Paulo Navarro | quarta-feira, 7 de outubro de 2020

Um exemplo de que os bons tempos e a tolerância voltarão: Ana e Lito Mascarenhas

Foto: Edy Fernandes

Outro lindo exemplo de que tudo ficará bem: Juliana Grilo e Gabriella Marques

Foto: Edy Fernandes

Santa incoerência

O Brasil teve a vantagem e a desvantagem de, mais uma vez, chegar atrasado ao encontro com a civilização. Mesmo pelo lado negativo. A Covid-19, com naturalidade chinesa, chegou rapidamente à Europa e fez o estrago, a “carnificina” que conhecemos. Principalmente no Reino Unido, Espanha, Itália, França e Bélgica. O fato de o Brasil ter sido contaminado um “apenas” um mês depois ajudou em nada. Nenhum país, com exceção da Alemanha, tinha recursos para testes, materiais diversos e confinamento.

Santa confusão

O confinamento, em todo mundo, pode ter evitado mais mortes, mas afundou a economia global. Pela lógica, os países que sofreram primeiro também seriam os primeiros a voltar à normalidade ou à nova normalidade. Foi o que aconteceu, mas o vírus não é lógico, nem previsível. O que vemos na Europa, depois da primeira onda, é a volta da pandemia, enquanto o Brasil ainda não saiu da primeira fase, com todos os seus revezes.

Santa encruzilhada 

Apesar da ajuda do governo brasileiro e da certeira ajuda do nosso agronegócio, o país e o mundo somam perdas gigantescas na economia. Adiciona-se a este trágico panorama a pandemia de dúvidas, informação e desinformação. Especialistas em tudo, divergindo em tudo. Confinamento vertical ou horizontal. Remédio tal ou qual. Quando virá a vacina e qual delas será confiável? Nesse cenário, aqui e no mundo, o “abre e fecha, reabre e fecha de novo” de bares e restaurantes. Belo Horizonte está no Brasil e no mundo.

Santa disputa

Em Paris e Marselha, na França, por exemplo, uma guerra entre o governo e donos de bares e restaurantes. Muitas piadas também, como aquela em que o garçom, “bem parisiense”, dá um ultimato ao casal na mesa: “Vocês precisam sair agora porque daqui cinco minutos, às 22h, é a hora reservada pelo vírus”. Como a vida imita a arte e o humor, estamos vendo a mesma coisa em Belo Horizonte.

Santa loucura

Em BH, às 22h, os estabelecimentos estão, por lei, obrigados a encerrar as suas atividades, com intensa fiscalização policial e risco de cassação do alvará de funcionamento. Os proprietários da casa são obrigados a pedir, implorar aos clientes para se retirarem, mesmo que não tenham terminado o jantar. O problema é, claro, nesse caso, a conta não é cobrada. O prejuízo, mais um da coleção, fica com o dono do negócio, já cheio de dívidas. Isto, no bar e restaurante que conseguiu sobreviver.

Santa inquisição

Durante a quarentena, recorde mundial de seis meses com os restaurantes fechados, as taxas de fiscalização foram devidamente cobradas, claro. Fechando o clima de terror, os ônibus que levam os funcionários para a casa, em longínquos endereços, circulam apenas até as 21h. As empresas que ousaram retomar seus negócios ficaram com a responsabilidade de transportar seus funcionários até a casa de cada um, em vans, Kombi.

Santa revolta

Para temperar ainda mais o caldo do desespero, um detalhe do qual fomos testemunhas, num sábado à tarde, depois do almoço. Uma senhora teve seu carro rebocado de uma vaga reservada aos idosos. Então, idosos, cuidado com as vagas reservadas, no caso, em frente a um já combalido restaurante. Seu automóvel pode ser rebocado. Por quê? No Detran, o departamento responsável por expedir as licenças de estacionamento não funciona desde o início da pandemia. Assim, o idoso que acabou de comprar um carro e ainda não tem a licença para estacionar não deve usar a sua própria vaga.

Curtas & Finas

* Ainda sobre a intolerância da fiscalização em bares e restaurantes a partir das 22h: desde o momento em que os clientes são notificados e lembrados do prazo, eles têm dez minutos para abandonarem o local, como em risco de bomba, inundação ou incêndio. Falta de traquejo, jogo de cintura e educação.

Nesta época de “vacas magras”, restaurantes vazios ou fechados, temporariamente ou para sempre; distanciamento e outras restrições draconianas, o que acontece? Se o cliente não cumprir a ordem, não conseguir sair a tempo, a multa, pasmem, de R$ 9 mil, vai para o dono da casa. O mesmo que já perdeu muito dinheiro e está cheio de dívidas gerais, com funcionários, fornecedores, aluguel etc.

A “armadilha” está exatamente aí. Para evitar a multa exorbitante, forçado a “expulsar” os próprios clientes, o proprietário só tem uma opção: não cobrar a conta. Mais prejuízo. Outro mórbido detalhe: um empresário amigo, dono de três restaurantes, foi “obrigado” a contratar um Kombi, que roda, ao todo, 150 quilômetros, toda noite, para levar os funcionários em casa.

Mais um detalhe desesperador: no caso da idosa que teve o carro rebocado, com ele foram os documentos e as chaves da casa. Nem satã seria tão implacável! O reboque vai além da penalização da idosa. Alcança, claro, indiretamente, os donos de restaurantes. Essa situação acaba afastando os poucos clientes que restaram. Clientes valiosos, que gastam. Não estamos falando dos bares lotados de jovens que consomem apenas cerveja.

Resumindo a ópera bufa: ordens são ordens. Não tem meio termo, conversa com manobrista, gerente, garçom, nada. Multa e reboque. Mais que nunca, no Brasil, os fins vêm antes do meio. Criam-se leis sem que o cidadão tenha como cumpri-las.