Paulo Navarro | sábado, 15 de maio de 2021

Entrevista com o artista plástico Antônio Costa Dias. Foto: Paulo César Domingues

Mestre Aprendiz

O ímpar convidado é o múltiplo Antônio, Antonio, Toni ou Tony? “Antonio Costa Dias, ‘please’”. O Antonio de 1948 que nasceu “numa BH, que não existe mais, onde não me reconheço e nem me encontro, que se perdeu no tempo e na história”. O Antonio de 2020, “o ano em que morremos um pouco”. Entrevista peculiar, onde pouco falamos de suas artes, incluindo a atual, em azulejos, mas de pandemia.

Você foi professor de quê e em que escolas?

Na década de 1970, aluno de Artes Plásticas, na Escola Guignard e Letras na Fafich, UFMG. Universos distintos e diferenciados. Optei pelo ensino de Arte, na Guignard e depois na EBA UFMG onde coordenei o Curso de Estilismo, lutando contra o preconceito que não aceitava Moda concorrendo com Arte.

Até...

2003! Libertação de trabalhos, obrigações, horários e dedicação à tudo que amo: arte, moda, ilustrações, viagens, jardinagem, culinária, música e cinema.

E o confinamento?

Me fez olhar para a casa, que me preenche, me encanta. Lavar um lustre de cristal, a coleção de garrafas antigas, campainhas de bronze. Semanas? Em dois dias tudo terminado; decidi mudar móveis de lugar, vasculhar armários, desfazer de inutilidades. Mudar, renovar.

Já em 2020?

O ano em que morremos um pouco. Parece nome de filme de ficção, mas é o momento: prisão domiciliar, reclusão social. Inicialmente 700 mortes/dia na Itália, ameaçando os vizinhos. Aí, me vi numa sala de cinema, assistindo “Contágio”, sem poder abandonar o filme. A realidade chegando até nós, atingindo pessoas conhecidas.

E 2021?

Um grande jardim ocupa quase todo meu tempo agora. Observar, podar, mudar de lugar, criar áreas novas, como uma fonte de azulejos. Comecei uma produção de azulejos em cerâmica esmaltada que foi tomando conta de mim. Troquei a noite pelo dia. A manhã nunca me encantou, então foi a oportunidade de vivenciar uma experiência nova: trabalhar durante a madrugada, sempre com Mozart ao fundo e acordar bem tarde.

Você é notório viajante. Como vive a falta que as inspiradoras viagens fazem?

Viagens paralisadas desde 2019. Um costume fascinante, mas agora? Como? Para onde? Fronteiras fechadas. Vai passar. Não sou mais o mesmo, o planeta mudou. Aprendi a ser paciente, tolerante, menos ansioso. E terei que mudar mais ainda para enfrentar o novo mundo que me aguarda.

Quando tudo acabar, passar, der um tempo, para onde pretende ir e comemorar a sobrevivência?

Pensei nos muitos amigos na França. A saudade gritou! Como estão? Liguei para vários, choramos juntos... Espero logo voltar à Alsácia, meu lugar no mundo.

Livros, filmes?

Revi filmes que fizeram parte da minha juventude. Listei diretores preferidos e mergulhei em cenas fascinantes que só o cinema pode nos oferecer. Pouco li. Reli “Cem anos de Solidão” que sempre me surpreende e agora, “Totem e Tabu”, de Freud, desejo despertado em Viena, onde fiquei alguns dias e revisitei a casa do Mestre.