Paulo Navarro | sábado, 15 de janeiro de 2022

Entrevista com o médico neurocirurgião e ator Jair Raso. Foto: Divulgação/Teatro Feluma

Raso Profundo

Nossa curta, fina, ótima conversa de hoje é com Jair Raso, médico neurocirurgião, ator, autor, diretor de teatro. Sim, um raro prazer ser contemporâneo de um homem tão plural; criativo, sério, atento e competente em duas áreas distintas. Ou não? Porque a arte também opera milagres na cabeça das pessoas, certo Jair? “Com certeza. A arte cura”. Então a seguir, diagnósticos e tratamento.

Jair, quem nasceu primeiro, o neurocirurgião ou o artista?

O artista. Comecei o teatro em 1976, antes de entrar para a faculdade de Medicina.

Sofreu algum preconceito como médico invadindo a praia dos artistas?

Sim. Mas o contrário também é verdadeiro. No meio médico é comum ouvir: você ainda mexe com teatro? Como se fosse um vício da adolescência.

Fácil conciliar as duas atuações?

Não. A Medicina é muito exigente e o teatro acaba por ocupar as horas vagas. Como para mim teatro é trabalho, acabo trabalhando muito mais.

Ambas te conferem o mesmo prazer?

Prazeres diferentes. Transformar o conflito de ter duas profissões num convívio pacífico passou a ser meu grande prazer.

Qual a tua especialidade na neurocirurgia, arte para poucos?

Neurocirurgia vascular e da base do crânio. Considero sim uma arte, para poucos, pois o investimento em tempo e dedicação é alto. Além do mais, são especialidades em constante evolução. Mesmo bem preparados, nunca estamos prontos. Sou um eterno aprendiz.

Qual o perfil do teu teatro?

O Teatro Feluma não é apenas mais uma opção em casa de espetáculo. Também tem o objetivo de fomento e apoio às artes cênicas mineiras, além de ser um espaço que une arte, ciência e conhecimento.

Qual teu maior sucesso?

De público, a peça “Chico Rosa”, musical que mostrava o encontro de Noel Rosa e Chico Buarque. “Três Mães”, “A Corda e o Livro” e “Memórias em Tempos Líquidos” me renderam prêmios de dramaturgia. A comédia “Defunto Bom é defunto morto” está em cartaz desde sua estreia, em 2000. E a peça “Julia e a Memória do Futuro”, que estreou em 2006 sob minha direção, agora tem nova versão dirigida por Kalluh Araújo. Tenho um carinho especial por “Espelho (Vida na TV), escrita para Wilma Henriques, que encerrou sua carreira com essa peça. Até hoje me emociono ao lembrar da última vez que nossa grande estrela brilhou nos palcos. Mas o maior sucesso foi estrear em plena pandemia minha peça “Maio, antes que Você me Esqueça”.

Planos para 2022?

Muitos. O Feluma receberá a Campanha de Popularização do Teatro. A Feluma e o Teatro patrocinam a peça “Vermelho Carmim, Fragmentos de um Discurso Violento”, escrita por mim e Andrea Raso para a Fiocruz, sob direção de Pedro Paulo Cava. Em novembro o Teatro realizará show em homenagem a Fernando Brant. Em setembro, o 1º Congresso Brasileiro de Sexualidade, ideologia e gênero, com Elizabeth Roudinesco, historiadora e psicanalista francesa, lançando seu novo livro sobre o assunto.