Paulo Navarro | sábado, 17 de outubro de 2020

O Filósofo das Tintas

O mais famoso Tales, o de Mileto, foi o “primeiro filósofo ocidental”, um dos Sete Sábios da Grécia Antiga. Thales Faria Pereira é um sábio, um grande artista plástico, pintor de apuradíssima técnica, com temas no mínimo, originais, irônicos, o que pressupõe inteligência. Thales também é ótima conversa, apesar de, em entrevista, medir e pesar as palavras. Ou seja, não mete a mão em cumbuca cheia de serpentes e escorpiões. Carioca de Minas, tem sobrenomes portugueses e cara de Cidadão do Mundo. Com vocês, a seguir, uma pincelada de enorme mural.

Thales, você ficou menos jovem recentemente. Como foi a comemoração? Esqueceu o próprio aniversário?

Não sou chegado a comemorar aniversários, claro que nunca esqueci... Mas nunca fiz festas; impressionante é o fato das pessoas ligarem, mandarem mensagens legais, chego a sentir culpa por não dar a mesma importância que dão...

Você nasceu no Rio, mas é belo-horizontino há quanto tempo?

Vim do Rio, aos 17 anos, porque meu pai veio trabalhar aqui. Íamos morar dois anos em Paris, mas houve uma guinada e vim para cá revoltadíssimo... Só que, de cara, amei BH e uns amigos loucos que logo arrumei. Fiquei na dúvida entre arquitetura e comunicação visual/design, que me atraía desde criança, pois colecionava maços de cigarro, caixas de fósforo e selos; a essência do mundo gráfico na minha infância. Virei designer e pulei de cabeça, quando montamos o Arquitetura e Design, com Cid Horta e um bando de arquitetos jovens e competentes. Belo Horizonte fervia, era o início da Savassi e de uma mudança cultural e comportamental extremamente rica e criativa. Acreditem, talentos afloraram em todas as áreas e tudo se encaixava no movimento ascendente, expansivo e louco que a cidade vivia. Era o início dos nossos anos dourados. Minha família voltou logo pro Rio, e eu, quando voltei, de tanta saudade do mar, fui morar em Búzios. Bye-bye design, escritório, clientes. Era 1983 e resolvi voltar a pintar e ser o artista que havia surgido na infância. Mudou tudo. Depois de Búzios e Rio, voltei pra cá em 1996 e aconteceu muita coisa...

Tua pintura é carioca, mineira ou sem fronteiras?

Completamente sem fronteiras e sem pertencer a nenhuma turma. Livre para experimentar e errar... Ainda sou assim. Nada contra fazer um trabalho tipicamente regional; prefiro não ter estilo definido e perseguir a ideia, que trará, junto com ela, as possibilidades de confecção e concretização da obra. Vivemos numa época de completa liberdade de expressão em todos os campos. Na arte, a avenida é muito larga. Ainda bem.

Como vai a produção na pandemia? Ou não vai?

Eu tenho a sorte de morar ao lado do meu ateliê, não mudou muita coisa, mas fiquei meio paralisado, revi ideias, estudos que viraram nada (é o que eu mais tenho) e às vezes acho estranho, me sentir tão bem, apesar do caos. A arte é uma alienação deliciosa e útil.

Nestes tempos a inspiração é possível?

Claro! A não ser que você se apavore e deixe o medo te paralisar completamente.

Sua técnica é de incrível perfeição. Já os temas são inusitados, quase irônicos, concorda?

Minha base é o desenho, embora você possa ser um baita pintor e não saber desenhar. Talvez pelos anos de desenho e do design gráfico, fiquei um pouco preso à síntese e à representação. Talvez nunca consiga o sonho de chutar o balde, encarar uma grande tela branca e vivenciar uma catarse, quase espumando... Só que não sou assim, mesmo as pinturas abstratas que fiz tinham o cérebro controlando, mediando e, muitas vezes, dizendo: “Para por aí, está uma merda!”. Eu obedeço e depois da paralisação meio prolongada, começo outra coisa. Quanto aos trabalhos com teor político ou crítica social, eu prefiro ir direto pro lado da ironia e a fuga do óbvio. Já me levei a sério, mas passou.

Que telas você tem em casa, além das suas?

As do meu filho Luca, feitas quando ele tinha quatro, cinco anos. Abstratos maravilhosos que quase me matavam de inveja! Depois abandonou e, agora, aos 19 anos, é um tremendo compositor erudito.

Que cores daria a Belo Horizonte, Minas e Brasil em 2020?

Minas e BH têm a cor do ferro e suas variações na oxidação, mas tudo coberto com um manto azul do céu. O Brasil está chato, polarizado, medroso, sem cor, mas seu futuro é brilhante.

No filme Casablanca, o personagem de Humphrey Bogart, Rick, não fazia planos com muita antecedência (para o dia seguinte). E o Thales? Planos para amanhã, 2021 ou só 2022?

Não consigo planejar nem o dia seguinte! É uma contradição, pois fui professor de planejamento e projeto no início dos anos 1980; nem as aulas eram planejadas... Um caos.

Uma dica para terminar e passar a quarentena com criatividade.

Não veja muito os noticiários da TV. Veja filmes, tome sol, saia de casa, evite aglomerações e seja feliz, lembrando que tudo passa.