O morador da Filosofia

Para os mortais, Roberto Brant é apenas mais um ex ministro de FHC. Para outros, Roberto é mais um irmão de Fernando Brant. Para quem tem foro privilegiado é fácil definir Bob em mil palavras: inteligente, culto, bonito, engraçado, bem humorado, sedutor, poeta, prosador, bon vivant, trabalhador, apaixonado, apaixonável, erudito, sábio, feliz, humanista e, se bobear, deve ter até defeitos.

- Roberto, aquela fábula... O homem feliz não usava camisa?
- Como todas as fábulas não é verdadeira. A privação de bens faz ninguém feliz. Achar que o selvagem era mais feliz é absurdo. Eram vidas breves, cheias de privações, dor e violência. O progresso permitiu ao homem ser mais humano, ter autoconhecimento, prazer. Só os veganos e os ambientalistas radicais lamentam o progresso material. Lembra-me o personagem de "Meia Noite em Paris", de Woody Allen, convencendo a amada de que a "Belle Époque" tinha nada de bela: "Tive um pesadelo no qual eu ficava sem antibiótico, fui ao dentista e ele não tinha anestésico".

- Feliz é o homem sábio ou o ignorante?
- Sabedoria, não a simples erudição ou conhecimento científico, é indispensável à felicidade. É prestar atenção à vida, dispor-se a compreender e aceitar o mundo, estar sempre agradecido, à Deus ou ao destino, a sorte de existir. Ignorância é passar pela vida e não viver.

- A filosofia explica ou complica a felicidade?
- Não explica nem complica. É um esforço para nos mostrar a vida, além das armadilhas do falso conhecimento trazido pelas religiões, pela cultura. Todo homem que duvida e pergunta é uma espécie de filósofo. Perguntar e duvidar nos levam a um mundo novo. Há quem prefira saber nada, Não penso que isto seja felicidade humana. Pode ser bovina!

- O que é morar na filosofia, como cantava Monsueto?
- É mergulhar na sabedoria dos simples. Não rimar amor com dor. Fomos feitos para o dever de ser feliz, mesmo na tragédia da vida humana.

- Uma de Caetano: filosofar só é possível em alemão?
- Algumas línguas podem ser mais adequadas para exprimir idéias complexas. Uma coisa é certa: pode-se dizer bobagem em muitas línguas.

- E o favorito, Nietzsche?
- Não tenho altitude intelectual para julgar os grandes pensadores. Nietzsche tirou o caráter sagrado que encobria a moral, a cultura e as mostrou como produções humanas. Identifico-me com seu humanismo e amor à vida.

-Amor rima com sabedoria?
- É sua melhor rima. O resto é instinto!

- Uma frase sobre ou para as mulheres, por favor ...
- Depois da "Queda", a mulher foi o único bem que o homem conseguiu trazer do Éden, a única lembrança sem pecado e plena de prazeres. Tudo o mais lhe foi tirado.  Hoje sabemos que o homem não perdeu muito, porque trouxe de lá a principal beleza!