Paulo Navarro | sábado, 2 de março de 2019

Foto: Davilym Dourado

Bravíssima e dulcíssima

Não à toa que a jornalista Luiza Fecarotta é a musa da passarela do festival gastronômico Fartura, essa “Entradas e Bandeiras” da culinária brasileira. Seu sobrenome já é um ingrediente. Não à toa que sua musa, na cozinha italiana, seja Marcella Hazan (1924-2013), afirmando e rezando: “Todos os caminhos conduzem ao lar, à ‘cucina di casa’, a única que merece ser chamada de cozinha italiana”.

Mas qual tua comida favorita mundo afora?

A boa e justa. Tenho encantamento pela portuguesa. O (festival) Fartura Lisboa tem essa missão; estreitar os laços com a nossas origens.

No curso de Jornalismo, já nasceu a crítica gastronômica da “Folha de São Paulo”?

Ainda estudante, tive o privilégio de estagiar com Josimar Melo, uma referência da área na “Folha”. Com ele aprendi que um crítico nasce comendo de tudo e se desenvolve com muito trabalho, estudo, afinco e paixão.

Estudou? Sabe cozinhar?

Faço cursos avulsos. A base teórica me ajuda a entender e a apreciar com seriedade a gastronomia para além do prazer.

E a gastronomia dos nossos vizinhos?

O Peru é uma grande referência. Não só pela riqueza dos ingredientes e pela presença de chefs, como pela tradição que carrega e pelas iniciativas públicas de incentivo à gastronomia.

E as panelas no rádio?

Foi o meu amor ao rádio, ofício de meus avós, que me levou ao jornalismo. E o jornalismo que me levou à comida. É um desafio. No rádio somos privados do sensorial. É estimulante tentar buscar pelas palavras e pelo tom de voz uma experiência gastronômica.

Fale-nos sobre a curadoria gastronômica da Plataforma Fartura – Comidas do Brasil...

A comida é o eixo da civilização, um modo de se relacionar, uma força na natureza. É um privilégio curar uma plataforma como o Fartura. Me dá a oportunidade de estudar as técnicas tradicionais de cozinha; provar os sabores riquíssimos de um país gigante; conhecer chefs, cozinheiros, produtores, mercados, feiras. Uma grande comunhão.

Sobre as Expedições Fartura, quais as situações mais surpreendentes?

Viajar pelo Brasil me permite conhecer o país em estado bruto, provando toda sorte de ingredientes e preparos. Mas não se trata apenas do que se come, em si, mas da observação de como o homem se relaciona com a natureza. É poesia atrás de poesia, ainda que haja uma vida dura embutida nas histórias reais. Um senhor que conversa com as mandiocas na roça, uma senhora queijeira que dorme de janela aberta para sentir o perfume das flores...

Para 2019, quais as novidades da curadoria da Plataforma?

No mercado de trabalho, as mulheres estavam excluídas até recentemente. Hoje, faz parte de plataformas como a nossa colaborar para que lidem com o peso e calor dos homens. Neste ano, também reforçaremos a sustentabilidade de ingredientes ordinários, como aproveitá-los ao máximo, como gerar menos lixo e desperdício. Faz com que o Fartura ilumine o caminho do campo ao descarte e não somente à mesa.