Paulo Navarro | sábado, 19 de junho de 2021

A escritora Madu Brandão. Foto: P. Adolpho Zeymer

Madouce Doida

Nos livros é Madu Brandão, no Facebook, Madu Madoida. Para os amigos, louca pela vida, pela palavra. Esta entrevista ressuscitou Oscar Wilde que indicava: “Se me derem o supérfluo, abro mão do indispensável”. Ou, “Nenhuma pergunta é indiscreta. Algumas respostas é que costumam ser”. Assim, as perguntas pularam de dois de seus livros, “Dispensável Nudez”, “Pão Mofado - Contos & Babados”.

Madu, ainda quer morrer escrevendo?

Depois de uns trinta e poucos livros, sim, nada mais sensacional e ou tiritante.

Sobrevive bem à pandemia sem fim?

Eu vivo e “sobre-vivo”, escrevendo. Não existe vida caso eu não escreva. Às vezes vejo a pandemia como um filme. Mas filme acaba e a gente dorme feliz, depois do “The End”. Nela, não. É acordar e visualizá-la num simples abrir da janela.

Solidão boa é a dois, na multidão ou sozinha?

Palavra de respeito, impõe um poder danado. Sabe-se dela, pelos arrepios no corpo. É ruim, mas boa. Te ensina um “porrilhão” de coisas, que você vai ver só lá na frente. Vale a pena.

Escrever dá mais prazer que sexo? Dura mais?

Prazeres bem parecidos: na entrega, no curtir, no desnudar-se, no assanhar-se. Pergunta sábia. Ambos podem durar muito ou pouco. O pouco que durem, já é satisfatório. Ah! E tem o gozo. Aí é imbatível. Mil vezes já “sartei de banda”, do livro e do sexo. Os temas não me agradaram.

Você escreveu muito para crianças, mas o lado erótico continua...

Escrevi e escrevo pra crianças. Ainda há muito para sair. Mas o erótico... Sabe uma árvore lotada de frutos? Cuido dela, rego-a com dedicação, conversamos; sempre virá o fruto. Basta um sinalzinho e ele cai no meu colo. Uma maçã que mordo sem nem descascar.

“Pão” mofado ou bem babado?

Babar é meio nojento. Mas pegá-lo mofado e resgatar, do seu bolor, toda a simbologia que ele um dia teve, não tem preço. Adoro! Sempre que me surge um, à frente, minhas coronárias se agitam calorosamente. Viro uma fornalha.

“Margarida” encharcada ou vento de chumbo?

Não lhe parecem antíteses? A margarida é minha florzinha preferida. Freud explica: papai as amava. Vento de chumbo, nunca peguei. Mas é incrível como ele se sustenta no meu imaginário. Tema para um tonel de livros impactantes.

Toda, qualquer, nudez será castigada ou dispensável?

Outra perguntinha difícil. O barato da nudez é que só você tem posse sobre ela. Ficar nua ou não, é questão mental. Porque você só pode ficar nu, vestido. Não é fenomenal? Nua. Pelada. Totalmente disponível.

Quem mora dentro de você?

Um ser inconcluso, vario demais. Inúmeras são as personagens de que posso dispor. Vai demorar pra chegar ao fim delas. Me divertem. Às vezes, de modo irracional, me jogam na cama. Não para dormir, mas me desligar. Se não, a coisa complica.

Por que você nasceu?

Sem resposta. Será que alguém me desejou? Surgi ao azar; do nada; de um frêmito ou rubor; de uma inspiração ou de um calafrio? Vá saber...