Paulo Navarro | sábado, 24 de julho de 2021

Entrevista com Leônidas Oliveira, Secretário de Estado de Cultura e Turismo de Minas Gerais. Foto: Paulo Lacerda

O Hércules Leônidas

Leônidas significa "Filho de Leão". O mais famoso foi o rei e general da lendária Esparta, na Grécia. Morreu em 480 a.C., na batalha de Termópilas, que virou o filme “300”. No Brasil, temos o jogador de futebol, Leônidas da Silva (1913-2004), o “Diamante Negro”, inventor do “gol de bicicleta”. Que os Deuses inspirem o Secretário de Estado de Cultura e Turismo, Leônidas Oliveira! Que ele herde a força do nome, combatendo com coragem e disciplina espartanas as batalhas da Cultura e marcando gols de placa no Turismo. As armas e o talento ele tem, como poderão ler a seguir.

Leônidas, breve balanço da dupla gestão na Cultura e no Turismo durante a pandemia.

Profissionais da Cultura e do Turismo ficaram sem trabalho da noite para o dia e faltava o básico: alimento. Assim nasceu o Projeto Arte Salva: campanhas de doação, editais, rede de informações sobre acesso a políticas públicas, linhas de crédito e capacitação. Com a Lei Aldir Blanc, contemplamos 8,5 mil beneficiários com cerca de R$135 milhões para auxílio emergencial e 27 editais. No Turismo, o Minas para Minas e o Programa Reviva Turismo.

Ainda consegue curtir as letras do Aldir Blanc?

E com mais vigor. Foi um desafio, um aprendizado para o Sistema Estadual de Cultura e os proponentes de projetos. 100% de execução, beneficiando 7.157 projetos. Agora, os resultados práticos da LAB: o Festival Cultura da Paz, com os trabalhos contemplados.

Você é o primeiro secretário acessível até mesmo no WhatsApp, mesmo assim, recebe críticas. Como encara?

Sou o primeiro secretário que não é da região central e sim da periferia do estado. Isso ajuda, vivi a ausência das políticas culturais, sobretudo no interior. O diálogo é o único caminho de crescimento e no combate às injustiças e calúnias. Dialética é a maior das funções do meu ofício.

Sem ironia, já conseguiu se explicar aos indignados “povos do Teatro”?

Recebi uma carta de repúdio baseada em frase fora de contexto. É a politização da Cultura. Disse eu que o Teatro não precisa de editais porém, no contexto de que é preciso equidade, ainda mais visto que 95% dos recursos dos editais ficam em Belo Horizonte e as culturas populares, tradicionais, com menos de 1%. Todos precisam de editais, eu poderia ter exemplificado com qualquer um.

É preciso ser PhD em Jó e ter doutorado em Budismo para comandar a Cultura?

Há três princípios do budismo que uso cada vez mais: paciência, silêncio e escuta. Porém, do meu tempo de seminário, o método que mais uso: ver, julgar e agir; sendo justo, aberto e verdadeiro. Isso vale para tudo na vida e é senha para a paz de consciência. Conheço a grandeza transformadora da Cultura e seus trabalhadores.

Passemos ao Turismo. Como arquiteto, não acha que Cidades Históricas, Pampulha, hospitalidade e comida mineira são insuficientes para atrair “turista$”?

Cidades históricas são todos os 853 municípios. História somos todos nós. Isso expande o conceito e a forma de ver o Turismo. Por isso as cidades barrocas e coloniais investem no turismo de aventura, paisagem, ecoturismo e rural. Minas é imenso, descentralizar as experiências turísticas, sobretudo via circuitos turísticos, é a grande meta.

Por que BH, que não tem praia, tem pouca história; não cria festivais, salões de arte para ampliar o acervo dos museus, monumentos e esculturas?

BH tem muita história! Ela pode não ser conhecida ou valorizada, pois, como dizia Drummond, se alvoroça pelo novo esquecendo seu passado. BH possui o maior circuito integrado de cultura do país, com mais de 40 equipamentos, o Circuito Liberdade; o Conjunto da Pampulha, Patrimônio Cultural da Humanidade e, pela Unesco, é Cidade Criativa da Gastronomia. O que falta é marketing turístico; estrutura e promoção, reposicionando seus eventos, serviços e seu entorno, imensa rede de trilhas, natureza e aventura.

Você morou na Itália e Espanha. Não acha que, como praticam lá, deveríamos investir no Centro de BH?

O caso das cidades milenares desses dois países não tem similaridades com BH. Edifícios comerciais precisam ser moradias. Ruas e praças precisam atrair comércio e visitantes. A capital não precisa competir com destinos “históricos”, precisa ser ela mesma.

“Minas é uma das 10 regiões mais acolhedoras do mundo” para a Traveller Review Awards”. Mas, o que atrairia turistas a Belo Horizonte?

O Conjunto Moderno da Pampulha, patrimônio mundial, é nosso maior ativo de competição no mercado internacional. Ser patrimônio do mundo é isso. O Circuito Liberdade, a cozinha e o entorno são enormes diferenciais. Que cidades do mundo possuem, em viagens de curta duração, atrativos tão diversos? Poucas.

O que atrai o cidadão Leônidas?

Gente. A verdadeira vida, viagens, um concerto se dão pela conexão com as pessoas e o amor que deve mover o mundo.

O que podemos esperar já, na Cultura e no Turismo em Minas?

Emprego e renda. Temos várias ações, como o Reviva Turismo, 100 mil empregos até 2022, posicionando Minas entre os três principais destinos do Brasil. Aguardamos a aprovação na ALMG de R$75 milhões para promoção de Minas, oriundos de recurso de reparação da Vale e R$125 milhões para recuperação do Patrimônio Histórico. Na Cultura, os novos editais do FEC. R$16 milhões para projetos; capacitação e estruturação de sistemas do estado. Outros R$116 milhões estão abertos para captação via ICMS Cultural. No Descentra Minas, mudanças na Lei Estadual de Incentivo à Cultura, para que os recursos cheguem ao interior. Proteger como Patrimônio a Cozinha Mineira, o Congado, as Folias de Reis, isso é nossa meta até abril de 2022.