Paulo Navarro | sábado, 13 de junho de 2020

Foto: Danilo Viegas

Dr. Entretenimento e Mister Esperança

Primeiro, uma pergunta aos leitores. Que caminhos trilhou nosso entrevistado de hoje, Paulo Solmucci, até a presidência nacional da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes, Abrasel para os íntimos? O próprio Paulo responde: “No final da década de 1980 e na década de 1990, resolvi empreender no setor de alimentação fora do lar e em sociedade com meu irmão, Marcelo. Inauguramos o Grupo Solmucci, responsável pelo lançamento e administração de alguns dos principais bares, restaurantes e casas noturnas em BH. Nos anos 1990, nosso grupo era proprietário das melhores casas da capital mineira, algumas entre as melhores do Brasil: Ao Bar, Sausalito Point, Ao Grill, Manhattan, Amoricana, Margherita, Restaurante do Minas 2, Buffet Sausalito, Bonaparte (Chamonix), Coliseu do Chopp, Colúmbia, Parthenon, New Sagitarius e Cinema Paradiso. Também fomos sócios na Pizza Mais, uma das pizzarias pioneiras na modalidade “delivery”.

Paulo, depois dessa apresentação, uma pequena avaliação destes anos dourados...

A geração belorizontina das décadas de 1980-1990 tem uma lembrança forte das marcas administradas pelo nosso grupo. Marcas que foram parte ativa da vida gastronômica e social da cidade. Sou engenheiro por formação, mas tenho orgulho mesmo é de dizer que fui dono de botequim; isso me deu uma expertise que talvez não encontrassem em nenhuma outra atividade.

Foi o caminho das pedras preciosas até a Abrasel nacional?

Essa vivência no setor de alimentação fora do lar acabou me aproximando sim da Abrasel, no final dos anos 1990. Em 2002, assumi pela primeira vez um cargo de líder dentro da organização, tendo me tornado presidente da seccional Minas Gerais. Já em 2004, me tornei presidente do Conselho de Administração nacional da Abrasel, por dois mandatos consecutivos, sendo que em 2008 fui convidado para ser o primeiro presidente-executivo nacional, posição que ocupo até hoje. Nessa nova missão, dei início à implementação do processo de governança corporativa da associação e, junto ao Conselho de Administração e ao Conselho Nacional, liderei os processos que colocaram a Abrasel entre as dez entidades empresariais mais representativas do país.

E quais as principais conquistas?

Nesse período, grandes lutas travadas nos 34 anos de existência da Abrasel tiveram êxito, como a regulamentação da gorjeta e do trabalho intermitente; e a questão das maquininhas dos bancos, que passaram a aceitar todas as bandeiras, a batalha contra impostos abusivos dos governos estaduais e federal. Trabalhei também o enfrentamento à verticalização e concentração bancária e tantos outros pleitos do setor de alimentação fora do lar. E agora, seguimos trabalhando pelo setor frente essa pandemia, um desafio nunca antes vivido.

BH ainda é a cidade dos bares, com toda a Lei Seca etc.? Ainda somos os campeões?

Sim, BH continua com o título de capital dos bares. Isso está na cultura do mineiro, do belorizontino.

Qual o maior obstáculo para bares e restaurantes em Minas? Leis estapafúrdias ou impostos?

Não só em Minas Gerais, mas em todo país, ficamos à mercê de uma gama de leis estapafúrdias, que não trazem nenhum benefício real a quem empreende, pelo contrário: dificultam a série de prejuízos financeiros; de tempo e de energia. Sabemos que muitos desses projetos são uma tentativa legítima de acertar, mas quando não há diálogo, quando não há escuta de todas as partes que serão impactadas por aquela lei, ela tende a não cumprir o propósito de facilitar e melhorar a vida das pessoas.

Como na política e na vida, falta diálogo, informação.

Na maioria absoluta dos casos, esses recursos seriam melhor empregados em campanhas educativas voltadas para a população, ações que teriam efeitos mais profundos e duradouros do que simples proibições. Essa cultura precisa ser transformada; vereadores, deputados, senadores devem trabalhar pelo povo e com o povo. Por isso a gente reforça o convite a todos esses representantes do povo para caminharmos lado a lado na construção de um Brasil novo, onde seja mais simples empreender e que os cidadãos tenham melhor qualidade de vida.

Vamos ao que mais interessa, infelizmente. Qual o tamanho do rombo devido à Covid-19?

Estamos vivenciando uma crise numa proporção nunca antes experimentada no mundo moderno. Acredito que ninguém estava preparado para que o aconteceu e estamos tentando nos preparar da melhor forma para o que virá, quando isso passar. Como toda crise, essa tem efeitos devastadores e também janelas para profundas transformações. O setor de bares e restaurantes é, sem dúvida, um dos mais atingidos no mundo todo. Desde que a pandemia teve início, as pessoas deixaram de ir até esses estabelecimentos, antes mesmo de qualquer decreto. E aí começou uma queda vertiginosa no faturamento desses negócios, que ainda tiveram que lidar com perda massiva de estoque, que é altamente perecível, diferente de outros setores.

