Paulo Navarro | sábado, 1º de agosto de 2020

Engenho & Arte

Conhecemos o entrevistado de hoje, George Borten, há inexatos 20 anos, nas mesas da saudosa Livraria da Travessa, na não menos saudosa Savassi, do começo do século 21. Nas mesas da Quixote Livraria também, ali, nos arrabaldes da Praça da Savassi (Diogo Vasconcelos). A conversa era sempre rica, saborosa e agradável, mas nunca especulativa. Nem sabíamos que George era engenheiro, onde trabalhava ou morava. Muito menos que ele escrevia. E escreve muito bem. Acaba de lançar seu primeiro livro. Esperamos que seja o primeiro de uma série porque é dos mais originais, instigantes. Assim, a seguir, bem-vindos ao Canal de Dotonbori e muitas outras histórias.

Temos os canais, mais famosos, de Veneza, de Suez e do Panamá. Por que o de Dotonbori, no Japão?   

Falo da região do canal de Dotonbori. Apesar de tudo é, na realidade, um bairro, centro de lazer de Osaka. Interessou-me como contraponto à seriedade e ao formalismo japonês.

Foi pelo nome “exótico” que ele virou título de seu primeiro livro, “O Canal de Dotonbori e Outras Histórias”?

Também isso. Não sabia como era difícil escolher um título. Tudo que eu escolhia, já havia um livro com o mesmo título. Aí eu pensei: ninguém deve ter um título como esse. Claro que ter um nome pouco conhecido despertaria certa curiosidade

Por que tanto tempo, aos 73 anos, para publicar este primeiro livro, que não é um livro de engenheiro, mas de um verdadeiro escritor?

Não posso negar uma influência do meio familiar. Meu pai, meu avô, meus tios viviam rodeados de livros. Muitos deles escreveram e publicaram. Com um alcance limitado, mas escreveram. De presente de aniversário, eu sempre ganhava livros. Assim, pensei, dois anos atrás: se eu tentasse escrever, o que sairia? Estou envelhecendo, mas ainda dá tempo de tentar algo novo. Eu sempre fui um contador de “causos”. Meio de brincadeira sentei ao computador e escrevi um conto. Saiu fácil, nem me deu muito trabalho. Fui fazendo mais. Quando consegui escrever 20 contos pensei, quem sabe, pode sair como livro. Claro que tinha limitações. Mas poderia ser um livro.

Você conheceu todos os lugares, cenários do livro, profissionalmente ou como turista?

A maioria profissionalmente. Achava ótimo porque me permitia um contato com pessoas reais. Como turista você fica muito restrito ao meio de outros turistas, pessoal do hotel e guias (que se comportam de forma artificial e padronizada). Viajar a serviço não tem igual, se você quer realmente conhecer as pessoas de verdade.

E a Noruega? Tem um espaço especial ou só espacial?

É um lugar emocional. Só há dois contos aqui que se referem à Noruega, e mesmo assim de forma tangencial. Fiquei devendo. Quem sabe no próximo.

Logo na primeira história, “O Sorriso da Aeromoça”, você dá a chave de todas as outras histórias “sem fim”, confessando que “não haverá porto de chegada”. Concorda? O leitor escolhe o “final” da história?

Considero que, na vida real, os finais das histórias são controvertidos, imprecisos, discutíveis. Não é como nos filmes, onde no final se tenta explicar tudo. Filmes americanos, especialmente, tendo a assistir 70 a 80% e cair fora, ignorando o final. Prefiro finais em aberto. Quem tudo explica mata a história. Mas não diria que a pessoa escolhe o final. Acho que, dos vários finais possíveis, um escolhe você.

Nem sempre são finais felizes...

Finais felizes não geram histórias boas. Tem aquela frase: “Os países felizes não têm história”. A felicidade não cria narrativas interessantes, exceto nas comédias.

A 2ª Guerra Mundial é levemente recorrente no livro. Isso por causa de seu pai que foi aviador no período?

Meu pai e meus tios viviam contando histórias da 2º Guerra. Eram de arrepiar. Ainda tenho muito material.  Mas não quero ser monotemático. O livro inteiro foi estruturado assim. Não podia ter mais de três histórias com o mesmo tema de fundo.

A mesma guerra, para o Tenente Borten, parece não ter durado muito. Ao contrário de seu compatriota, Bernt Balchen. Conhece?

Bernt Balchen foi um grande explorador do ártico, um ousado aventureiro, pioneiro da aviação, militar norueguês e depois americano. Meu pai era apenas um engenheiro que estava no Brasil, que ficou com raiva dos alemães terem invadido a Noruega e se alistou como voluntário na RNAF (Real Força Aérea Norueguesa no exílio) e ficou três anos. Quando a guerra acabou, deu baixa, e voltou à vida civil no Brasil. Foi apenas um curto hiato.

Como foi lançar o livro em plena pandemia, com as livrarias fechadas? Teremos um lançamento “normal”?

Foi muito ruim, mas não teve jeito. Sem lançamento oficial tudo fica difícil. Vamos pensar num lançamento oficial posterior... Mas não é a mesma coisa.

No Facebook, entre outras capas, não usadas, você anda postando ilustrações (para as histórias) que não estão no livro. O que aconteceu?

Poderia ter feito ilustrações. Mas sempre desenhei muito e queria ver como o público reagiria ao meu texto, puro e simples, sem mais. Portanto insisti em não haver ilustrações. Talvez tenha errado...

Aliás, a capa e os desenhos são de tua autoria. E revelam outro talento, agora, para as artes plásticas... Mais criatividade “escondida”?

Como disse, sempre desenhei bem. Mas não tenho grandes ambições com isso. Não diria que esse lado ficou escondido. Apenas não muito aproveitado.

No livro também, claro, está a arte e o psiquiatra suíço Carl Jung, por quem teus sinos sempre dobraram. Como ele veria a arte em 2020?

Claramente como presságios de grandes problemas. Para ele a arte vem de fora como uma premonição.  O histrionismo, a deformação e o niilismo presentes na arte contemporânea seriam provavelmente interpretados como sinais de guerras e catástrofes por vir. Os arquétipos da destruição estão muito ativos... Mas os ETs nos salvarão. Pelo menos eu acho que sim.

Ainda no Facebook, você publicou pelo menos uma história que não entrou no livro. Podemos esperar outras?

Contos de vez em quando, sim. Livros, talvez não. Mas sempre haverá uma história pedindo para ser contada. Só não sei em qual mídia.

Uma provocação para terminar. O Afeganistão te inspiraria?

Não. É muito primitivo. Acho que sem salvação. Temos que pensar em outra coisa. Vejo possibilidades no Irã, acho que tem futuro. Antes que eu me esqueça, gostaria de informar aos leitores que meu livro “O Canal de Dotonbori” pode ser adquirido pelo site: www.quixote-do.com.br.