea reduziram drasticamente, comprometendo o tratamento de alguns cânceres.

O avanço da medicina salva, mas a “modernidade” continua aumentando o número de mortes?

De certa forma, sim. As indústrias estão crescendo em número, e, como consequência, há um aumento no uso de agrotóxicos, utilização de conservantes, poluição ambiental, ampla mão de obra sem condições salutares adequadas etc. Outro ponto é o aumento do estresse. A modernidade é bem-vinda e necessária, mas a população vem pagando caro com a sua evolução desenfreada e a qualquer custo.