E hoje? E amanhã?

A realidade atual é que um em cada cinco estabelecimentos já fechou as portas em definitivo, não vai mais voltar. E a tendência é que esse número aumente enquanto o confinamento durar. As perdas de faturamento já ultrapassaram 80% e, para muitos, chegou a 100%  – o resultado disso tudo foi um milhão de trabalhadores demitidos até agora, número que só não foi pior em função da intervenção do Governo Federal, com a MP 936, a MP dos salários.

Existe um remédio, uma vacina para esta catástrofe?

Para que esse cenário não se deteriore com mais velocidade ainda, a Abrasel está cobrando, dos governos municipais e estaduais, transparência na divulgação das informações e na elaboração de planos de retomada. Precisamos saber como está realmente a taxa de ocupação das UTIs destinadas aos pacientes com a Covid-19 em cada lugar, porque cada região está vivendo uma situação distinta. Então não faz sentido ter uma resposta única para o país, que é a do fechamento total.

Qual é a prescrição, a receita disponível?

Precisamos trabalhar em conjunto para planejar, com muita responsabilidade e segurança, a retomada das atividades nas cidades onde isso seja possível, adotando todos os critérios estabelecidos pela Organização Mundial de Saúde (OMS), Ministério da Saúde e demais órgãos competentes, como o afastamento de um metro entre cadeiras ocupadas e a redução na capacidade de atendimento, por exemplo.

E pelo lado da Abrasel?

A Abrasel está preparando e orientando os empresários e funcionários do setor nesse sentido, com uma gama de informações atualizadas diariamente no site abrasel.com.br/coronavirus. Mas não tem como fazer isso sem ter dados atualizados em mãos e um plano bem desenhado pelo poder público. Como disse antes, o setor tem uma característica muito peculiar, que é um estoque altamente perecível. Então, para nós, não adianta o prefeito avisar hoje que a partir de amanhã estará liberado porque o dono do restaurante não vai conseguir abrir as portas. Ele precisa de um tempo maior para negociar com os fornecedores e repor esse estoque. Por isso, esse apelo por transparência.

O decreto do presidente Bolsonaro ajudou, vai ajudar ou precisa ser ampliado?

A medida provisória dos salários (MP 936) foi importantíssima, sem ela teríamos um desemprego até três vezes maior do que o atual. O que precisamos agora é prorrogar essa medida para alguns setores, que terão um processo de retomada mais lento, como é o caso dos bares e restaurantes. A previsão é de que serão de três a seis meses operando no prejuízo, ou seja, uma retomada real só começa a acontecer no final do segundo semestre. Por isso, precisamos garantir que essa ajuda do governo continue chegando para quem precisa.

A favor da flexibilização cuidadosa?

Sim, sempre. Observando os critérios técnicos definidos pela OMS e Ministério da Saúde e com a tomada de decisão dos governos feita de forma transparente e com a participação da sociedade.

Abrir bares e restaurantes não é tudo. O povo também precisa perder o medo?

O medo existe, mas não é de todo negativo, fará com que sejamos mais precavidos. O setor de bares e restaurantes sempre foi atento às questões de segurança dos alimentos, estando muito acostumado a trabalhar dentro das normas de prevenção à contaminação ao preparar e servir esses alimentos. E não há nenhuma evidência por parte da OMS e da Anvisa de que esse vírus seja transmitido por meio dos alimentos.

Mais uma vez, diálogo e ação conjunta?

Um dos desafios trazidos pela pandemia é a implementação de diretrizes de prevenção no relacionamento entre as equipes e os clientes e também entre os próprios clientes. Por isso, uma série de medidas foi recomendada pela OMS e também pelo Ministério da Saúde e outros órgãos competentes. A Abrasel se apoiou nelas para preparar um material de orientação aos estabelecimentos do setor, que engloba desde a distância segura de um metro entre as cadeiras ocupadas, nas filas de entrada e pagamento, limpeza das mesas etc. Esses cuidados valem para padarias, restaurantes à la carte, restaurantes a quilo, bares etc. Precisamos que os clientes tenham consciência e sejam solidários para com os demais, respeitando essas orientações, se cuidando e ficando em casa caso apresente algum sintoma.

Alguma coisa positiva, no meio desta crise sem precedentes?

Como em toda crise, sim, existem oportunidades de transformações profundas – o que vale também para o lado positivo. As pessoas, no geral, estão cada vez mais solidárias, com mais senso de comunidade. Valorizando pequenos gestos, pequenos cuidados. Seja de um vizinho, de um restaurante que entrega um delivery, de um artista que faz uma live, de um parente que liga para saber se está tudo bem. É um resgate da simplicidade, do genuíno. E a esperança é que esses sentimentos prevaleçam quando atravessarmos a pandemia. Nos negócios, a gente também percebe uma busca pela simplificação de processos, de aumento de produtividade, de comunicação cada vez mais transparente com os clientes. Esses são valores que devem perdurar no pós-crise.